{"id":9230,"date":"2022-02-25T18:21:00","date_gmt":"2022-02-25T21:21:00","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=9230"},"modified":"2022-03-01T18:24:45","modified_gmt":"2022-03-01T21:24:45","slug":"a-crise-da-ucrania-e-o-pesadelo-ocidental","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/a-crise-da-ucrania-e-o-pesadelo-ocidental\/","title":{"rendered":"A\u00a0 crise da Ucrania e o pesadelo ocidental"},"content":{"rendered":"\n<p>Em 1904, o ge\u00f3grafo brit\u00e2nico Sir Halford Mackinder apresentou o estudo The Geographical Pivot of History, que teve um grande impacto na an\u00e1lise e pensamento geopol\u00edtico at\u00e9 aos dias de hoje. Mackinder sugeria que a supremacia do Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico estava em perigo por parte de Estados com a capacidade real de controlar um continente. Referia-se aos Estados Unidos e ao Imp\u00e9rio Russo. No que diz respeito ao primeiro, ambas as pot\u00eancias conseguiram um equil\u00edbrio cedendo aos EUA a hegemonia do que consideravam o seu espa\u00e7o vital &#8211; o continente americano &#8211; no marco da Doutrina Monroe. O Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico relegava assim este espa\u00e7o para se concentrar no conflito sul-africano mas, sobretudo, no continente euroasi\u00e1tico, visto por Mackinder como central para o poder global. A &#8220;Ilha do Mundo&#8221;, como denominava o ge\u00f3grafo, era considerada um piv\u00f4 central, o <em>heartland<\/em> que se estendia desde a Sib\u00e9ria at\u00e9 \u00e0 atual Ucr\u00e2nia.<\/p>\n\n\n\n<p>A Gr\u00e3-Bretanha vinha combinando o controle dos mares com ser a primeira pot\u00eancia industrial para impor a sua hegemonia sobre o sistema global sem ser uma pot\u00eancia continental. O ponto de vista de Mackinder era que isto era poss\u00edvel se n\u00e3o surgisse nenhuma pot\u00eancia alternativa que conseguisse controlar a &#8220;ilha (continental) do mundo&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>As teses de Mackinder n\u00e3o eram de todo novas, mas sim colocavam um marco racional e geopol\u00edtico (embora n\u00e3o tenha usado essa palavra) sobre o que j\u00e1 era um <em>modus operandi<\/em> do Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico. Um desafio continental ao Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico veio da Fran\u00e7a Napole\u00f4nica e da sua tentativa de criar um &#8220;sistema continental&#8221;, tentando incluir a R\u00fassia pela for\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>O confronto franco-russo foi um grande feito brit\u00e2nico, cujo apoio \u00e0 R\u00fassia impediu o surgimento de um potente rival euroasi\u00e1tico. Pouco mais de um s\u00e9culo depois, a amea\u00e7a continental regressou no pacto Molotov-Ribbentrop entre a Alemanha e a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Esta poderia ter sido uma s\u00e9ria amea\u00e7a continental \u00e0 alian\u00e7a talassocr\u00e1tica brit\u00e2nico-estadounidense. Mas nem a geopol\u00edtica nem as li\u00e7\u00f5es do passado prevaleceram na Alemanha. Novamente se quebrou a frente continental e foi a R\u00fassia (agora a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica) que mais uma vez salvou as pot\u00eancias talassocr\u00e1ticas.<\/p>\n\n\n\n<p>No confronto da Guerra Fria, a URSS retomou ao objetivo de construir uma plataforma euroasi\u00e1tica atrav\u00e9s da qual pudesse alcan\u00e7ar proje\u00e7\u00e3o global. Tinha o controle do heartland, mas isto n\u00e3o era suficiente, por isso procurou uma alian\u00e7a com o novo Estado comunista que se constitu\u00eda a partir de 1949, a Rep\u00fablica Popular da China. No entanto, esta alian\u00e7a n\u00e3o alcan\u00e7ou uma for\u00e7a decisiva, uma vez que a China estava enormemente debilitada por d\u00e9cadas de guerra e perda territorial.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica tivesse um poder de alcance global, n\u00e3o alcan\u00e7ava uma posi\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7a em termos econ\u00f4micos e tecnol\u00f3gicos frente aos EUA e seus aliados. Em outras palavras, havia uma frente continental debilitada. Assim, apesar da derrota fatal na Guerra do Vietn\u00e3, os EUA atingiram um objetivo estrat\u00e9gico em termos de geopol\u00edtica global: a dissolu\u00e7\u00e3o da alian\u00e7a sino-sovi\u00e9tica em 1972. Mais uma vez, a pot\u00eancia t\u00e1lassocr\u00e1tica conseguiu respirar gra\u00e7as ao enfraquecimento da alternativa euroasi\u00e1tica, que se foi desvanecendo ainda mais com o colapso da URSS.