{"id":9765,"date":"2022-04-12T09:00:00","date_gmt":"2022-04-12T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=9765"},"modified":"2022-04-11T06:48:36","modified_gmt":"2022-04-11T09:48:36","slug":"segunda-onda-rosa-uma-nova-etapa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/segunda-onda-rosa-uma-nova-etapa\/","title":{"rendered":"Segunda onda rosa: uma nova etapa?"},"content":{"rendered":"\n<p>A<a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/chile-a-democracia-nao-precisa-de-miragens\/\"> elei\u00e7\u00e3o de Gabriel Boric<\/a> no Chile em dezembro de 2021, associada ao que ocorrer nas elei\u00e7\u00f5es da<a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/colombia-das-ruas-as-urnas\/\"> Col\u00f4mbia<\/a> e do<a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/o-desafio-das-eleicoes-de-2022-no-brasil-partido-ou-federacao\/\"> Brasil<\/a> ao longo de 2022, pode confirmar a ascens\u00e3o de<a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/a-volta-da-esquerda-na-america-latina-mas-qual-esquerda\/\"> uma nova \u201conda rosa\u201d na Am\u00e9rica Latina<\/a>. Essa onda, por\u00e9m, deve ser entendida como um novo momento e n\u00e3o como um segundo tempo da primeira \u2013 o ciclo de governos de esquerda na regi\u00e3o durante a d\u00e9cada de 2000 e primeira metade de 2010 -. Ou pior, como a continua\u00e7\u00e3o de algo que nem teria chegado a terminar, que teria sido apenas momentaneamente bloqueado.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Onda rosa 2.0 ou mais do mesmo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00a0Essa poss\u00edvel <a href=\"https:\/\/www.opendemocracy.net\/pt\/onda-rosa-america-latina-pode-se-tornar-verde\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">segunda onda rosa se debater\u00e1 entre o novo e o velho<\/a>: o novo que est\u00e1 nascendo, o velho que se recusa a morrer. Se apresentar\u00e1 numa conjuntura de longa transi\u00e7\u00e3o, em dire\u00e7\u00e3o a um momento hist\u00f3rico distinto daquele que tivemos na virada do s\u00e9culo XX para o XXI.<\/p>\n\n\n\n<p>Num contexto de crise org\u00e2nica e de diversas transi\u00e7\u00f5es sobrepostas, projetar uma onda rosa que retome a anterior sem maiores autocr\u00edticas e adapta\u00e7\u00f5es levar\u00e1 a resultados inferiores em compara\u00e7\u00e3o com a primeira onda, e a uma sobreviv\u00eancia mais curta. Seria propor mais do mesmo, num contexto pior e a partir de sociedades que se transformaram consideravelmente.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns elementos novos poderiam assumir centralidade neste segundo ciclo. Nacionalismos exclusivistas poderiam ser em partes contornados por uma retomada da integra\u00e7\u00e3o regional e ativa\u00e7\u00e3o de identidades regionais. Pode-se refundar institui\u00e7\u00f5es de integra\u00e7\u00e3o que est\u00e3o dormentes, e buscar estrat\u00e9gias conjuntas para enfrentar quest\u00f5es decisivas como a crise clim\u00e1tica, a supera\u00e7\u00e3o definitiva da pandemia, a circula\u00e7\u00e3o de pessoas e fomento de uma cidadania regional, a expans\u00e3o de direitos, o enfrentamento do extrativismo e redu\u00e7\u00e3o da depend\u00eancia epist\u00eamica e tecnol\u00f3gica.<\/p>\n\n\n\n<p>Estatismos exclusivistas tamb\u00e9m poderiam ser contornados, considerando-se o Estado como um n\u00facleo articulador de quest\u00f5es complexas, e eixo de alian\u00e7as efetivas entre for\u00e7as pol\u00edticas e movimentos sociais. Esta condensa\u00e7\u00e3o de demandas atrav\u00e9s do Estado pode se converter em estrat\u00e9gia para produzir hegemonia, sintetizando demandas fragmentadas derivadas das m\u00faltiplas formas de opress\u00e3o. O Estado se faz importante tamb\u00e9m para projetar investimentos em ci\u00eancia, tecnologia, inova\u00e7\u00e3o e educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, se deveria apostar em vers\u00f5es radicais de democratiza\u00e7\u00e3o, co-governo e reparti\u00e7\u00e3o de poder, envolvendo este Estado em novas articula\u00e7\u00f5es com sujeitos coletivos.