{"id":9479,"date":"2022-03-28T09:00:00","date_gmt":"2022-03-28T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=9479"},"modified":"2022-03-24T08:17:53","modified_gmt":"2022-03-24T11:17:53","slug":"mulheres-independencia-e-revolucao-na-america-latina-manuela-saenz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/mulheres-independencia-e-revolucao-na-america-latina-manuela-saenz\/","title":{"rendered":"Mulheres, independ\u00eancia e revolu\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina: Manuela S\u00e1enz"},"content":{"rendered":"\n<p>Na hist\u00f3ria latino-americana, al\u00e9m dos modelos de esposa e m\u00e3e, <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/igualdade-de-genero-hoje-para-um-futuro-sustentavel\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">tradicionalmente o papel das mulheres tem sido invisibilizado<\/a> ou reduzido a uma posi\u00e7\u00e3o sentimental, patri\u00f3tica ou religiosa. Muitas mulheres, figuras destacadas na hist\u00f3ria da Independ\u00eancia da regi\u00e3o, t\u00eam sido esquecidas por anos, condenadas ao ostracismo ou desvalorizadas por causa de seu g\u00eanero: um dos exemplos mais emblem\u00e1ticos \u00e9 o de Manuela S\u00e1enz.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela \u00e9 considerada uma das protagonistas de uma esp\u00e9cie de revolu\u00e7\u00e3o das mulheres que se desenrolou em meio \u00e0s revolu\u00e7\u00f5es de independ\u00eancia ocorridas em territ\u00f3rios latino-americanos que estavam sob o dom\u00ednio colonial de pa\u00edses europeus, no in\u00edcio do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n\n\n\n<p>Trajet\u00f3rias como a dela evidenciam que os processos de emancipa\u00e7\u00e3o colonial e de forma\u00e7\u00e3o nacional abrigaram incont\u00e1veis sonhos que foram muito al\u00e9m dos limites tra\u00e7ados pela elite <em>criolla \u2013<\/em> aquela classe social que intentava, e em grande medida logrou, manter sob seu controle o curso das transforma\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Manuela S\u00e1enz nasceu em 1797 em Quito. Durante a inf\u00e2ncia, vivenciou a atmosfera rebelde do movimento que em 1809 destituiu o presidente da Real Audi\u00eancia e formou a primeira Junta Soberana de Governo, rapidamente reprimida. Em 1817, casou-se, cumprindo um destino quase incontorn\u00e1vel para mulheres da mesma origem social abastada. Mudou-se para Lima, onde sua atua\u00e7\u00e3o junto \u00e0s for\u00e7as pr\u00f3-independ\u00eancia lhe rendeu a condecora\u00e7\u00e3o com a ordem de \u201cCaballereza del Sol\u201d, dada por San Mart\u00edn.<\/p>\n\n\n\n<p>De volta a Quito, em 1822, participou dos preparativos para a Batalha do Pichincha, ocasi\u00e3o em que conheceu Sim\u00f3n Bol\u00edvar. N\u00e3o s\u00f3 amoroso, o la\u00e7o que se estabeleceu entre eles a partir de ent\u00e3o era profundamente pol\u00edtico: compartilhavam o sonho de integra\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios liberados em uma confedera\u00e7\u00e3o de estados, a Gr\u00e3-Col\u00f4mbia, que fizesse frente aos desafios que as jovens na\u00e7\u00f5es latino-americanas enfrentariam no quadro da geopol\u00edtica mundial para manuten\u00e7\u00e3o de sua independ\u00eancia e soberania.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao retornar ao Peru, foi incorporada ao Estado-Maior bolivariano, ficando respons\u00e1vel pelos arquivos da campanha libertadora. Neste per\u00edodo, iniciou sua carreira militar: ingressou no ex\u00e9rcito como h\u00fassar e, em 1824, em virtude da Batalha de Jun\u00edn se tornou \u201cCapit\u00e3o\u201d. Em seguida, na Batalha de Ayacucho foi elevada a \u201cCoronel\u201d. Ela encorajou a cria\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica da Bol\u00edvia, que ocorreu em 1825, e \u00e9 tamb\u00e9m poss\u00edvel que tenha estado naquela regi\u00e3o colaborando diretamente com o projeto.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1827, sofreu os abalos da destitui\u00e7\u00e3o dos poderes bolivarianos no Peru, sendo presa e obrigada a deixar o pa\u00eds. Em 1828, transferiu-se para Bogot\u00e1, estando ao lado de Bol\u00edvar durante o per\u00edodo em que este exerceu diretamente o cargo de presidente da Col\u00f4mbia. Neste cen\u00e1rio, sua influ\u00eancia pol\u00edtica se fez sentir em v\u00e1rios aspectos e se tornaram famosos os epis\u00f3dios em que descobriu e ajudou a frustrar alguns atentados tramados contra a vida do aclamado Libertador, que se enfrentava com grupos de oposi\u00e7\u00e3o ao regime.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1830, mesmo com a ren\u00fancia e o ex\u00edlio deste, permaneceu na capital colombiana, ajudando a articular uma nova investida sob o poder que o reconduzisse ao governo. Isto, contudo, n\u00e3o aconteceu. A morte de Bol\u00edvar no final daquele ano foi um cap\u00edtulo a mais no desmantelamento dos audaciosos planos de erigir uma \u201cp\u00e1tria grande\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Contra Manuela se intensificaram, ent\u00e3o, as campanhas difamat\u00f3rias e a persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Por fim, em 1834, foi desterrada e ap\u00f3s passar um per\u00edodo na Jamaica, sua tentativa de retornar ao Equador foi tamb\u00e9m embargada, restando-lhe a perman\u00eancia em uma cidade afastada do litoral peruano, onde morreu em 1856, cercada pela pobreza e pela ang\u00fastia do isolamento pol\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Uma utopia coletiva<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A sua trajet\u00f3ria rebelde \u2013 embora n\u00e3o a impedisse de