{"id":9446,"date":"2022-03-23T09:00:00","date_gmt":"2022-03-23T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=9446"},"modified":"2022-03-23T05:32:19","modified_gmt":"2022-03-23T08:32:19","slug":"o-problema-das-analogias-simplificadas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/o-problema-das-analogias-simplificadas\/","title":{"rendered":"O problema das analogias simplificadas"},"content":{"rendered":"\n<p>Nos Estados Unidos e Europa est\u00e3o ocorrendo <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/as-grandes-mentiras-se-impoem-atraves-da-midia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">novas formas de desinforma\u00e7\u00e3o<\/a> sobre a hist\u00f3ria do fascismo e elas n\u00e3o v\u00eam s\u00f3 da R\u00fassia. Para esclarecer, a principal e mais ominosa distor\u00e7\u00e3o do fascismo chegou ao seu momento mais cr\u00edtico com a invas\u00e3o russa da Ucr\u00e2nia, e veio da R\u00fassia. A ideia apresentada por Vladimir Putin para justificar sua guerra injustific\u00e1vel a partir do legado antifascista n\u00e3o poderia estar mais longe da verdade sobre o passado e sua rela\u00e7\u00e3o com nosso presente. N\u00e3o h\u00e1 nada de nazista ou genocida no atual governo da Ucr\u00e2nia, cujo presidente \u00e9 de origem judaica. Tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 nada de antinazista no governo de Putin. Putin \u00e9 um ditador e a discuss\u00e3o hist\u00f3rica deve come\u00e7ar com o tipo de ditadura que ele imp\u00f5e na R\u00fassia e que tamb\u00e9m quer impor na Ucr\u00e2nia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Se o nazismo n\u00e3o serve para descrever a Ucr\u00e2nia, pode-se acusar Putin de nazista?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Faz-se fila para falar de Putin como o novo Hitler, de seu regime ditatorial como um novo totalitarismo e de sua terr\u00edvel invas\u00e3o da Ucr\u00e2nia como uma continua\u00e7\u00e3o do Holocausto. Abundam os casos emblem\u00e1ticos, mas vale citar o mais recente e paradigm\u00e1tico de Michael McFaul, ex-embaixador dos Estados Unidos em Moscou. McFaul \u00e9 um dos formadores de opini\u00e3o mais influentes dos Estados Unidos e em uma entrevista recente argumentou que <a href=\"https:\/\/nypost.com\/2022\/03\/12\/former-us-ambassador-to-russia-takes-heat-for-hitler-remarks\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">\u201cuma diferen\u00e7a entre Putin e Hitler \u00e9 que Hitler n\u00e3o matou pessoas de etnia alem\u00e3, pessoas de l\u00edngua alem\u00e3\u201d<\/a>.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Este tipo de coment\u00e1rio ofensivo no qual o ex-diplomata aceita problematicamente a distin\u00e7\u00e3o nazista entre arianos e n\u00e3o arianos ignora o fato hist\u00f3rico de que os judeus alem\u00e3es de l\u00edngua alem\u00e3 eram de fato alem\u00e3es. Em sua \u00e2nsia de criticar Putin, McFaul argumentou que na categoria de genoc\u00eddio Putin \u00e9 pior do que Hitler.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Como se esperava do gigante irado, McFaul foi amplamente criticado e se desculpou dizendo: \u201cNunca mais farei compara\u00e7\u00f5es com Hitler&#8230; Sem analogias hist\u00f3ricas, manterei minha an\u00e1lise e meus coment\u00e1rios centrados no mal atual: Putin\u201d. Tudo ou nada, se n\u00e3o se pode falar de Hitler como sin\u00f4nimo de Putin, devemos esquecer o passado para pensar melhor o presente? Este \u00e9 um exemplo claro, e as similitudes sobram com outros comentaristas de que a desinforma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica n\u00e3o nos leva a nada.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Am\u00e9rica Latina, e tamb\u00e9m na Europa, muitas vezes a hist\u00f3ria anticolonial ou anti-imperialista \u00e9 confundida com uma clara campanha nacionalista de agress\u00e3o russa. No caso de Nicar\u00e1gua, Cuba ou Venezuela, s\u00e3o ditaduras que podem ter uma simpatia ideol\u00f3gica pela autocracia de Putin, e nestes casos o interesse pela hist\u00f3ria \u00e9 totalmente deslocado por um voluntarismo ideol\u00f3gico que simplifica a realidade para satisfazer seus l\u00edderes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O mesmo pode-se dizer da vis\u00e3o de Cristina Kirchner na Argentina ou de Evo Morales na Bol\u00edvia. O resultado destas posturas \u00e9 tamb\u00e9m a desinforma\u00e7\u00e3o sobre o passado, embora ningu\u00e9m s\u00e9rio parece lev\u00e1-los a s\u00e9rio fora de seus seguidores. Personagens como o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, tamb\u00e9m aceitam a propaganda de Putin e logo a vinculam \u00e0 suas pr\u00f3prias fantasias autorit\u00e1rias sobre o futuro do mundo. Como Donald Trump, a raz\u00e3o de ser de suas mitologias hist\u00f3ricas \u00e9 servir \u00e0 sua causa e, portanto, seu desinteresse pelo passado real \u00e9 absoluto.