{"id":9511,"date":"2022-03-27T05:15:00","date_gmt":"2022-03-27T08:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=9511"},"modified":"2023-10-23T18:00:11","modified_gmt":"2023-10-23T21:00:11","slug":"funcionarao-as-sancoes-contra-a-russia-eis-o-que-aprendemos-com-a-venezuela","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/funcionarao-as-sancoes-contra-a-russia-eis-o-que-aprendemos-com-a-venezuela\/","title":{"rendered":"Funcionar\u00e3o as san\u00e7\u00f5es contra a R\u00fassia? Eis o que aprendemos com a Venezuela"},"content":{"rendered":"\n<p>Dizem que as san\u00e7\u00f5es que a Uni\u00e3o Europeia e os Estados Unidos impuseram \u00e0 R\u00fassia na \u00faltima semana s\u00e3o as mais duras da hist\u00f3ria. Mas temos experi\u00eancias semelhantes com san\u00e7\u00f5es muito extensas, embora contra pa\u00edses de muito menor import\u00e2ncia para a economia mundial.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde 2017, a Venezuela tem sido sujeita a duras san\u00e7\u00f5es por parte dos EUA e da UE. O objetivo era que a press\u00e3o econ\u00f4mica sobre o regime autorit\u00e1rio de Nicol\u00e1s Maduro obrigasse a elei\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas e a mudan\u00e7as no governo. No entanto, isso n\u00e3o aconteceu.<\/p>\n\n\n\n<p>As san\u00e7\u00f5es contra a Venezuela come\u00e7aram com um embargo de armas imposto pelos EUA em 2006. A raz\u00e3o foi que a Venezuela n\u00e3o contribuiu suficientemente para a luta contra o terrorismo. Isto levou o pa\u00eds sul-americano a recorrer \u00e0 R\u00fassia, que rapidamente se tornou o seu mais importante fornecedor de armas. Ap\u00f3s um r\u00e1pido desgaste da democracia e a eros\u00e3o dos direitos humanos, em 2014 os Estados Unidos introduziram san\u00e7\u00f5es contra pessoas pr\u00f3ximas ao governo. O pa\u00eds foi logo declarado uma amea\u00e7a \u00e0 seguran\u00e7a dos Estados Unidos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Quando Maduro fez caso omisso da Assembleia Nacional democraticamente eleita em 2017, os Estados Unidos proibiram todas as transa\u00e7\u00f5es financeiras com o Estado venezuelano e a UE tamb\u00e9m imp\u00f4s novas san\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s uma elei\u00e7\u00e3o presidencial marcada por fraude, os Estados Unidos introduziram em 2019 uma proibi\u00e7\u00e3o de comercializar&nbsp; com todas as ag\u00eancias estatais do pa\u00eds, incluindo a companhia petrol\u00edfera estatal, PDVSA, enquanto o Reino Unido confiscou reservas de ouro venezuelanas em bancos brit\u00e2nicos.<\/p>\n\n\n\n<p>As receitas do petr\u00f3leo constituem cerca de 97% das receitas da Venezuela. As san\u00e7\u00f5es contribu\u00edram para um decl\u00ednio na produ\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo, que j\u00e1 estava em decl\u00ednio, e causaram a queda acentuada do produto nacional bruto.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A infla\u00e7\u00e3o, que j\u00e1 estava em n\u00edveis alt\u00edssimos, converteu-se em hiperinfla\u00e7\u00e3o (mais de 1.000 por cento ao ano), o que teve repercuss\u00f5es, embora n\u00e3o as esperadas pela oposi\u00e7\u00e3o, pelos Estados Unidos e pela Europa.<\/p>\n\n\n\n<p>Vemos aqui seis li\u00e7\u00f5es que aprendemos com a experi\u00eancia venezuelana.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>1. As san\u00e7\u00f5es atingem frequentemente o alvo equivocado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No caso da Venezuela, assim como est\u00e1 acontecendo agora na R\u00fassia, os bancos e as empresas privadas recusaram-se a manter rela\u00e7\u00f5es comerciais com as empresas venezuelanas, ainda que, se o tivessem feito, as san\u00e7\u00f5es n\u00e3o teriam sido violadas. Isto que poderia ser chamado de &#8220;cumprimento excessivo&#8221; \u00e9 uma rea\u00e7\u00e3o ao medo tanto de ser sancionado como de gerar uma reputa\u00e7\u00e3o negativa.