cair, vez ou outra, sob as r\u00e9deas da repress\u00e3o moral, da objetifica\u00e7\u00e3o sexual e da submiss\u00e3o amorosa \u2013 exemplifica uma coragem e rebeldia que eram coletivas. Recuper\u00e1-la nos ajuda a tornar mais vis\u00edvel a situa\u00e7\u00e3o de mulheres de distintos grupos \u00e9tnicos e sociais que, ao envolverem-se na campanha libertadora, desafiaram a hierarquia das rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero que cerceavam a experi\u00eancia feminina tanto na esfera privada quanto na p\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas mulheres criativamente instrumentalizavam elementos que compunham o sistema de sua pr\u00f3pria opress\u00e3o para atuar na luta e criavam, assim, rotas de fuga. Eram as organizadoras das tert\u00falias nas quais se articulavam conspira\u00e7\u00f5es; abrigavam fugitivos; ajudavam a propagar as novas ideias em suas redes familiares;&nbsp; atuavam como espi\u00e3s e mensageiras, obtendo e transmitindo informa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Fora do espa\u00e7o de seus lares, participaram de protestos e colaboraram com a imprensa, dando tamb\u00e9m contribui\u00e7\u00f5es intelectuais ao movimento. Disponibilizaram recursos materiais, sobretudo na forma de sua for\u00e7a de trabalho, para dar suporte aos ex\u00e9rcitos libertadores, al\u00e9m de acompanhar ou ingressar diretamente nas tropas quando isto lhes foi poss\u00edvel. Corriam o risco de violentas repres\u00e1lias, como humilha\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e agress\u00f5es sexuais, para al\u00e9m da hostilidade que podiam enfrentar de alguns de seus pr\u00f3prios companheiros de luta.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 como se a revolu\u00e7\u00e3o, ao sacudir algumas estruturas do velho regime colonial, tivesse liberado for\u00e7as que n\u00e3o eram in\u00e9ditas, mas que estavam represadas. A subvers\u00e3o da ordem, embora tenha se pretendido limitada \u00e0 esfera pol\u00edtica, instaurou um per\u00edodo excepcional da vida em sociedade e deu margem para que uma suspens\u00e3o das normas em outras esferas fosse admitida e, at\u00e9 certo ponto, estimulada.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando o caos revolucion\u00e1rio abriu a possibilidade da proje\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria de outros mundos, as mulheres n\u00e3o foram simples pe\u00e7as manejadas pelas classes dominantes. Elas sonharam n\u00e3o s\u00f3 com a liberta\u00e7\u00e3o da p\u00e1tria, mas tamb\u00e9m com sua pr\u00f3pria liberta\u00e7\u00e3o, constituindo em grande medida \u2013 juntamente com uma popula\u00e7\u00e3o negra e ind\u00edgena superexplorada &#8211; a for\u00e7a deposit\u00e1ria da radicaliza\u00e7\u00e3o que buscava transformar a revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica em revolu\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o encerramento do ciclo revolucion\u00e1rio, a nova ordem estabelecida sob a \u00e9gide <em>criolla <\/em>reprimiu e expulsou n\u00e3o s\u00f3 da luta pol\u00edtica, como tamb\u00e9m da mem\u00f3ria hist\u00f3rica, as revolu\u00e7\u00f5es das mulheres e dos povos negros e ind\u00edgenas. As mulheres foram pressionadas a readequarem-se aos pap\u00e9is tradicionais de g\u00eanero, sendo reconvertidas na figura coadjuvante e apaziguadora de \u201cm\u00e3es da p\u00e1tria\u201d, elaboradas sob medida para expressar amor e sacrif\u00edcio, mas n\u00e3o tematizar as desigualdades e discrimina\u00e7\u00f5es de g\u00eanero.<\/p>\n\n\n\n<p>Imposs\u00edvel de ser retraduzida nesses termos, Manuela S\u00e1enz entrou para a hist\u00f3ria inicialmente como uma das mais ilustres amantes de Bol\u00edvar e durante muito tempo ocupou o espa\u00e7o de uma simples anedota nas aventuras rom\u00e2nticas do Libertador.<\/p>\n\n\n\n<p>Em sua utopia emancipadora, ela expressa a sutil converg\u00eancia entre projetos de liberta\u00e7\u00e3o nacional e de liberta\u00e7\u00e3o das mulheres, sinalizando para uma das tarefas n\u00e3o conclu\u00eddas pelos processos de independ\u00eancia na Am\u00e9rica Latina. Por isso, nos p\u00f5e diante de movimentos insurgentes que se constitu\u00edam mutuamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Passados mais de 150 anos, a insurg\u00eancia feminina que floresceu naquele momento pode ser vista como pioneira de movimentos feministas e de mulheres latino-americanas, representando um precioso legado que deve ser resgatado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Muitas mulheres, figuras de destaque na hist\u00f3ria da independ\u00eancia da regi\u00e3o, foram esquecidas durante anos, ostracizadas ou desvalorizadas por causa de seu g\u00eanero: um dos exemplos mais emblem\u00e1ticos \u00e9 o de Manuela S\u00e1enz.<\/p>\n","protected":false},"author":317,"featured_media":9474,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16741,546],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-9479","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-mujeres-pt-br","8":"category-sociedad-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9479","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/317"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9479"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9479\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9474"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9479"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9479"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9479"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=9479"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}