{"id":9861,"date":"2022-04-18T09:00:00","date_gmt":"2022-04-18T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=9861"},"modified":"2022-04-18T06:22:58","modified_gmt":"2022-04-18T09:22:58","slug":"sempre-fomos-racistas-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/sempre-fomos-racistas-no-brasil\/","title":{"rendered":"Sempre fomos racistas no Brasil"},"content":{"rendered":"\n<p>Recentemente, <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/o-que-2020-ensinou-sobre-racismo-ao-brasil\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">o debate sobre o racismo no Brasil<\/a> foi retomado na imprensa a partir de textos publicados em alguns dos principais jornais do pa\u00eds, como a<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2022\/01\/racismo-de-negros-contra-brancos-ganha-forca-com-identitarismo.shtml\"> Folha de S. Paulo<\/a>. Em 24 de janeiro foi assassinado o<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/cotidiano\/2022\/02\/veja-o-que-se-sabe-sobre-a-morte-do-congoles-moise-kabagambe.shtml\"> refugiado congol\u00eas Mo\u00efse Kabagambe<\/a>, v\u00edtima de agress\u00f5es ap\u00f3s cobrar o pagamento atrasado de dois dias de trabalho em um quiosque na Barra da Tijuca, um dos bairros com praias tur\u00edsticas da cidade do Rio de Janeiro. Apesar disso, espanta que ainda haja d\u00favida sobre o princ\u00edpio racista na funda\u00e7\u00e3o do projeto de na\u00e7\u00e3o brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O racismo como elemento estrutural<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Desde a chegada dos primeiros imigrantes, houve a rela\u00e7\u00e3o entre pol\u00edtica migrat\u00f3ria, etnicidade e racismo, como pontuam Carlos Vainer, Giralda Seyferth, e Jeffrey Lesser, tr\u00eas dos principais estudiosos do tema. J\u00e1 no Imp\u00e9rio,<a href=\"https:\/\/bd.camara.leg.br\/bd\/bitstream\/handle\/bdcamara\/18340\/colleccao_leis_1824_parte3.pdf?sequence=3&amp;isAllowed=y\"> uma decis\u00e3o do governo<\/a> se referia \u00e0 concep\u00e7\u00e3o da col\u00f4nia alem\u00e3 de S\u00e3o Leopoldo pelas vantagens de \u201cse empregar gente branca livre e industriosa, tanto nas artes como na agricultura\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A Rep\u00fablica retoma o objetivo de uma pol\u00edtica de povoamento \u00e0 maneira das primeiras experi\u00eancias de institui\u00e7\u00e3o de col\u00f4nias, e dava passos significativos no sentido de que a abertura do Brasil \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o deveria se dar conciliada a uma pol\u00edtica eugenista. \u00c9 nesse per\u00edodo que decretos, atrav\u00e9s do Servi\u00e7o de Introdu\u00e7\u00e3o e Localiza\u00e7\u00e3o de Imigrantes, s\u00e3o baixados tendo por finalidade regulamentar quais eram os imigrantes desejados, isto \u00e9, os europeus brancos e considerados \u201ccivilizados\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A rela\u00e7\u00e3o entre eugenia, pol\u00edtica de branqueamento e imigra\u00e7\u00e3o, durante a Rep\u00fablica se torna tamb\u00e9m uma quest\u00e3o sobre como pensar e construir um projeto de na\u00e7\u00e3o para o Brasil, e de que tipo de povo far\u00e1 parte desta na\u00e7\u00e3o. De acordo com Carlos Vainer, o Estado brasileiro se atribuiu a tarefa de constitui\u00e7\u00e3o do povo e da nacionalidade, com o objetivo de atender a tr\u00eas ordens de quest\u00f5es: \u201c1- a necessidade econ\u00f4mica, de bra\u00e7os adestrados e disciplinados; 2 \u2013 a necessidade eug\u00eanica, de doses crescentes de sangue branco; 3 \u2013 a necessidade nacional, de constru\u00e7\u00e3o de um povo nacionalmente unificado e integrado sobre padr\u00f5es