{"id":9517,"date":"2022-03-29T09:00:00","date_gmt":"2022-03-29T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=9517"},"modified":"2022-03-28T06:54:56","modified_gmt":"2022-03-28T09:54:56","slug":"a-esquerda-latino-americana-e-sua-visao-da-guerra-da-ucrania","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/a-esquerda-latino-americana-e-sua-visao-da-guerra-da-ucrania\/","title":{"rendered":"A esquerda latino-americana e sua vis\u00e3o da guerra da Ucr\u00e2nia"},"content":{"rendered":"\n<p>Da perspectiva do direito internacional, <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/por-un-orden-internacional-de-pueblos-libres-ayudemos-a-ucrania-2\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">a agress\u00e3o da R\u00fassia \u00e0 Ucr\u00e2nia<\/a> n\u00e3o pode ser desculpada. Entretanto, embora nenhum pa\u00eds latino-americano tenha votado contra a condena\u00e7\u00e3o da R\u00fassia na Assembleia Geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas, pa\u00edses como Bol\u00edvia, El Salvador, Nicar\u00e1gua e Cuba se abstiveram, e a Venezuela se ausentou. Neste sentido, o posicionamento de alguns atores pol\u00edticos da esquerda latino-americana gera consterna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Para a ex-embaixadora do M\u00e9xico nos Estados Unidos, Martha B\u00e1rcena, o voto de seu pa\u00eds veio para definir uma postura oficial que finalmente \u201ctomou o rumo correto, como produto do trabalho da miss\u00e3o do M\u00e9xico junto \u00e0 ONU\u201d. Foi a corre\u00e7\u00e3o \u00e0s ambiguidades do discurso de Andr\u00e9s Manuel L\u00f3pez Obrador, que, segundo a pr\u00f3pria embaixadora, estava sendo empurrado a se distanciar de uma condena\u00e7\u00e3o clara e contundente da invas\u00e3o pela ala mais ortodoxa de seu pr\u00f3prio partido, Morena.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A ambiguidade inicial do Governo do M\u00e9xico \u00e9 sintom\u00e1tica de uma dificuldade que certos governos e for\u00e7as pol\u00edticas da esquerda latino-americana tiveram para se posicionar nesta nova conjuntura pol\u00edtica internacional.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O Grupo de Puebla, que re\u00fane l\u00edderes do progressismo latino-americano, tamb\u00e9m se limitou em suas declara\u00e7\u00f5es tanto em subst\u00e2ncia quanto em forma. Em sua declara\u00e7\u00e3o de 24 de fevereiro, fez um chamado \u201ccordial \u00e0s partes envolvidas, para manter a paz e a seguran\u00e7a da Ucr\u00e2nia, abandonando a via da interven\u00e7\u00e3o militar e das san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas unilaterais contra a R\u00fassia\u201d, mas sem mencionar as palavras \u201cinvas\u00e3o\u201d ou \u201cagress\u00e3o\u201d. Por\u00e9m, dois dias depois, emitiu uma segunda declara\u00e7\u00e3o condenando \u201co uso unilateral da for\u00e7a e as graves consequ\u00eancias humanit\u00e1rias\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A leitura da conjuntura internacional que parte da esquerda latino-americana fez e segue fazendo \u00e9 influenciada por diferentes fatores. Alguns deles s\u00e3o evidentes. Para Cuba, Venezuela e Nicar\u00e1gua, a quest\u00e3o \u00e9 manter uma boa rela\u00e7\u00e3o com os Estados que representam um contrapeso aos EUA, e aos quais podem recorrer para superar as san\u00e7\u00f5es e inimizades que t\u00eam com seu vizinho do norte. Isto implica n\u00e3o somente em acenar \u00e0 R\u00fassia, mas tamb\u00e9m em manter certa sintonia com a China, que tamb\u00e9m evita condenar a agress\u00e3o de Vladimir Putin.