{"id":9465,"date":"2022-03-24T09:00:00","date_gmt":"2022-03-24T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=9465"},"modified":"2022-03-24T06:18:59","modified_gmt":"2022-03-24T09:18:59","slug":"o-impacto-da-guerra-da-ucrania-na-america-latina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/o-impacto-da-guerra-da-ucrania-na-america-latina\/","title":{"rendered":"O impacto da Guerra da Ucr\u00e2nia na Am\u00e9rica Latina"},"content":{"rendered":"\n<p>Nas an\u00e1lises sobre a Guerra da Ucr\u00e2nia tendem a confundir-se os n\u00edveis. Tendemos a ser confrontados com rea\u00e7\u00f5es emocionais, difundidas pelos meios e amplificadas pelas redes; com propaganda disfar\u00e7ada de not\u00edcias e opini\u00f5es rigorosas, que s\u00e3o menos difundidas. Paralelamente, nos vemos submetidos a atualiza\u00e7\u00f5es constantes sobre a zona de conflito, combinadas com vis\u00f5es mais globais, ainda que tamb\u00e9m mais desfocadas. Sabemos que existe censura. Mas a toda essa am\u00e1lgama chamamos de informa\u00e7\u00e3o e \u00e9 nesta base que constru\u00edmos os nossos crit\u00e9rios e tomamos decis\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Seria conveniente, no entanto, afinar porque R\u00fassia e Ucr\u00e2nia n\u00e3o s\u00e3o I\u00e9men, Iraque ou Afeganist\u00e3o. Tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o o C\u00e1ucaso ou a ex-Iugosl\u00e1via. De fato, o impacto estrutural de um confronto h\u00edbrido que transborda do leste europeu e transcende de forma crescente no \u00e2mbito militar, ser\u00e1 global e isto ter\u00e1 consequ\u00eancias mais significativas, por\u00e9m tamb\u00e9m mais distantes e mais duradouras do que se pode pensar e publicar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/por-un-orden-internacional-de-pueblos-libres-ayudemos-a-ucrania-2\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">A Am\u00e9rica Latina tem estado tradicionalmente exposta aos altos e baixos do sistema-mundo<\/a> j\u00e1 que sua rela\u00e7\u00e3o com a economia global \u00e9 dependente, sendo o seu papel principal o de exportador de <em>commodities<\/em>. Al\u00e9m disso, as fragilidades de nossos sistemas financeiros exp\u00f5em nossas moedas a altos e baixos que, tal como as atuais espirais inflacionistas, segmentam nossas economias e condicionam a vida dos mais vulner\u00e1veis.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>A conjuntura, por outro lado, tamb\u00e9m n\u00e3o ajuda. Antes de todo o inferno ter se desencadeado na Ucr\u00e2nia, a situa\u00e7\u00e3o nesta parte do mundo j\u00e1 era preocupante: o <a href=\"https:\/\/repositorio.cepal.org\/handle\/11362\/45337?locale-attribute=en\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">impacto da pandemia<\/a> tinha sido devastador. A desacelera\u00e7\u00e3o parecia um fato consumado, ao mesmo tempo que a desigualdade havia voltado a correr solta. Em 2021, a pobreza extrema havia crescido quase 14% em toda a regi\u00e3o. At\u00e9 h\u00e1 alguns meses atr\u00e1s, a Am\u00e9rica Latina parecia condenada a padecer altera\u00e7\u00f5es comerciais (consequ\u00eancia de mudan\u00e7as na demanda internacional) com potencial para provocar turbul\u00eancias como as vividas nos \u00faltimos tempos no Paraguai ou na Col\u00f4mbia.<\/p>\n\n\n\n<p>A guerra na Ucr\u00e2nia, no entanto, est\u00e1 alterando tudo. Antes mesmo da R\u00fassia tornar p\u00fablica a sua resposta \u00e0s san\u00e7\u00f5es ocidentais, dispararam os pre\u00e7os internacionais de <em>commodities<\/em> como petr\u00f3leo, g\u00e1s, a\u00e7o, n\u00edquel, ur\u00e2nio, metanol, fosfatos e trigo. A n\u00edvel global j\u00e1 houve consequ\u00eancias: desde aumentos s\u00fabitos nas contas de energia a aumentos descontrolados de pre\u00e7os ou perdas enormes para v\u00e1rias empresas. Segundo os peritos, se a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o melhorar, poder\u00e1 haver problemas de abastecimento para a produ\u00e7\u00e3o de bens t\u00e3o b\u00e1sicos como microchips (e, portanto, dispositivos tecnol\u00f3gicos), pl\u00e1sticos e mesmo alimentos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>E toda esta situa\u00e7\u00e3o, que implica\u00e7\u00f5es pode ter para a Am\u00e9rica Latina?