culturais homog\u00eaneos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o objetivo de se homogeneizar o tecido social brasileiro, a fim de criar um ambiente coeso de nacionalidade, ainda que a partir de um del\u00edrio imagin\u00e1rio, foram se intensificando a\u00e7\u00f5es de Estado que vinham sendo executadas desde a d\u00e9cada de 1920, e que tem no governo de Get\u00falio Vargas, o seu recrudescimento. Al\u00e9m disso, come\u00e7ava a preocupa\u00e7\u00e3o em torno da chamada amea\u00e7a amarela, em refer\u00eancia aos imigrantes asi\u00e1ticos.<\/p>\n\n\n\n<h1 class=\"wp-block-heading\"><strong>Entre atraso mesti\u00e7o e a fantasia de progresso europeizado<\/strong><\/h1>\n\n\n\n<p>Durante a institui\u00e7\u00e3o da campanha de nacionaliza\u00e7\u00e3o pelo Estado Novo (1937-1945), o branco europeu ainda figura como o imigrante desejado. Ainda assim, o chamado \u2018enquistamento\u2019, isto \u00e9, o fechamento comunit\u00e1rio de imigrantes europeus, principalmente de alem\u00e3es, era fator a ser combatido, onde os estudos de Giralda Seyferth trazem importante contribui\u00e7\u00e3o a essa discuss\u00e3o. De alguma forma, portanto, todas as comunidades imigrantes, mesmo as de origem europeia, sofreram press\u00e3o e lidaram com o embrutecimento das pol\u00edticas assimilacionistas praticadas pelo Estado brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, o Estado brasileiro passa a atuar por meio de decretos e leis no processo de sele\u00e7\u00e3o dos imigrantes desejados e na interfer\u00eancia dos costumes das col\u00f4nias ou comunidades existentes, como meio de impedir a forma\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os segregados, e colocando em pr\u00e1tica uma pol\u00edtica de assimila\u00e7\u00e3o for\u00e7ada.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, \u00e9 preciso ressaltar que, embora a vis\u00e3o sobre o imigrante tenha sido marcada pela tens\u00e3o e pelo racismo, o imigrante sempre gozava de melhor status que o brasileiro nativo, ou do brasileiro mesti\u00e7o que carrega as marcas das etnicidades indesejadas: o ind\u00edgena e, sobretudo, o negro. O imigrante supera largamente o nacional do ponto de vista racial e econ\u00f4mico (eugenia e produtividade), pontua Carlos Vainer.<\/p>\n\n\n\n<p>O caso da imigra\u00e7\u00e3o japonesa \u00e9 ilustrativa dessa tens\u00e3o e altern\u00e2ncia de constru\u00e7\u00e3o de significados em torno de uma etnia, ora alternada por profundo racismo, que chegava a se assemelhar ao africano, ora pelo desejo e admira\u00e7\u00e3o por suas qualidades de bom trabalhador: \u201co japon\u00eas foi visto, simultaneamente, como o melhor trabalhador e o mais inassimil\u00e1vel de todos os estrangeiros \u2013 o mais estrangeiro dos estrangeiros\u201d, segundo Vainer.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda, para Jeffrey Lesser, o caso japon\u00eas seria ilustrativo do choque entre a &#8220;raz\u00e3o racial\/nacional e a raz\u00e3o econ\u00f4mica\u201d. Os japoneses, no Brasil, como tamb\u00e9m em outros pa\u00edses do hemisf\u00e9rio, eram vistos como uma \u2018minoria modelo\u2019.<\/p>\n\n\n\n<p>O final do s\u00e9culo XIX e in\u00edcio do s\u00e9culo XX estiveram sob a influ\u00eancia das teorias eug\u00eanicas e naturalistas de melhoramento racial, se l\u00ea a busca pelo \u2018embranquecimento\u2019 da popula\u00e7\u00e3o mesti\u00e7a brasileira, e a ado\u00e7\u00e3o de modelos urbanos e de novos par\u00e2metros econ\u00f4micos.