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Este posicionamento geopol\u00edtico \u00e9 similar, mas n\u00e3o igual ao que procura se distanciar de qualquer tipo de a\u00e7\u00e3o agressiva em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 R\u00fassia, como as implementadas pelos membros da OTAN e da Uni\u00e3o Europeia. Aqui tamb\u00e9m, os interesses comerciais e as expectativas de poss\u00edveis investimentos estrangeiros diretos, especialmente da China, s\u00e3o primordiais. Este grupo n\u00e3o inclui apenas pa\u00edses que se definem como de centro-esquerda, como a Argentina, mas tamb\u00e9m governos de direita, como \u00e9 o caso de Jair Bolsonaro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o que mais se lamenta \u00e9 que existem narrativas que denotam uma perspectiva ideol\u00f3gica que ainda persiste na regi\u00e3o apesar de suas limita\u00e7\u00f5es: o \u201canti-imperialismo ing\u00eanuo\u201d. Ainda acredita no discurso oficial dos aparatos estatais de Cuba, Venezuela e Nicar\u00e1gua, e est\u00e1 disposto a subordinar um posicionamento progressista coerente ao manique\u00edsmo ortodoxo no qual tudo o que os EUA fazem \u00e9 contr\u00e1rio aos interesses do esp\u00edrito revolucion\u00e1rio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No marco deste manique\u00edsmo grosseiro, a guerra na Ucr\u00e2nia foi apresentada como mais um epis\u00f3dio do hegemonismo americano, que utiliza a OTAN para atingir seus objetivos. H\u00e1 uma pergunta paradigm\u00e1tica colocada no meio de comunica\u00e7\u00e3o Prensa Latina: \u201cQual \u00e9 o objetivo dos Estados Unidos de defender um governo n\u00e3o muito popular t\u00e3o distante de suas costas?\u201d. A partir desta posi\u00e7\u00e3o, esta esquerda fez uma s\u00e9rie de contor\u00e7\u00f5es conceituais, que basicamente justificam a invas\u00e3o de um pa\u00eds soberano por um poder militar maior, algo inaceit\u00e1vel quando se trata da Am\u00e9rica Latina.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No artigo \u201cO anti-imperialismo ing\u00eanuo e o westplaining que indignam a Europa Central e Oriental\u201d, argumenta-se que a esquerda polonesa se surpreendeu com a paralisia na tomada de posi\u00e7\u00e3o de seus companheiros de rota em escala global, mas mencionando particularmente a Am\u00e9rica Latina e a Espanha.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O que \u00e9 criticado \u00e9 que o ing\u00eanuo anti-imperialismo apresenta o processo de \u201cexpans\u00e3o\u201d da OTAN como uma vontade unilateral dos EUA, quando a amplia\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi uma incorpora\u00e7\u00e3o unilateral dos pa\u00edses da extinta Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica por parte dos EUA, mas um processo mediante o qual se aceitavam solicita\u00e7\u00f5es para integrar o clube. Cada um dos ingressos se baseou em uma decis\u00e3o soberana das na\u00e7\u00f5es independentes que buscavam amparar-se sob o guarda-chuva defensivo da OTAN. Estes pa\u00edses o fizeram justamente pelo temor ao impulso imperial da R\u00fassia, que ap\u00f3s a queda da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica n\u00e3o parecia prov\u00e1vel, mas que com Putin ficou em evid\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>No Memorando de Budapeste de 1994, R\u00fassia, EUA e Gr\u00e3-Bretanha concordaram com a incorpora\u00e7\u00e3o da Ucr\u00e2nia ao Tratado de N\u00e3o-Prolifera\u00e7\u00e3o de Armas Nucleares, pelo qual a Ucr\u00e2nia se livraria de todo seu arsenal nuclear. No mesmo documento, a R\u00fassia se comprometeu a respeitar a independ\u00eancia e a integridade territorial da Ucr\u00e2nia, e foi curiosamente apresentado ao Secret\u00e1rio Geral da ONU pelo ent\u00e3o embaixador da R\u00fassia no organismo, Sergey Lavrov, atual Ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores do pa\u00eds.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Evidentemente, este compromisso foi quebrado a tal ponto que hoje nos encontramos diante de bombardeio de civis desarmados. A invas\u00e3o russa da Ucr\u00e2nia deveria levar as esquerdas latino-americanos tradicionais que ca\u00edram no perigoso caminho do negacionismo a reconsiderar suas posturas. Onde est\u00e1 o fascismo, sen\u00e3o na terr\u00edvel constata\u00e7\u00e3o de Putin, na qual ele declara estar \u201cconvencido de que essa necess\u00e1ria e natural autopurifica\u00e7\u00e3o [sic] da sociedade fortalecer\u00e1 nosso pa\u00eds, nossa solidariedade, nossa coes\u00e3o e nossa capacidade de responder a qualquer desafio\u201d?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Da perspectiva do direito internacional, a agress\u00e3o da R\u00fassia \u00e0 Ucr\u00e2nia n\u00e3o pode ser desculpada. 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