&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A curto prazo e a n\u00edvel micro, haver\u00e1, desde j\u00e1, aumentos generalizados da infla\u00e7\u00e3o. Mas olhando para o longo prazo e a n\u00edvel macro, em menos de um m\u00eas, a nossa regi\u00e3o voltou a se erguer geopoliticamente. A r\u00e1pida e eloquente aproxima\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos \u00e0 Venezuela constitui um exemplo. Mas o petr\u00f3leo de Maduro (que n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico: o M\u00e9xico tamb\u00e9m tem grandes reservas) \u00e9 apenas um dos nossos grandes trunfos estrat\u00e9gicos face \u00e0 escassez de mat\u00e9ria-prima que se avista para o Ocidente. Trinidad e Tobago e Guiana t\u00eam dep\u00f3sitos de g\u00e1s; Col\u00f4mbia e Guatemala, n\u00edquel; Bol\u00edvia, l\u00edtio; Chile, cobre; o Brasil, para al\u00e9m de produzir biocombust\u00edveis, \u00e9, tal como o Peru e todo o arco andino, uma pot\u00eancia mineira. A Venezuela tem fosfatos e, para concluir, a Argentina produz trigo&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Todos estes atributos sob a forma de mat\u00e9ria-prima nos est\u00e3o permitindo recuperar subitamente, especialmente aos olhos dos Estados Unidos e dos seus aliados, um interesse estrat\u00e9gico que durante os \u00faltimos vinte anos a \u00c1sia tem mantido.&nbsp; Esta regi\u00e3o, no calor de crescimentos econ\u00f4micos apoiados n\u00e3o s\u00f3 na solidez da economia chinesa, mas tamb\u00e9m em uma rede consistente de organiza\u00e7\u00f5es multilaterais pr\u00f3prias (como a Organiza\u00e7\u00e3o de Coopera\u00e7\u00e3o de Xangai, que representa um ter\u00e7o do PIB mundial, a ACFTA, a AIIB e a iniciativa chinesa do Cintur\u00e3o e Rota), estava sendo convertida em uma locomotiva da economia global e em um \u00edman para os investimentos estrangeiros.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, paradoxalmente, a press\u00e3o geopol\u00edtica que agora a R\u00fassia se v\u00ea submetida como consequ\u00eancia da Guerra da Ucr\u00e2nia pode contribuir a fortalecer um bloco econ\u00f4mico que tem no seu n\u00facleo uma s\u00f3lida (e recentemente relan\u00e7ada) alian\u00e7a estrat\u00e9gica entre Moscou e Pequim.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A melhor prova da sua import\u00e2ncia geopol\u00edtica \u00e9 que praticamente nenhum pa\u00eds asi\u00e1tico &#8211; incluindo a \u00cdndia, Paquist\u00e3o ou os Emirados \u00c1rabes Unidos &#8211; aplicar\u00e1 san\u00e7\u00f5es contra Moscou. Al\u00e9m disso, n\u00e3o se trata de institui\u00e7\u00f5es desligadas da realidade: pouco a pouco t\u00eam vindo a desenvolver instrumentos financeiros concretos &#8211; como o UnionPay, CIPS, ou o Yuan digital,- que permitem aos cidad\u00e3os e comerciantes contornar o dia-a-dia e, portanto, prever a viabilidade de uma insubordina\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica em grande escala que poderia beneficiar Pequim, lan\u00e7ando as bases para uma progressiva &#8220;desdolariza\u00e7\u00e3o&#8221; da economia mundial.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Am\u00e9rica Latina, no entanto, embora a maioria dos nossos pa\u00edses tamb\u00e9m n\u00e3o imponha san\u00e7\u00f5es a Moscou, o panorama geopol\u00edtico \u00e9 diferente. A chave \u00e9 que aqui n\u00e3o existem institui\u00e7\u00f5es multilaterais com suficiente for\u00e7a pol\u00edtica, nem uma capacidade de exporta\u00e7\u00e3o de bens manufaturados compar\u00e1vel \u00e0, por exemplo, do Sudeste Asi\u00e1tico, nem, evidentemente, ferramentas financeiras pr\u00f3prias.