<\/p>\n\n\n\n<p>Tanto Vainer como Seytferth destacam a perman\u00eancia da concep\u00e7\u00e3o eugenista no contexto p\u00f3s 1945 para o projeto de na\u00e7\u00e3o e de constru\u00e7\u00e3o de significados em torno da identidade nacional. Podemos apontar, como tentativa de s\u00edntese, que dois vieses foram constantes a esse projeto: o econ\u00f4mico, que tem como pano de fundo o desejo de transformar o pa\u00eds numa na\u00e7\u00e3o desenvolvida; e, implicado a esse desejo, o segundo vi\u00e9s, a no\u00e7\u00e3o de etnicidade, com o projeto eugenista, de branqueamento do componente \u00e9tnico local.<\/p>\n\n\n\n<p>No plano hist\u00f3rico concreto, essa equa\u00e7\u00e3o social-cultural-\u00e9tnica se traduziu pela institui\u00e7\u00e3o de um projeto modernizador que, teoricamente, deixaria para tr\u00e1s as marcas de uma estrutura rural inadequada \u00e0s aspira\u00e7\u00f5es industriais da nova elite nacional. Em sua g\u00eanese, a nossa elite se fundamenta pela \u201ccultura senhorial\u201d, pela manuten\u00e7\u00e3o do privil\u00e9gio, do consumo de luxo usado como demarcador de fronteiras sociais e de classe e numa polariza\u00e7\u00e3o entre interesses pol\u00edticos regionais.<\/p>\n\n\n\n<p>As pol\u00edticas de moderniza\u00e7\u00e3o consistiram no fim do trabalho escravizado e abertura para atra\u00e7\u00e3o e recebimento de imigrantes europeus destinados a exercer o trabalho assalariado e dar apoio ao processo de mecaniza\u00e7\u00e3o de lavouras. Assim, visava-se promover em dire\u00e7\u00e3o ao progresso: o desenvolvimento econ\u00f4mico e a \u201creformula\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9tnica nacional.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Esse movimento se ratifica e recebe novos enxertos imagin\u00e1rios ao longo do tempo. O quadro atual das migra\u00e7\u00f5es no Brasil revela uma mudan\u00e7a de panorama nos novos fluxos de estrangeiros que aportam ao pa\u00eds, com o incremento da imigra\u00e7\u00e3o latino-americana e africana, com presen\u00e7a tamb\u00e9m significativa de asi\u00e1ticos, com destaque para os chineses, sobretudo.<\/p>\n\n\n\n<p>Este novo quadro renova as quest\u00f5es a respeito da migra\u00e7\u00e3o no pa\u00eds e imp\u00f5e novos olhares, todavia, mant\u00e9m a etnicidade como quest\u00e3o latente, uma vez que recebemos atualmente um contingente de pessoas cuja visibilidade e interesse precisam ser constantemente negociadas. Nesse sentido, lembramos que a luta pela etnicidade \u00e9 revelador de um passado racista em profunda sintonia com o discurso eug\u00eanico euroc\u00eantrico e que nos faria cegos a uma multiplicidade de minorias ativas e criativas no territ\u00f3rio local, tanto no passado como no presente.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Recordamos que a luta pela etnicidade revela um passado racista que est\u00e1 profundamente em sintonia com o discurso eug\u00eanico euroc\u00eantrico e que nos cega a uma multiplicidade de minorias.<\/p>\n","protected":false},"author":208,"featured_media":9859,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16786,16728,546],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-9861","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-racismo-pt-br","8":"category-brasil-pt-br","9":"category-sociedad-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9861","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/208"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9861"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9861\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9859"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9861"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9861"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9861"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=9861"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}