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o sonho euroasi\u00e1tico foi reavivado pelo novo Estado Russo, que, sob a lideran\u00e7a de Vladimir Vladimirovich Putin, institucionalizou-o na cria\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Euroasi\u00e1tica, uma uni\u00e3o aduaneira entre a Bielorr\u00fassia, o Cazaquist\u00e3o e a R\u00fassia. Naturalmente, o nome n\u00e3o corresponde ao conte\u00fado. Embora a R\u00fassia continue a ser uma pot\u00eancia militar, est\u00e1 muito longe da antiga for\u00e7a pol\u00edtica, econ\u00f4mica e mesmo territorial da URSS.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 aqui que, ao entrarmos no s\u00e9culo XXI, nos deparamos com o ressurgimento de outra pot\u00eancia euroasi\u00e1tica, a Rep\u00fablica Popular da China, j\u00e1 desconectada da alian\u00e7a com os EUA e com uma agenda geopol\u00edtica pr\u00f3pria. Esta tem elementos que nunca foram alcan\u00e7ados pela R\u00fassia (nem mesmo na sua era sovi\u00e9tica) ou por qualquer outra pot\u00eancia euroasi\u00e1tica continental. Por um lado, ter uma economia de alcance global com potencial para ser a primeira economia do mundo. A presen\u00e7a da China na Am\u00e9rica Latina \u00e9 um bom exemplo disso, desafiando o espa\u00e7o comercial estadounidense e ocidental como ningu\u00e9m antes. O outro elemento \u00e9 estar na vanguarda na \u00e1rea tecnol\u00f3gica, como \u00e9 com o novo padr\u00e3o 5G nas telecomunica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta alian\u00e7a renovada China-R\u00fassia \u00e9, sem d\u00favida, um pesadelo mackinderiano para a atual pot\u00eancia t\u00e1lassocr\u00e1tica e seus aliados. O desafio russo \u00e0 ordem de seguran\u00e7a da Europa Ocidental que agora vemos no conflito da Ucr\u00e2nia seria imposs\u00edvel sem esta alian\u00e7a euro-asi\u00e1tica. O com\u00e9rcio bilateral entre a China e a R\u00fassia duplicou entre 2013 e 2021, o que para a R\u00fassia significa um aumento na propor\u00e7\u00e3o da China em seu com\u00e9rcio exterior de 10 a 20 por cento. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a ambi\u00e7\u00e3o \u00e9 muito maior, j\u00e1 foi anunciada uma profunda estrat\u00e9gia de integra\u00e7\u00e3o regional em dire\u00e7\u00e3o \u00e0quilo que denominam a &#8220;Grande Associa\u00e7\u00e3o Euro-asi\u00e1tica&#8221;. Isto significa um entrela\u00e7amento da Uni\u00e3o Euro-asi\u00e1tica dirigida pela R\u00fassia com a &#8220;Iniciativa do Cintur\u00e3o e Rota&#8221; promovida pela China. Acrescente-se a isto as conex\u00f5es que, ao mesmo tempo da crise da Ucr\u00e2nia, est\u00e3o se estabelecendo entre o espa\u00e7o sino-russo com o Ir\u00e3 e a \u00cdndia, que desempenhar\u00e1 um papel fundamental na composi\u00e7\u00e3o do tabuleiro geopol\u00edtico euro-asi\u00e1tico e global.<\/p>\n\n\n\n<p>Se este espa\u00e7o continental continuar se consolidando, n\u00e3o significaria apenas a alternativa de uma pot\u00eancia continental sem precedentes no espa\u00e7o euro-asi\u00e1tico. Seria tamb\u00e9m a primeira vez uma pot\u00eancia deste tipo teria um verdadeiro peso global, tanto militar como (aqui est\u00e1 a novidade) econ\u00f4mico. A R\u00fassia determina um peso decisivo no primeiro, a China no segundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem d\u00favida, o conflito na Ucr\u00e2nia antagoniza a R\u00fassia com a Europa Ocidental e os EUA, mas a partir do tabuleiro global a uni\u00e3o euro-asi\u00e1tica est\u00e1 ganhando for\u00e7a. O efeito j\u00e1 \u00e9 vis\u00edvel, e ser\u00e1 ainda mais na Am\u00e9rica Latina, que passar\u00e1 a desempenhar um papel de maior import\u00e2ncia por seus recursos naturais, pelo poder de consumo da sua popula\u00e7\u00e3o e por ser parte do <em>heartland <\/em>dos EUA.<\/p>\n\n\n\n<p>O destino da Ucr\u00e2nia \u00e9 um aviso aos pa\u00edses fr\u00e1geis que andem sozinhos pelo mundo. A R\u00fassia n\u00e3o hesita em intervir e, para al\u00e9m de muita ret\u00f3rica, n\u00e3o h\u00e1 tropas ocidentais dando assist\u00eancia aos ucranianos. Confrontar as grandes pot\u00eancias em conjunto deveria ser um imperativo de seguran\u00e7a para os pa\u00edses latino-americanos.<\/p>\n\n\n\n<p><em>*Tradu\u00e7\u00e3o do espanhol por Giulia Gaspar.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O destino da Ucr\u00e2nia \u00e9 um aviso para os pa\u00edses fracos que v\u00e3o sozinhos no mundo. 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