<\/p>\n\n\n\n<p>Desta forma, as san\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m afetaram importantes figuras da oposi\u00e7\u00e3o na comunidade empresarial, que ficaram isoladas dos mercados e do financiamento exterior. A consequ\u00eancia foi um aumento das divis\u00f5es dentro de uma oposi\u00e7\u00e3o j\u00e1 fragmentada.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>2. Os pa\u00edses sancionados encontram novos s\u00f3cios e novos caminhos<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O que aconteceu a seguir foi que a Venezuela encontrou novos parceiros comerciais e novas formas tanto de dar como de receber pagamentos, uma vez que o Estado sul-americano foi exclu\u00eddo dos sistemas de pagamento regulares.<\/p>\n\n\n\n<p>Pouco depois que se introduziram as san\u00e7\u00f5es financeiras em 2017, a Venezuela lan\u00e7ou a sua pr\u00f3pria moeda criptogr\u00e1fica &#8211; a Petro &#8211; desenvolvida em colabora\u00e7\u00e3o com peritos russos.<\/p>\n\n\n\n<p>A empresa petrol\u00edfera russa Rosneft j\u00e1 estava estabelecida na Venezuela. Sua presen\u00e7a aumentou depois de que seu chefe principal, Igor Setchin, foi inclu\u00eddo na lista de san\u00e7\u00f5es dos Estados Unidos diante da anexa\u00e7\u00e3o da Crimeia em 2014.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m se refor\u00e7aram os la\u00e7os com os sancionados Ir\u00e3, S\u00edria e Turquia, que foram ajudados com a venda de petr\u00f3leo e importa\u00e7\u00f5es agr\u00edcolas.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando a China puxou os freios como credor, a R\u00fassia emprestou \u00e0 Venezuela um total de cerca de 17 bilh\u00f5es de d\u00f3lares. Em outras palavras, os pa\u00edses sancionados se unem.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Os Estados Unidos aumentaram o uso de san\u00e7\u00f5es em 50% sob a presid\u00eancia de Donald Trump. O aumento tem continuado com Joe Biden na Casa Branca, mesmo antes das recentes san\u00e7\u00f5es contra a R\u00fassia.<\/p>\n\n\n\n<p>Quanto mais pa\u00edses forem sancionados, maior ser\u00e1 o grupo de pa\u00edses que se unem para encontrar solu\u00e7\u00f5es comuns e competir em uma economia mundial baseada no d\u00f3lar e controlada pelos Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>3. As san\u00e7\u00f5es se converteram em um bode expiat\u00f3rio<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Dentro da Venezuela, n\u00e3o ocorreu o que a oposi\u00e7\u00e3o e os seus partid\u00e1rios nos Estados Unidos e na Europa esperavam: que estrangular o regime por dinheiro levaria a que o sistema de poder capitulasse, e que se pressionaria Maduro para que sa\u00edsse.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Pelo contr\u00e1rio, Maduro tentou convencer as pessoas &#8211; com certo \u00eaxito &#8211; de que os problemas econ\u00f4micos se deviam \u00e0s san\u00e7\u00f5es. As san\u00e7\u00f5es se converteram num bode expiat\u00f3rio, e ofuscaram anos de corrup\u00e7\u00e3o e m\u00e1 gest\u00e3o financeira.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>4. As san\u00e7\u00f5es podem fortalecer os l\u00edderes autorit\u00e1rios<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Quando a crise econ\u00f4mica se transformou numa crise humanit\u00e1ria, as san\u00e7\u00f5es tornaram-se t\u00e3o impopulares que mesmo um presidente muito impopular como Maduro conseguiu se mobilizar em torno do ressentimento nacionalista e da lealdade \u00e0 p\u00e1tria.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo, o regime tornou-se mais autorit\u00e1rio e baseou o seu apoio num grupo mais restrito de militares e elites.