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, as nossas economias est\u00e3o altamente dolarizadas e, devido ao afastamento geogr\u00e1fico, \u00e9 previs\u00edvel que nem sequer seja poss\u00edvel cumprir o desejo de alguns de n\u00e3o bloquear a R\u00fassia. Pelo contr\u00e1rio, tudo aponta para problemas imediatos com determinados fornecimentos (especialmente fertilizantes, que s\u00e3o fundamentais para a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola), para uma prov\u00e1vel estagfla\u00e7\u00e3o e para renovadas press\u00f5es geopol\u00edticas que \u00e9 muito prov\u00e1vel que tomem forma na C\u00fapula das Am\u00e9ricas que ser\u00e1 celebrada em junho, em Los Angeles<\/p>\n\n\n\n<p>Neste marco, nem a estabilidade pol\u00edtica nem a equidade social est\u00e3o garantidas. Em paralelo, os interesses chineses na regi\u00e3o poderiam converter-se em objeto de press\u00e3o. De fato, embora a presen\u00e7a de Pequim na Am\u00e9rica Latina n\u00e3o seja t\u00e3o determinante como na \u00c1frica, estrategicamente falando existem elementos que poderiam ser preocupantes desde a \u00f3tica ocidental, como a constru\u00e7\u00e3o chinesa de infraestruturas cr\u00edticas na \u00e1rea do Caribe ou as intensas rela\u00e7\u00f5es agr\u00edcolas estabelecidas a partir do com\u00e9rcio de soja no Cone Sul.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Olhando para o futuro, tamb\u00e9m poderia ser preocupante o qu\u00e3o receptiva a nossa regi\u00e3o poderia chegar a ser ao estabelecimento de sistemas de compensa\u00e7\u00e3o comercial como os promovidos por Pequim. Nesta mat\u00e9ria, resta saber at\u00e9 onde poderia chegar a press\u00e3o ocidental, embora caiba interpretar a poss\u00edvel &#8216;associa\u00e7\u00e3o&#8217; da Col\u00f4mbia \u00e0 OTAN como um aviso aos navegantes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Outro poss\u00edvel vetor de press\u00e3o externa poderia ser o ambiental. Nos \u00faltimos dias, o calor da Guerra da Ucr\u00e2nia impediu-nos de valorizar em sua justa medida a seriedade de um recente informe das Na\u00e7\u00f5es Unidas que alerta, pela en\u00e9sima vez, para a degrada\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica irrevers\u00edvel sofrida pela Amaz\u00f4nia e para os graves riscos clim\u00e1ticos que a nossa regi\u00e3o enfrenta. Com a Ant\u00e1rtida, ambientalmente fr\u00e1gil e geopoliticamente sens\u00edvel para os pa\u00edses do Cone Sul, ocorre algo parecido: o tratado internacional que protege a \u00e1rea contra incurs\u00f5es irrespons\u00e1veis expirar\u00e1 em 2048, e neste momento diversos atores est\u00e3o tomando posi\u00e7\u00f5es com a poss\u00edvel explora\u00e7\u00e3o de recursos como pano de fundo.<\/p>\n\n\n\n<p>No final, o problema geopol\u00edtico subjacente permanece substancialmente inalterado, mesmo no contexto estrat\u00e9gico que parece estar inaugurando a Guerra da Ucr\u00e2nia. Segue existindo um <em>boom<\/em> internacional de <em>commodities<\/em> que o hibridismo do conflito, na medida em que fragmenta politicamente o espa\u00e7o global, complica mas n\u00e3o muda. Da Am\u00e9rica Latina, este deveria ser considerado o verdadeiro problema estrat\u00e9gico comum: acabar\u00e1 sendo este o caso?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>*Tradu\u00e7\u00e3o do espanhol por Giulia Gaspar.<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A curto prazo e a n\u00edvel micro, \u00e9 claro, haver\u00e1 aumentos generalizados da infla\u00e7\u00e3o. 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