{"id":9494,"date":"2022-03-26T09:00:00","date_gmt":"2022-03-26T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=9494"},"modified":"2022-03-25T12:59:05","modified_gmt":"2022-03-25T15:59:05","slug":"vemos-a-invasao-da-ucrania-e-o-mundo-com-olhos-emprestados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/vemos-a-invasao-da-ucrania-e-o-mundo-com-olhos-emprestados\/","title":{"rendered":"Vemos a invas\u00e3o da Ucr\u00e2nia e o mundo com olhos emprestados"},"content":{"rendered":"\n<p><a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/e-se-criassemos-nosso-proprio-new-york-times\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Qual \u00e9 a import\u00e2ncia de ver o mundo de acordo com seus pr\u00f3prios olhos, ao inv\u00e9s de abra\u00e7ar a leitura de outros?<\/a> Com a invas\u00e3o da Ucr\u00e2nia pela R\u00fassia, os notici\u00e1rios, revistas e as redes sociais foram inundadas pelo assunto. Em pouco tempo, manifesta\u00e7\u00f5es de consterna\u00e7\u00e3o e de empatia com os afetados surgiram na sociedade brasileira e nos demais pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina. Tamb\u00e9m n\u00e3o tardou para cr\u00edticos lembrarem que h\u00e1 outras guerras que n\u00e3o receberam a mesma aten\u00e7\u00e3o ou como\u00e7\u00e3o. I\u00eamen, S\u00edria, Rep\u00fablica Centro-Africana, bem como os conflitos de <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/colombia-cinco-de-uma-paz-nao-cumprida\/\">ra\u00edzes socioecon\u00f4micas na Am\u00e9rica Latina<\/a> foram frequentemente usados como exemplos da seletividade. Claro que <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/por-un-orden-internacional-de-pueblos-libres-ayudemos-a-ucrania-2\/\">todo sentimento de solidariedade deveria ser bem-vindo<\/a>, ainda que n\u00e3o ocorra em todas as ocasi\u00f5es. Todavia, cabe questionar por que a guerra na Ucr\u00e2nia gera um impacto maior em parte da sociedade do que outros conflitos, inclusive alguns que ocorrem diariamente dentro dos pr\u00f3prios pa\u00edses ou da regi\u00e3o? Ser\u00e1 que vemos o mundo com olhos emprestados da Europa ou dos Estados Unidos?<\/p>\n\n\n\n<p>Em compara\u00e7\u00e3o com esses conflitos citados, a guerra na Ucr\u00e2nia tem diferen\u00e7as evidentes. Seria um erro n\u00e3o reconhecer as especificidades do que est\u00e1 ocorrendo. Para come\u00e7ar, <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/a-crise-da-ucrania-e-o-pesadelo-ocidental\/\">envolve a R\u00fassia<\/a>, que \u00e9 uma pot\u00eancia militar e nuclear, o que confere um potencial destrutivo maior a esse embate. A decis\u00e3o de Vladmir Putin de colocar o arsenal nuclear em alerta sugere que um ataque com armas de destrui\u00e7\u00e3o em massa n\u00e3o est\u00e1 t\u00e3o distante assim.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m h\u00e1 um poderoso peso simb\u00f3lico no choque russo-ucraniano. Os recentes acontecimentos reascendem a mem\u00f3ria da Guerra Fria, que claramente ainda est\u00e1 viva no imagin\u00e1rio coletivo, embora o colapso da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica tenha ocorrido h\u00e1 mais de 30 anos. Desse modo, emergem todas as imagens propagandistas estereotipadas e leituras que descrevem a luta entre o bem e o mal. Al\u00e9m disso, o fantasma do comunismo curiosamente ainda est\u00e1 latente nas disputas ideol\u00f3gicas no cen\u00e1rio pol\u00edtico regional e nacional em pleno s\u00e9culo XXI.