{"id":9099,"date":"2022-02-09T21:32:28","date_gmt":"2022-02-10T00:32:28","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=9099"},"modified":"2022-03-24T12:00:47","modified_gmt":"2022-03-24T15:00:47","slug":"em-que-se-diferencia-a-nova-onda-progressista-latino-americana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/em-que-se-diferencia-a-nova-onda-progressista-latino-americana\/","title":{"rendered":"Em que se diferencia a nova &#8220;onda progressista&#8221; latino-americana?"},"content":{"rendered":"\n<p>A Am\u00e9rica Latina assistiu a uma nova retomada de governos de esquerda e centro-esquerda, uma segunda onda progressista, embora menos movimentada do que a primeira. Neste ciclo, os governos, as suas for\u00e7as pol\u00edticas e as suas apostas program\u00e1ticas s\u00e3o mais heterog\u00eaneas. Diferem em estrat\u00e9gias e t\u00e1ticas da sua onda antecessora. Em todo o caso, em que se parecem e em que se diferem?<\/p>\n\n\n\n<p>Como primeira onda progressista, chamamos o bloco de governos de centro-esquerda e de esquerda que foram lan\u00e7ados durante as primeiras tr\u00eas d\u00e9cadas deste s\u00e9culo. Iniciou-se com o surgimento do chavismo e a ascens\u00e3o de Hugo Ch\u00e1vez na Venezuela em 1999, e incluiu o Brasil e a Argentina em 2003, a Rep\u00fablica Dominicana e o Panam\u00e1 em 2004, a Bol\u00edvia e o Uruguai em 2005, o Chile e as Honduras em 2006, o Equador e a Nicar\u00e1gua em 2007, o Paraguai e a Guatemala em 2008, El Salvador em 2009 e o Peru em 2011.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta onda deu origem a l\u00edderes pol\u00edticos como Ch\u00e1vez, N\u00e9stor e Cristina Kirchner, Lula da Silva, Evo Morales e Rafael Correa, que chegaram ao poder pela primeira vez, obtendo maiorias parlamentares, o que lhes permitiu introduzir reformas e articular os seus projectos nacionais. Houve muita diversidade entre os governos e a onda terminou em 2015.<\/p>\n\n\n\n<p>A segunda onda abriu-se com a ascens\u00e3o de Andr\u00e9s Manuel L\u00f3pez Obrador no M\u00e9xico em 2018, a que se juntaram Argentina e Panam\u00e1 em 2019, Bol\u00edvia em 2020, Peru e Chile em 2021 e Honduras em 2022. No horizonte est\u00e1 o poss\u00edvel regresso de Lula no Brasil e Gustavo Petro entre os favoritos presidenci\u00e1veis na Col\u00f4mbia para 2022. As figuras principais s\u00e3o o pr\u00f3prio AMLO, Alberto Fern\u00e1ndez e o novo presidente do Chile, Gabriel Boric.<\/p>\n\n\n\n<p>A reconfigura\u00e7\u00e3o do mapa pol\u00edtico permite estabelecer alguns pontos para contrastar as caracter\u00edsticas de ambas as ondas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>As trajet\u00f3rias hist\u00f3ricas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A primeira onda foi caracterizada por uma conflu\u00eancia de atores da esquerda tradicional, que iam desde partidos e coliga\u00e7\u00f5es de base popular, com a participa\u00e7\u00e3o dos hist\u00f3ricos partidos comunistas e socialistas, at\u00e9 o protagonismo de novos partidos e movimentos sociais consolidados no calor das lutas sociais do final do s\u00e9culo XX e uma forte marca da tradi\u00e7\u00e3o populista latino-americana. Na nova onda, embora estes elementos estejam presentes, a heterogeneidade da base de apoio \u00e9 maior.<\/p>\n\n\n\n<p>No primeiro ciclo, a esquerda latino-americana coincidia no discurso de condena\u00e7\u00e3o aos governos de direita e centro-direita do final dos anos noventa, a urg\u00eancia das pol\u00edticas sociais e reformas estruturais e, em alguns casos, refundadoras. Este novo ciclo conta com uma bateria de exig\u00eancias mais moderadas que apelam ao aperfei\u00e7oamento da a\u00e7\u00e3o estatal em alguns \u00e2mbitos, o investimento em pol\u00edticas sociais e a recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica.&nbsp; Ambas as ondas t\u00eam em comum a consolida\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7as de longa data ao lado de figuras outsiders.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A rela\u00e7\u00e3o com os Estados Unidos<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Se a primeira onda se destacou por alguma coisa, foi pela sua ret\u00f3rica hostil em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pot\u00eancia norte-americana. Proliferaram iniciativas para condenar os tratados de livre com\u00e9rcio, a ajuda humanit\u00e1ria e a atividade de organiza\u00e7\u00f5es multilaterais como o FMI e o Banco Mundial. Do mesmo modo, alguns pa\u00edses mantiveram uma coexist\u00eancia cordial com a pot\u00eancia, desde os grandes, como o Brasil, at\u00e9 aos pequenos, como o Uruguai.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira onda viveu a nova reconfigura\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica em que a China se posicionou como uma contrapeso aos Estados Unidos. A R\u00fassia tamb\u00e9m permeou intensamente a regi\u00e3o durante este tempo. No entanto, os governos progressistas da nova onda parecem menos interessados em apostar num confronto geopol\u00edtico contra os Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p>O s\u00edmbolo disto \u00e9 a assinatura do tratado de livre com\u00e9rcio entre AMLO e Donald Trump, e as a\u00e7\u00f5es para controlar o fluxo migrat\u00f3rio. Gabriel Boric anunciou contatos com Joe Biden. A nova presidente de Honduras, Xiomara Castro, disse tamb\u00e9m que aspira a uma rela\u00e7\u00e3o pragm\u00e1tica com a pot\u00eancia, e Lula falou em ter uma rela\u00e7\u00e3o amistosa com os Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O assunto da Venezuela, Cuba y Nicaragua<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A primeira onda teve em seu epicentro o impulso da Revolu\u00e7\u00e3o Bolivariana da Venezuela, apoiada por uma abund\u00e2ncia de recursos econ\u00f4micos que lhe permitiram exportar o seu projeto pol\u00edtico e a integra\u00e7\u00e3o bolivariana. Este financiamento refor\u00e7ou os la\u00e7os com Cuba, Estado mentor do regime venezuelano, e, em menor medida, com a Nicar\u00e1gua. Contudo, com a consolida\u00e7\u00e3o dos autoritarismos hegem\u00f4nicos na Venezuela e na Nicar\u00e1gua, come\u00e7aram a surgir nuances na valida\u00e7\u00e3o do modelo.