{"id":9184,"date":"2022-02-22T09:00:00","date_gmt":"2022-02-22T12:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=9184"},"modified":"2022-02-21T19:40:02","modified_gmt":"2022-02-21T22:40:02","slug":"venezuela-o-pais-que-nao-semeou-o-petroleo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/venezuela-o-pais-que-nao-semeou-o-petroleo\/","title":{"rendered":"Venezuela: o pa\u00eds que n\u00e3o semeou o petr\u00f3leo"},"content":{"rendered":"\n<p>Ao fechar o longo ciclo da ditadura de Juan Vicente G\u00f3mez, que ocupou o poder na Venezuela entre 1908 e 1935 (quando faleceu), um jovem intelectual venezuelano cunhou a ideia-frase de que o pa\u00eds deveria \u201csemear o petr\u00f3leo\u201d. Isso se tornou em uma esp\u00e9cie de mantra que se destacava, de tempos em tempos, quando a Venezuela era uma pot\u00eancia petrol\u00edfera e se debatia sobre a necessidade de investir aquelas grandes rendas em outros \u00e2mbitos da vida econ\u00f4mica, a fim de garantir um desenvolvimento nacional n\u00e3o dependente do petr\u00f3leo bruto.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi Arturo Uslar Pietri, uma das figuras intelectuais mais relevantes da Venezuela do s\u00e9culo XX, que em 1936 escreveu pela primeira vez sobre a semeadura do petr\u00f3leo. Este pa\u00eds sul-americano, neste 2022, \u00e9 a imagem bruta de uma na\u00e7\u00e3o que poder\u00edamos catalogar como p\u00f3s-petroleira sem que efetivamente tenha ocorrido um salto industrial ou agr\u00edcola.<\/p>\n\n\n\n<p>No final de 2021, o mais amplo estudo sobre a pobreza realizado no pa\u00eds, o qual est\u00e1 sendo realizado h\u00e1 v\u00e1rios anos pela Universidade Cat\u00f3lica Andr\u00e9s Bello, mostrou que a pobreza ficou em 94,5% e a pobreza extrema chegou a 76,6%. S\u00e3o imagens de <a href=\"http:\/\/latinoamerica21.com\/es\/cuando-se-jodio-venezuela\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">um pa\u00eds devastado, sem que tenha ocorrido um conflito b\u00e9lico ou um desastre natural de grande escala<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Como em toda crise, h\u00e1 m\u00faltiplas vari\u00e1veis que intervieram para que a Venezuela chegasse a esse ponto. Dada a depend\u00eancia hist\u00f3rica do petr\u00f3leo que a economia venezuelana tinha, sem d\u00favida um aspecto central nesta crise generalizada tem sua explica\u00e7\u00e3o no desastre da estatal Petr\u00f3leos de Venezuela (PDVSA).<\/p>\n\n\n\n<p>O discurso oficial do governo de Nicol\u00e1s Maduro insiste em culpar as san\u00e7\u00f5es dos Estados Unidos pela situa\u00e7\u00e3o catastr\u00f3fica que a ind\u00fastria petrol\u00edfera local vive.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1, no entanto, uma s\u00e9rie de decis\u00f5es que antecederam a chegada de Maduro ao poder, de fato, que ocorreram enquanto Hugo Ch\u00e1vez governava e que, a meu ver, explicam o desastre atual. O atual mandat\u00e1rio teve a responsabilidade de n\u00e3o reverter o que o chavismo decidiu na \u00e9poca com Ch\u00e1vez no poder.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2003, ap\u00f3s superar uma greve na ind\u00fastria petrol\u00edfera que havia estimulado l\u00edderes opositores, Ch\u00e1vez, em um s\u00f3 ato administrativo, demitiu 18.000 trabalhadores da PDVSA, de gerentes seniores, funcion\u00e1rios administrativos e engenheiros de petr\u00f3leo, at\u00e9 trabalhadores qualificados. A raz\u00e3o foi que todos eles, segundo a tese apresentada pelo governo de ent\u00e3o, estavam envolvidos \u201cem atividades de sabotagem e trai\u00e7\u00e3o \u00e0 p\u00e1tria\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2007, o ent\u00e3o todo-poderoso presidente da PDVSA, Rafael Ramirez, pediu um expurgo ideol\u00f3gico dentro da ind\u00fastria, pedindo que fossem delatados os traidores que sabotaram as opera\u00e7\u00f5es. Isso foi selado com a frase \u201cPDVSA \u00e9 vermelha, vermelhinha\u201d, referindo-se \u00e0 cor emblem\u00e1tica do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV).<\/p>\n\n\n\n<p>Um ano depois, Ch\u00e1vez e Ram\u00edrez anunciaram com grande alarde que a PDVSA se dedicaria a importar e distribuir alimentos, no \u00e2mbito do que o governo chamou de \u201cguerra econ\u00f4mica\u201d. A onda maci\u00e7a de expropria\u00e7\u00f5es de terras e f\u00e1bricas, junto com um controle cambial que j\u00e1 chegava a um quinqu\u00eanio, colocaram em situa\u00e7\u00e3o cr\u00edtica a produ\u00e7\u00e3o nacional historicamente d\u00e9bil.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo isso ocorreu muito antes das san\u00e7\u00f5es. Em termos de capital humano, a empresa se descapitalizou de forma abrupta, em termos de ambiente de trabalho, foram impostas dela\u00e7\u00f5es e dedicaram recursos e esfor\u00e7os a uma \u00e1rea completamente desconhecida, como era o tema aliment\u00edcio. Ali est\u00e3o algumas chaves para entender o cruel paradoxo que hoje sobrecarrega os venezuelanos.<\/p>\n\n\n\n<p>Parados sobre um territ\u00f3rio que tem a maior reserva de petr\u00f3leo do mundo, acima de 300 bilh\u00f5es de barris, e uma das maiores reservas de g\u00e1s natural, cerca de 200 bilh\u00f5es de p\u00e9s c\u00fabicos, os venezuelanos sofrem falhas recorrentes na distribui\u00e7\u00e3o de gasolina e uma aus\u00eancia cr\u00f4nica de g\u00e1s dom\u00e9stico. Pode levar at\u00e9 seis meses em determinados munic\u00edpios para conseguir um botij\u00e3o de g\u00e1s para cozinhar, segundo o observat\u00f3rio cidad\u00e3o \u201cLa gente propone\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Em janeiro de 2022 completaram tr\u00eas anos do estabelecimento de san\u00e7\u00f5es dos Estados Unidos contra a PDVSA, e ap\u00f3s um ano e meio do pior momento da produ\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo bruto, o chavismo conseguiu retomar os n\u00edveis pr\u00e9vios \u00e0s restri\u00e7\u00f5es de Washington gra\u00e7as \u00e0 <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/internacional-60070276\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">sinergia com o Ir\u00e3<\/a>, junto \u00e0s exporta\u00e7\u00f5es para a China.<\/p>\n\n\n\n<p>Em janeiro, em entrevista concedida ao jornalista Ignacio Ramonet, transmitida pela televis\u00e3o governamental da Venezuela, Maduro disse que atingiu \u2014 de novo, ap\u00f3s o impacto das san\u00e7\u00f5es dos EUA \u2014 um milh\u00e3o de barris de petr\u00f3leo por dia.<\/p>\n\n\n\n<p>A cifra, que apenas representa um ter\u00e7o da produ\u00e7\u00e3o da Venezuela antes do chavismo chegar ao poder em 1999, representa, no entanto, uma vit\u00f3ria econ\u00f4mica e simb\u00f3lica para o regime de Maduro. O pior parece ter passado para o governante venezuelano, ao menos em termos de press\u00e3o internacional e aplica\u00e7\u00e3o de san\u00e7\u00f5es por parte dos Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Francisco Monaldi, diretor do programa de energia da Am\u00e9rica Latina da Rice University, em Houston, ao questionar se a cifra de um milh\u00e3o de barris por dia foi alcan\u00e7ada pela PDVSA, reconhece que em 2021 o chavismo conseguiu reverter o impacto negativo que as san\u00e7\u00f5es tiveram.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi-se, em junho de 2020, o pior momento para a produ\u00e7\u00e3o e exporta\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo na Venezuela, quando o cerco comercial imposto em janeiro de 2019 pelo governo de Donald Trump foi agu\u00e7ado. H\u00e1 um ano e meio, o ent\u00e3o presidente estadunidense conseguiu \u2013 ap\u00f3s press\u00e3o direta \u2013 impedir que a russa Rosneft deixasse de transportar e comercializar petr\u00f3leo bruto e derivados venezuelanos.