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u201cMod\u00e9rnicos\u201d versus \u201cpacham\u00e2micos\u201d?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Pode-se pensar em s\u00ednteses superadoras do dilema traduzido como \u201cmod\u00e9rnicos\u201d versus \u201cpacham\u00e2micos\u201d, que parece atravessar as esquerdas regionais. Este dilema foi traduzido na divis\u00e3o entre corre\u00edstas (Andr\u00e9s Arauz) e indigenistas (Yaku P\u00e9rez) nas elei\u00e7\u00f5es equatorianas de 2021, que levou \u00e0 derrota das esquerdas e \u00e0 elei\u00e7\u00e3o de<a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/equador-os-100-primeiros-dias-de-lasso\/\"> Guillermo Lasso<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de expressar uma dicotomia simplificadora, o exemplo equatoriano, associado aos debates desatados no interior da intelectualidade cr\u00edtica, fazem supor que tal tens\u00e3o entre projetos neodesenvolvimentistas (ou neoextrativistas) e ecologistas-indigenistas efetivamente exista em algum n\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas esta contradi\u00e7\u00e3o n\u00e3o deveria ser entendida como insuper\u00e1vel. \u00c9 poss\u00edvel estender pontes, de modo a permitir di\u00e1logos e s\u00ednteses. Por uma parte, n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel manter-se nos limites do cl\u00e1ssico desenvolvimento econ\u00f4mico ocidental, que est\u00e1 levando a humanidade a um beco sem sa\u00edda. Se pode pensar em desenvolvimentos alternativos, evitando reeditar at\u00e9 o esgotamento estrat\u00e9gias depredadoras da natureza.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, estas alternativas n\u00e3o podem prescindir de um horizonte p\u00f3s-capitalista; nem abandonar a luta de classes como elemento fundamental; nem ignorar o papel imprescind\u00edvel do Estado como indutor e organizador de projetos transformadores.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mais do mesmo e o fator Boric<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Neste sentido, o processo refundador chileno teria algo a contribuir, agregando novos elementos e perspectivas relativas a temas como desenvolvimento, ecologia, crise clim\u00e1tica, concep\u00e7\u00f5es de progresso, direitos ind\u00edgenas, reprodutivos e dos imigrantes, feminismo, entre outros temas.<\/p>\n\n\n\n<p>O<a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/gabriel-boric-e-as-possibilidades-de-renovacao-das-esquerdas-latino-americanas\/\"> governo Boric<\/a> provavelmente se diferenciar\u00e1 de outras experi\u00eancias regionais, em boa medida reedi\u00e7\u00f5es do ciclo progressista em vers\u00e3o rebaixada. Governos como os de Andr\u00e9s Manuel L\u00f3pez Obrador no M\u00e9xico, Alberto Fern\u00e1ndez na Argentina, e o poss\u00edvel retorno de Luiz In\u00e1cio Lula da Silva no Brasil, apontam para tentativas de retomar projetos j\u00e1 levados ao limite de suas possibilidades de mudan\u00e7as sem ruptura, perdendo capacidade mobilizadora.<\/p>\n\n\n\n<p>Outros governos, como os de Nicol\u00e1s Maduro na Venezuela e de Daniel Ortega na Nicar\u00e1gua, o primeiro sobrevivente da primeira onda rosa, o segundo vindo de etapa rupturista anterior e reencarnado na onda rosa, se apresentam como degenera\u00e7\u00f5es autorit\u00e1rias de si mesmos.<\/p>\n\n\n\n<p>Consideremos o caso brasileiro para refor\u00e7ar este ponto. A esperan\u00e7a por um retorno de Lula n\u00e3o se traduz em expectativas por transforma\u00e7\u00f5es estruturais, mas simplesmente de bloqueio do autoritarismo, viol\u00eancia e desmonte social do governo de extrema-direita de Jair Bolsonaro.