{"id":9236,"date":"2022-03-01T05:08:00","date_gmt":"2022-03-01T08:08:00","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=9236"},"modified":"2022-03-02T06:19:42","modified_gmt":"2022-03-02T09:19:42","slug":"ucrania-vitima-de-um-circulo-vicioso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/ucrania-vitima-de-um-circulo-vicioso\/","title":{"rendered":"Ucrania, v\u00edtima de um c\u00edrculo vicioso"},"content":{"rendered":"\n<p>Nesta fase do conflito, dois momentos devem ser distinguidos: o antes e o depois da agress\u00e3o da R\u00fassia \u00e0 Ucr\u00e2nia. O primeiro \u00e9 marcado pela responsabilidade dos diferentes atores de evitar um confronto militar. E a atual, que se baseia na condena\u00e7\u00e3o direta da viola\u00e7\u00e3o do direito internacional que a agress\u00e3o de Moscou implica. <a href=\"http:\/\/latinoamerica21.com\/br\/a-crise-da-ucrania-e-o-pesadelo-ocidental\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">A responsabilidade de promover a agress\u00e3o militar na Ucr\u00e2nia recai sobre o governo de Putin<\/a>. Mas h\u00e1 muitos outros pa\u00edses respons\u00e1veis por n\u00e3o terem conseguido estabelecer condi\u00e7\u00f5es para evitar a guerra.<\/p>\n\n\n\n<p>A UE \u00e9 respons\u00e1vel pela dissolu\u00e7\u00e3o da clara distin\u00e7\u00e3o que existia nos anos 90 entre os interesses da pr\u00f3pria UE e os da OTAN no que diz resspeito \u00e0 seguran\u00e7a no continente. Reuni\u00e3o ap\u00f3s reuni\u00e3o, esta distin\u00e7\u00e3o foi tornando-se difusa, at\u00e9 que na reuni\u00e3o do \u00faltimo 19 de fevereiro da Organiza\u00e7\u00e3o para a Seguran\u00e7a e Coopera\u00e7\u00e3o na Europa (OSCE) em Munique, tornou-se claro que a identifica\u00e7\u00e3o da UE com a OTAN \u00e9 quase total.<\/p>\n\n\n\n<p>Isto determina um segundo fator, o ressurgimento do atlantismo ideol\u00f3gico na Europa e nos Estados Unidos. Os discursos dos representantes ocidentais refletem uma confian\u00e7a excessiva na dissuas\u00e3o que a amplia\u00e7\u00e3o da Alian\u00e7a Atl\u00e2ntica representou ao longo das duas \u00faltimas d\u00e9cadas. Isto explica a arrog\u00e2ncia demonstrada pelos seus l\u00edderes ao rejeitarem quaisquer obje\u00e7\u00f5es russas de que essa amplia\u00e7\u00e3o afetava a sua seguran\u00e7a e que o caso da Ucr\u00e2nia era um ponto de n\u00e3o retorno.<\/p>\n\n\n\n<p>De fato, parece que a OTAN e a UE teriam atuado deliberadamente para aumentar o desconforto russo e fortalecer assim os argumentos do autocrata russo. O analista mexicano Carlos Taibo escreveu que Putin \u00e9 em grande medida um produto da OTAN. Deve acrescentar-se que a revitaliza\u00e7\u00e3o da OTAN \u00e9 em grande medida um produto da prepot\u00eancia de Putin e que este c\u00edrculo vicioso infernal \u00e9 o que teria que ser rompido para evitar uma escalada do conflito.<\/p>\n\n\n\n<p>Isto levou \u00e0 interven\u00e7\u00e3o russa de 24 de fevereiro, que abriu uma nova fase do conflito. A decis\u00e3o de Putin veio acompanhada de apoio institucional na Duma (parlamento russo) e da maioria da opini\u00e3o p\u00fablica do seu pa\u00eds. Esta relativa for\u00e7a dom\u00e9stica levou Putin a ignorar uma m\u00e1xima frequentemente repetida: na defesa das pr\u00f3prias causas num confronto geopol\u00edtico, existem linhas vermelhas que n\u00e3o podem ser ultrapassadas. Ao perpetrar uma agress\u00e3o armada, o argumento de Moscou sobre a amea\u00e7a ocidental \u00e0 sua pr\u00f3pria seguran\u00e7a desaparece sob a condena\u00e7\u00e3o da comunidade internacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a agress\u00e3o militar, Putin proporcionou o cen\u00e1rio pol\u00edtico desejado anunciado pelos falc\u00f5es europeus e da Alian\u00e7a Atl\u00e2ntica. Conseguiu que a OTAN e os Estados Unidos afirmassem ser os verdadeiros or\u00e1culos das inten\u00e7\u00f5es finais de Putin, que os pa\u00edses da UE reduzissem significativamente as suas diferen\u00e7as (pelo menos em p\u00fablico) e que a ONU, cujo Secret\u00e1rio-geral Antonio Guterres afirmou, n\u00e3o h\u00e1 muito tempo, estar confiante de que a guerra aberta nunca aconteceria, condenassem inequivocamente o governo de Moscou. Em suma, com a sua agress\u00e3o, Putin perde muito da sua legitimidade dentro e fora das fronteiras.