<\/p>\n\n\n\n<p>A nova onda \u00e9 mais moderada e pragm\u00e1tica na sua rela\u00e7\u00e3o com Cuba e os outros regimes. H\u00e1 uma posi\u00e7\u00e3o mediada pelo ceticismo do que tem sido o socialismo do s\u00e9culo XXI para a Venezuela, e a sua liga\u00e7\u00e3o tem sido resumida na prega\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio da n\u00e3o-interven\u00e7\u00e3o. No entanto, com exce\u00e7\u00e3o de algumas diferencia\u00e7\u00f5es pontuais que se mostraram a priori distantes do autoritarismo, como a de Boric no Chile com suas cr\u00edticas a estes regimes, ou a convoca\u00e7\u00e3o dos embaixadores do M\u00e9xico e da Argentina para consulta, de momento n\u00e3o se evidenciam provas de uma condena\u00e7\u00e3o geral direcionada a esses governos pelas suas viola\u00e7\u00f5es \u00e0 democracia e aos direitos humanos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Asocia\u00e7\u00e3o internacional<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A convic\u00e7\u00e3o latino-americanista e anti-Estados Unidos dos governos da onda anterior gerou espa\u00e7os alternativos para a coordena\u00e7\u00e3o regional. A ALBA e a Unasul foram criadas como clubes de presidentes com afinidades ideol\u00f3gicas, mas que logo ca\u00edram em desuso. Na nova onda, at\u00e9 o momento n\u00e3o se evidenciou interesse por revitalizar estes espa\u00e7os ou mesmo para criar outros novos.<\/p>\n\n\n\n<p>Na OEA, uma arena historicamente criticada pela esquerda pela sua influ\u00eancia estadounidense, curiosamente a primeira onda atuou com efic\u00e1cia como um bloco de voto majorit\u00e1rio durante a secretaria-geral de Jos\u00e9 Miguel Insulza (2005-2015). Com a chegada de Luis Almagro (2016), as cr\u00edticas gravitaram mais para o secret\u00e1rio e n\u00e3o para a organiza\u00e7\u00e3o, tend\u00eancia que est\u00e1 sendo mantida nesta nova onda.<\/p>\n\n\n\n<p>Em conclus\u00e3o, a nova onda difere substancialmente da anterior. Esta se projeta como mais moderada e parece apostar mais no pragmatismo do que na afinidade puramente ideol\u00f3gica. E h\u00e1 sinais de que aposta mais no di\u00e1logo com as grandes pot\u00eancias do que em narrativas anti-imperialistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Os novos governos de esquerda n\u00e3o est\u00e3o no poder pela primeira vez, mas tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o tempos de vacas gordas e, em muitos casos, n\u00e3o contam com maiorias esmagadoras. Em conson\u00e2ncia com isto, n\u00e3o anunciaram planos de refunda\u00e7\u00f5es, mas sim reformas sob as regras do jogo democr\u00e1tico. A segunda onda arrasta os escombros da primeira: dois autoritarismos hegem\u00f4nicos que, juntamente com Cuba, formam o trio de ditaduras da regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Poder\u00e1 esta nova onda formular uma condena\u00e7\u00e3o expl\u00edcita \u00e0s ditaduras? Ser\u00e1 capaz de promover um clima de di\u00e1logo com o resto do sistema pol\u00edtico? Os seus objetivos incluir\u00e3o a redu\u00e7\u00e3o da polariza\u00e7\u00e3o e evitar cair na deriva populista? Exemplos no M\u00e9xico e na Argentina indicam que \u00e9 dif\u00edcil de acontecer. No entanto, surgiram novas lideran\u00e7as, e em 2022 elei\u00e7\u00f5es presidenciais no Brasil e na Col\u00f4mbia podem colocar mais atores no mapa.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>&nbsp;*A vers\u00e3o original deste texto foi publicada em Dialogo Pol\u00edtico.<\/sub><\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>*Tradu\u00e7\u00e3o do espanhol por Giulia Gaspar<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Am\u00e9rica Latina tem visto um novo surto de governos de esquerda e centro-esquerda, uma segunda onda progressista, embora menos turbulenta que a primeira. Como eles s\u00e3o semelhantes e como s\u00e3o diferentes?<\/p>\n","protected":false},"author":292,"featured_media":9095,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[544],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-9099","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-politica-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9099","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/292"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9099"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9099\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9095"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9099"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9099"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9099"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=9099"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}