<\/p>\n\n\n\n<p>O fanatismo autocr\u00e1tico n\u00e3o faz parte dos debates, em especial no norte global, entre muitos daqueles que, razoavelmente, se op\u00f5em \u00e0 guerra da R\u00fassia. E ainda assim, sem muitas raz\u00f5es hist\u00f3ricas, muitos desses cr\u00edticos de Putin argumentam que a Ucr\u00e2nia \u00e9 perseguida como foram os judeus europeus e enfatizam a equa\u00e7\u00e3o de Hitler-Putin. Pouco falam de sua rela\u00e7\u00e3o com o passado russo em geral e de Stalin em particular.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui e ali, esses debates n\u00e3o s\u00e3o necessariamente formas de propaganda ao estilo Putin, mas n\u00e3o deixam de distorcer ou entender mal a hist\u00f3ria, e seu resultado \u00e9 tamb\u00e9m promover a desinforma\u00e7\u00e3o sobre o passado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>As simplifica\u00e7\u00f5es est\u00e3o aumentando a um ritmo r\u00e1pido. Como historiadores, uma de nossas tarefas \u00e9 insistir que o passado apresenta continuidades, mas tamb\u00e9m cortes com o presente.<\/p>\n\n\n\n<p>Em princ\u00edpio, a hist\u00f3ria n\u00e3o pode satisfazer a demanda atual por explica\u00e7\u00f5es simples. Neste contexto, as explica\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas s\u00e3o substitu\u00eddas por argumentos simples e banais. A simplicidade brinda o que se espera dela: explica\u00e7\u00f5es ef\u00eameras que ningu\u00e9m levar\u00e1 a s\u00e9rio em um futuro pr\u00f3ximo.<\/p>\n\n\n\n<p>Podemos falar do presente sem exageros e simplifica\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas? Podemos parar de minimizar o Holocausto frente \u00e0 guerra de Putin contra a Ucr\u00e2nia? O Holocausto n\u00e3o foi uma guerra entre dois pa\u00edses, mas um ataque racista de um Estado fascista a cidad\u00e3os individuais de um grupo \u00e9tnico particular.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Algumas vezes, nas hist\u00f3rias da extrema direita, do fascismo e do neofascismo, o Holocausto representou uma inspira\u00e7\u00e3o para os assassinos. Este foi o caso, por exemplo, da ditadura argentina, cujos assassinos muitas vezes prometeram continuar os massacres nazistas. Para os historiadores, o Holocausto pode ser analisado frente a outros assassinatos, mas o problema \u00e9 quando pessoas que n\u00e3o s\u00e3o historiadoras fundem diferentes hist\u00f3rias sem explicar as continuidades e rupturas na hist\u00f3ria. Nesses casos, a analogia obscurece o passado e o presente.<\/p>\n\n\n\n<p>A analogia sem contexto termina inclusive insultando a mem\u00f3ria das v\u00edtimas e enganando o p\u00fablico. A R\u00fassia pode dar-se ao luxo de perder esta guerra; quem n\u00e3o pode perd\u00ea-la \u00e9 Putin, e a\u00ed reside a disson\u00e2ncia entre os interesses da R\u00fassia, que s\u00e3o prejudicados por esta guerra, e os interesses de Putin, expressos apenas atrav\u00e9s de propaganda fan\u00e1tica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O ditador russo \u00e9 um exemplo t\u00edpico de um autocrata que pensa mais em si mesmo do que em seu pa\u00eds, j\u00e1 que as consequ\u00eancias de suas a\u00e7\u00f5es s\u00e3o claramente prejudiciais ao seu povo. Mas isto n\u00e3o implica que ele possa ser considerado um nazista. Para p\u00f4r em termos argentinos, Putin \u00e9 mais semelhante a um Galtieri (o ditador que come\u00e7ou a guerra contra o Reino Unido em 1982) do que com Hitler.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A guerra atual contra a Ucr\u00e2nia \u00e9 mais convencional (em termos de hist\u00f3ria europeia e outros) e como historiador do fascismo no passado n\u00e3o estou convencido de que tenha chegado ao ponto de ser genocida ou totalit\u00e1ria. Tamb\u00e9m n\u00e3o acho que Putin seja um fascista. At\u00e9 agora, n\u00e3o vejo nele elementos centrais do fascismo, como a mobiliza\u00e7\u00e3o de massas organizadas tamb\u00e9m em termos paramilitares, a glorifica\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia ou as pol\u00edticas de xenofobia e racismo. Mas sim outros, como uma certa militariza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica e da sociedade, propaganda totalit\u00e1ria e ditadura. Mas tudo isso n\u00e3o implica que sua guerra n\u00e3o seja ainda horr\u00edvel e injustificada.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O problema n\u00e3o \u00e9 que fa\u00e7am analogias. O problema \u00e9 que estas analogias s\u00e3o historicamente desinformadas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Novas formas de desinforma\u00e7\u00e3o sobre a hist\u00f3ria do fascismo est\u00e3o ocorrendo nos Estados Unidos e na Europa, e elas n\u00e3o v\u00eam apenas da R\u00fassia. 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