<\/p>\n\n\n\n<p>Quais foram as raz\u00f5es da escolha de Putin de levar a disputa geopol\u00edtica ao confronto armado? Existem raz\u00f5es de ordem militar, que certamente incorporaram alguns erros de c\u00e1lculo. De fato, criou-se o mito, em boa parte gra\u00e7as aos meios de comunica\u00e7\u00e3o ocidentais, de que tudo o que est\u00e1 acontecendo est\u00e1 exatamente de acordo com os planos elaborados por um estratega sinistro: Putin. Essa suposi\u00e7\u00e3o se distancia muito da realidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Como antigo chefe do KGB, Putin est\u00e1 consciente da import\u00e2ncia de ter um plano, mas tamb\u00e9m da necessidade de se readaptar, dependendo do contexto. N\u00e3o \u00e9 certo que Putin tenha usado astutamente a op\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica do Presidente Macron para camuflar a sua verdadeira inten\u00e7\u00e3o de invadir a Ucr\u00e2nia. Putin estava disposto a seguir qualquer via para impedir a entrada da Ucr\u00e2nia na OTAN e for\u00e7\u00e1-la a manter rela\u00e7\u00f5es estreitas com a R\u00fassia. Mas a resposta do Ocidente a estas exig\u00eancias foi uma rejei\u00e7\u00e3o de grande repercuss\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, a op\u00e7\u00e3o militar n\u00e3o est\u00e1 revelando-se t\u00e3o simples como poderia ter sido previsto. O c\u00e1lculo do Kremlin para se afirmar rapidamente em todo o territ\u00f3rio das duas prov\u00edncias, Donetsk e Luhansk, falhou. O governo ucraniano tem sido capaz de construir uma consider\u00e1vel concentra\u00e7\u00e3o de for\u00e7as nessa regi\u00e3o, o que obrigou a R\u00fassia a tentar impedi-la, pressionando no sentido de ataques dissuasivos noutras partes do territ\u00f3rio ucraniano. Isto aconteceu na noite de 24 de fevereiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Deve-se destacar que a R\u00fassia n\u00e3o tem capacidade para encarar uma invas\u00e3o territorial generalizada, pois estima-se que uma invas\u00e3o de um territ\u00f3rio do tamanho da Ucr\u00e2nia exigiria 1,5 milh\u00f5es de efetivos. Por conseguinte, com algumas exce\u00e7\u00f5es, os ataques concentram-se em algumas cidades fronteiri\u00e7as e na pr\u00f3pria Kiev, que fica apenas a 60 quil\u00f4metros da fronteira com a Bielorr\u00fassia.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao comprovar que n\u00e3o encontrava obst\u00e1culos no caminho para Kiev, Moscou cometeu outro erro de c\u00e1lculo: pensar que a cidade cairia imediatamente e que poderia fazer do governo do Presidente Zelensky um alvo militar direto. Mas a apreens\u00e3o de Kiev e do seu distrito governamental, que deveria ter ocorrido na noite de s\u00e1bado, 26 de Fevereiro, n\u00e3o aconteceu porque a mobiliza\u00e7\u00e3o das for\u00e7as armadas e das mil\u00edcias garantiu a auto-defesa da cidade. <a href=\"https:\/\/www.cnnbrasil.com.br\/internacional\/kiev-pode-cair-em-maos-russas-em-dias-apura-inteligencia-dos-estados-unidos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Kiev pode cair nos pr\u00f3ximos dias<\/a>, mas cada dia que passa \u00e9 mais um passo para o desencadeamento de uma guerra de guerrilha no resto do pa\u00eds, algo que a R\u00fassia quer evitar.<\/p>\n\n\n\n<p>Um cen\u00e1rio mergulhado numa guerra irregular prolongada \u00e9 o que Moscou procura evitar. Entre outras raz\u00f5es, porque embora Putin tenha atualmente o apoio majorit\u00e1rio dos atores pol\u00edticos e da popula\u00e7\u00e3o russa, esta situa\u00e7\u00e3o pode mudar rapidamente. A manuten\u00e7\u00e3o de uma guerra aberta durante demasiado tempo e sem o menor apoio pol\u00edtico al\u00e9m das fronteiras, associada a san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas ocidentais, pode lembrar \u00e0 popula\u00e7\u00e3o russa o espectro do fracasso da guerra no Afeganist\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Putin tamb\u00e9m pode estar errado acerca das consequ\u00eancias desta prova\u00e7\u00e3o militar para a pol\u00edtica interna do seu pa\u00eds. \u00c9 por isso que acaba de abrir a porta a poss\u00edveis negocia\u00e7\u00f5es de cessar-fogo com as autoridades de Kiev. E embora em princ\u00edpio ele tenha encorajado os comandantes militares ucranianos a tomar o poder para negociar com eles, isto parece ser pouco claro, entre outras raz\u00f5es porque muito depende da rapidez com que ele consegue capturar o Presidente Zelenski e o seu governo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 poss\u00edvel que o conflito armado na Ucr\u00e2nia, longe de terminar, esteja apenas no in\u00edcio. Isto \u00e9 algo que a Ucr\u00e2nia, que \u00e9 em \u00faltima an\u00e1lise a verdadeira v\u00edtima desta guerra e do indesej\u00e1vel c\u00edrculo vicioso que a precedeu, sofrer\u00e1 em qualquer caso.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>*Tradu\u00e7\u00e3o do espanhol por Giulia Gaspar.<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Moscou procura evitar uma guerra irregular prolongada. 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