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Os debates sobre a invas\u00e3o da Ucr\u00e2nia no caso brasileiro <\/strong><strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As especificidades mencionadas importam e ajudam a entender como os brasileiros veem o conflito. Mas ainda \u00e9 insuficiente. Como explicar o predom\u00ednio de an\u00e1lises que responsabilizam quase exclusivamente a R\u00fassia pela guerra? Ou ent\u00e3o o esfor\u00e7o de demonizar Vladmir Putin? E a vitimiza\u00e7\u00e3o da Europa? Pouco se fala na a\u00e7\u00e3o europeia de insistentemente incentivar e de fomentar partidos, institui\u00e7\u00f5es e movimentos que se opunham \u00e0 aproxima\u00e7\u00e3o com os russos. Em dezembro de 2013, quando o governo ucraniano decidiu por um acordo comercial com a R\u00fassia, em detrimento da Uni\u00e3o Europeia, as revoltas que tomaram conta do pa\u00eds tiveram influ\u00eancia de pa\u00edses ocidentais.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse vi\u00e9s tamb\u00e9m \u00e9 verific\u00e1vel nas an\u00e1lises de alguns especialistas. Insistimos em leituras que a R\u00fassia est\u00e1 isolada, quando n\u00e3o est\u00e1. Os 35 pa\u00edses que se abstiveram ou os 4 que al\u00e9m da R\u00fassia (Belarus, Coreia do Norte, Eritreia e S\u00edria) votaram contra a resolu\u00e7\u00e3o na Assembleia Geral da ONU que condenava as a\u00e7\u00f5es russas det\u00eam mais de 50% da popula\u00e7\u00e3o do planeta.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 quem diga que estamos vendo o fim de uma ordem mundial. Como sabemos, uma ordem mundial \u00e9 composta de valores, princ\u00edpios, regras e institui\u00e7\u00f5es que determinam o comportamento considerado apropriado para atores internacionais. A guerra na Ucr\u00e2nia \u00e9 resultado de um padr\u00e3o de comportamento russo que entra em atrito com outro padr\u00e3o de comportamento: a expans\u00e3o da influ\u00eancia ocidental e de suas institui\u00e7\u00f5es na antiga zona de influ\u00eancia sovi\u00e9tica. Foi assim na Ge\u00f3rgia em 2008, na Crimeia em 2014 e agora na Ucr\u00e2nia. Al\u00e9m disso, a ordem estabelecida j\u00e1 foi desafiada outras vezes, como na invas\u00e3o do Iraque pelos EUA em 2003, na prolifera\u00e7\u00e3o nuclear por pa\u00edses fora do Tratado de N\u00e3o Prolifera\u00e7\u00e3o Nuclear (TNP) e em in\u00fameros atos e discursos de Donald Trump quando ocupava o posto de presidente dos Estados Unidos. Se n\u00e3o falamos de uma nova ordem mundial nesses epis\u00f3dios, \u00e9 no m\u00ednimo curioso decretar essa mudan\u00e7a agora.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez seja a hora de lembrarmos que a vis\u00e3o de mundo que predomina no Brasil n\u00e3o \u00e9 brasileira. Lemos o jogo geopol\u00edtico internacional de acordo com o que nos ensinaram. Nossa percep\u00e7\u00e3o de mundo, de princ\u00edpios, de valores, bem como de preconceitos e de estere\u00f3tipos reflete uma hist\u00f3ria repleta de influ\u00eancias externas. Atribu\u00edmos maior ou menor import\u00e2ncia a eventos de acordo com o interesse de outros pa\u00edses e de outras sociedades.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Rela\u00e7\u00f5es Internacionais, h\u00e1 uma estrutura de produ\u00e7\u00e3o de conhecimento que dificulta a cria\u00e7\u00e3o de teorias por autores e autoras de pa\u00edses com menor poder relativo. Ent\u00e3o, importamos conceitos, metodologias e leituras pensadas por pessoas em pa\u00edses poderosos para pensar a realidade deles. Com isso, importamos o etnocentrismo \u2013 n\u00e3o nosso, mas o etnocentrismo dos outros. Isso n\u00e3o chega a ser novidade, mas surpreende a incapacidade nossa em superar essa barreira. Em um mundo cada vez mais globalizado, o desenvolvimento de uma vis\u00e3o de mundo que seja brasileira torna-se fundamental para a constru\u00e7\u00e3o de um projeto de pa\u00eds. Precisamos come\u00e7ar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em um mundo cada vez mais globalizado, desenvolver uma vis\u00e3o pr\u00f3pria do mundo \u00e9 fundamental para a constru\u00e7\u00e3o de um projeto nacional. 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