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo os dados da PDVSA, em junho de 2020 a produ\u00e7\u00e3o era de apenas 392 mil barris por dia. Um n\u00famero que colocou a Venezuela em seus n\u00edveis de produ\u00e7\u00e3o de oito d\u00e9cadas atr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>A queda abrupta de 2020 n\u00e3o foi por uma diminui\u00e7\u00e3o do potencial ou capacidade de produ\u00e7\u00e3o, mas pela incapacidade de vender petr\u00f3leo bruto a pre\u00e7os (que haviam ca\u00eddo) e evitar san\u00e7\u00f5es. O aumento deve-se ao fato de que o pre\u00e7o subiu significativamente e a PDVSA foi capaz, com a ajuda do Ir\u00e3, de criar uma estrutura de evas\u00e3o de san\u00e7\u00f5es substituindo a Rosneft. Ademais, o Ir\u00e3 come\u00e7ou a fornecer os diluentes que os russos traziam anteriormente, explicou Monaldi.<\/p>\n\n\n\n<p>Os altos pre\u00e7os, e uma pol\u00edtica n\u00e3o declarada de flexibiliza\u00e7\u00e3o das san\u00e7\u00f5es pelos Estados Unidos, permitiram que o chavismo comercializasse seu petr\u00f3leo com um pouco mais de comodidade. \u201cQuase todo o petr\u00f3leo venezuelano acaba nas estradas escuras da China, com desconto, e uma por\u00e7\u00e3o menor vai para Cuba\u201d. Em ess\u00eancia, n\u00e3o houve aumento do potencial de produ\u00e7\u00e3o no final de 2021, mas a produ\u00e7\u00e3o que eles tiveram que fechar porque n\u00e3o podiam vender foi recuperada\u201d, diz Monaldi.<\/p>\n\n\n\n<p>Rafael Quiroz, economista especializado na mat\u00e9ria e professor de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o da Universidade Central da Venezuela, afirma que no \u00faltimo dezembro foram produzidos 800.000 barris por dia, e n\u00e3o o milh\u00e3o que Maduro anunciou.<\/p>\n\n\n\n<p>O Ir\u00e3 tamb\u00e9m tem desempenhado um papel na normaliza\u00e7\u00e3o do fornecimento de gasolina, ap\u00f3s longos meses de escassez intermitente em v\u00e1rias regi\u00f5es, especialmente fora de Caracas e das grandes cidades do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde meados de 2020 n\u00e3o h\u00e1 nenhuma sonda de perfura\u00e7\u00e3o operando, portanto, nenhum novo po\u00e7o foi perfurado, segundo especialistas, o que dificulta elevar a produ\u00e7\u00e3o acima do milh\u00e3o de barris por dia que o governo Maduro sustenta.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Quiroz, a recupera\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria petrol\u00edfera venezuelana requer investimentos na ordem de 40 a 50 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, com inje\u00e7\u00e3o de recursos que sejam sustent\u00e1veis com o tempo. Isso parece invi\u00e1vel, sob o atual esquema econ\u00f4mico e pol\u00edtico na Venezuela.<\/p>\n\n\n\n<p>No final de 2021, a empresa Sustainalytics, que analisa globalmente o setor energ\u00e9tico, classificou a PDVSA como a empresa mais mal posicionada entre 253 produtores de petr\u00f3leo devido \u00e0 sua falta de estrat\u00e9gia ambiental, social e de governan\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 um duro contraste ao comparar com o passado recente. No final da d\u00e9cada de 1990, antes de Ch\u00e1vez chegar ao poder em fevereiro de 1999, a PDVSA foi classificada como a quarta empresa petrol\u00edfera mais importante do mundo, de acordo com o Ranking do American Petroleum Institute.<\/p>\n\n\n\n<p>Venezuela n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o pode semear o petr\u00f3leo para diversificar sua economia, como nem sequer pode manter sua condi\u00e7\u00e3o de pa\u00eds petroleiro.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>*Tradu\u00e7\u00e3o do espanhol por Maria Isabel Santos Lima<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No final dos anos 90, antes de Ch\u00e1vez chegar ao poder, a PDVSA era a quarta maior empresa petrol\u00edfera do mundo de acordo com o ranking do Instituto Americano de Petr\u00f3leo. 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