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, expectativas rebaixadas em rela\u00e7\u00e3o aos primeiros governos de Lula, que nunca chegou a propor transforma\u00e7\u00f5es estruturais. Se antes se podia esperar por reformas e investimentos sociais, agora a expectativa \u00e9 de que ocorram elei\u00e7\u00f5es, que sejam limpas, que Lula tome posse, consiga governar e concluir seu mandato.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Grandes expectativas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 de Boric se pode esperar mais. Seu governo dever\u00e1 inaugurar uma nova etapa, a ser consolidada pelo sepultamento da Constitui\u00e7\u00e3o pinochetista de 1980. Dever\u00e1 governar em di\u00e1logo com os movimentos sociais, as minorias, a juventude, o feminismo. Reconhecer as lutas dos ind\u00edgenas mapuche do sul do pa\u00eds, tratar humanamente da quest\u00e3o dos imigrantes irregulares, buscar mem\u00f3ria e justi\u00e7a para os crimes da ditadura militar e da repress\u00e3o ao <em>estallido social<\/em>.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Trata-se de um projeto inclusivo, com amplia\u00e7\u00e3o de direitos para as minorias e expans\u00e3o do acesso \u00e0 sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e previd\u00eancia. Um projeto que poderia come\u00e7ar a romper com o liberalismo como \u201cmodo de vida\u201d, estabelecido hegemonicamente na regi\u00e3o para al\u00e9m da presen\u00e7a ou n\u00e3o de \u201cprogressismos\u201d no poder. O Chile \u00e9 exemplar neste sentido. A sociabilidade neoliberal autorit\u00e1ria atravessou os diferentes n\u00edveis da vida social, seguindo seu desenvolvimento que se iniciou no pinochetismo, mesmo com democratiza\u00e7\u00e3o formal e durante os governos da Concerta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o fator decisivo \u00e9 que o novo governo \u00e9 tradu\u00e7\u00e3o institucional de uma revolta popular, complementa o processo constituinte refundador em curso e apoiar\u00e1 a regulamenta\u00e7\u00e3o e institucionaliza\u00e7\u00e3o das mudan\u00e7as que ser\u00e3o inscritas na nova Carta. Representa tamb\u00e9m uma nova gera\u00e7\u00e3o que emerge. Sai a gera\u00e7\u00e3o de \u201c1968\u201d, dos jovens quadros do governo de Salvador Allende, j\u00e1 n\u00e3o t\u00e3o jovens durante a transi\u00e7\u00e3o pactuada e os governos concertacionistas. Entram em cena os meninos da \u201crevolu\u00e7\u00e3o dos pinguins\u201d de 2006 e da revolta estudantil de 2011 e 2012.<\/p>\n\n\n\n<p>O governo de Boric pode se apresentar ent\u00e3o como novidade, em meio a retomadas rebaixadas em contextos deteriorados de projetos de duas d\u00e9cadas atr\u00e1s. N\u00e3o se trata de uma alternativa ao capitalismo. Mas envolve altas expectativas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Projetar uma nova onda cor-de-rosa que se aproxime da anterior sem mais autocr\u00edticas e adapta\u00e7\u00f5es levar\u00e1 a resultados inferiores em compara\u00e7\u00e3o com a primeira, e a uma sobreviv\u00eancia mais curta.<\/p>\n","protected":false},"author":142,"featured_media":9762,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16995,16995,16708,16708,16727,16727,14411,544],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-9765","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-ola-rosada-es-pt-br","9":"category-politica-pt-br","11":"category-izquierda-pt-br","13":"category-esquerda","14":"category-politica-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9765","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/142"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9765"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9765\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9762"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9765"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9765"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9765"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=9765"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}