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>5. As san\u00e7\u00f5es refor\u00e7am a economia informal e criminal<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Como consequ\u00eancia tanto da crise anterior como das san\u00e7\u00f5es, cada vez mais venezuelanos se viram obrigados a entrar na economia informal, e alguns tamb\u00e9m na economia criminal. O crime organizado internacional tamb\u00e9m aumentou o seu alcance, em parte com v\u00ednculos tanto com o governo como com a R\u00fassia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>6. As san\u00e7\u00f5es dificultam o abandono de poder<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Tudo isto contribuiu para que Maduro tivesse cada vez menos incentivo para deixar o poder. \u00c9 acusado nos Estados Unidos de narcotr\u00e1fico e tem um processo aberto no Tribunal Penal Internacional de Haia. Em outras palavras, ele n\u00e3o tem um futuro brilhante como ex-presidente.<\/p>\n\n\n\n<p>Os Estados Unidos tamb\u00e9m n\u00e3o t\u00eam uma estrat\u00e9gia clara para reduzir as san\u00e7\u00f5es e o que seria necess\u00e1rio para alcan\u00e7\u00e1-lo. Para os apoiantes de Maduro, havia poucas raz\u00f5es para acreditar que valeria a pena mudar de lado.<\/p>\n\n\n\n<p>A proibi\u00e7\u00e3o de comprar petr\u00f3leo \u00e0 R\u00fassia deu uma nova reviravolta \u00e0 hist\u00f3ria, j\u00e1 que representantes dos Estados Unidos viajaram para a Venezuela na semana passada para discutir uma poss\u00edvel flexibiliza\u00e7\u00e3o das san\u00e7\u00f5es petrol\u00edferas a fim de assegurar um pouco mais de abastecimento se houver um impasse petrol\u00edfero russo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo, um modesto aumento das receitas petrol\u00edferas, a liberaliza\u00e7\u00e3o do uso do d\u00f3lar, a liberaliza\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio e as privatiza\u00e7\u00f5es deram \u00e0 Venezuela um pequeno impulso econ\u00f4mico. Com o pre\u00e7o do petr\u00f3leo nas nuvens, Maduro tem fichas de negocia\u00e7\u00e3o mais fortes do que as que teve em muito tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 evidente que existem muitas diferen\u00e7as entre as san\u00e7\u00f5es que procuram impedir uma guerra brutal de invas\u00e3o e san\u00e7\u00f5es que procuram uma mudan\u00e7a de regime. E a R\u00fassia n\u00e3o \u00e9 a Venezuela.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a experi\u00eancia da Venezuela d\u00e1 motivos para sermos cautelosos na implementa\u00e7\u00e3o de medidas que fortalecem a coes\u00e3o nacional, as redes criminosas e as alian\u00e7as alternativas, e que debilitam as for\u00e7as sobre as quais pretendemos construir uma rela\u00e7\u00e3o com a R\u00fassia.<\/p>\n\n\n\n<p>Nem o sentido de justi\u00e7a nem o desejo de vingan\u00e7a s\u00e3o boas b\u00fassolas quando se trata da pol\u00edtica de san\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>*Tradu\u00e7\u00e3o do espanhol por Giulia Gaspar.<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Venezuela has been subject to severe sanctions from the United States and the European Union. The hope was that economic pressure on Nicolas Maduro&#8217;s authoritarian regime would force democratic elections and changes in governance. That did not happen.<\/p>\n","protected":false},"author":73,"featured_media":9498,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16976,16721],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-9511","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-rusia-es-pt-br","8":"category-venezuela-pt-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9511","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/73"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9511"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9511\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9498"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9511"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9511"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9511"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=9511"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}