{"id":997,"date":"2019-09-12T19:09:47","date_gmt":"2019-09-12T22:09:47","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=997"},"modified":"2023-04-16T14:59:41","modified_gmt":"2023-04-16T17:59:41","slug":"quem-fala-pela-natureza-sobre-incendios-amazonicos-e-populistas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/quem-fala-pela-natureza-sobre-incendios-amazonicos-e-populistas\/","title":{"rendered":"E a natureza? Sobre inc\u00eandios e populistas"},"content":{"rendered":"\n<pre id=\"tw-target-text\" class=\"wp-block-preformatted\"><\/pre>\n\n\n\n<p>O aumento dos inc\u00eandios na Amaz\u00f4nia brasileira, patrim\u00f4nio\nda humanidade, mostra duas formas perigosas de aquecimento: a do fogo na selva\ne a do populismo autorit\u00e1rio. A comunidade internacional deve pressionar para\nque ambas cessem, e de forma r\u00e1pida. Nossos filhos dependem disso.<\/p>\n\n\n\n<p>Com rela\u00e7\u00e3o aos inc\u00eandios, que cresceram em 75% este ano no\nBrasil, em compara\u00e7\u00e3o com anos anteriores, escrevi um livro com Karleen West,\n&#8220;Quem Fala pela Natureza?&#8221; (Oxford University Press, 2019); existe um\ndocument\u00e1rio em espanhol sobre o livro, dirigido por Larry Engel, ganhador do\npr\u00eamio Emmy. Nele mostramos, atrav\u00e9s da an\u00e1lise de uma pesquisa nacional no\nEquador encomendada pelo Cedatos (Centro de Estudios y Datos), que nos lugares\nem que o meio ambiente j\u00e1 est\u00e1 destru\u00eddo, as pessoas deixam de se preocupar com\nele.<\/p>\n\n\n\n<p>Conduzimos um levantamento com uma amostra de cidad\u00e3os, com\npresen\u00e7a refor\u00e7ada de comunidades ind\u00edgenas na regi\u00e3o amaz\u00f4nica do norte do\nEquador (onde a floresta continua a mostrar danos causados pelos derramamentos\nde petr\u00f3leo da Chevron-Texaco na d\u00e9cada de 1990) e na regi\u00e3o amaz\u00f4nica sul\n(onde em geral a floresta n\u00e3o foi danificada).<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto na regi\u00e3o sul as pessoas se preocupam muito com a\nintegridade da floresta, manifestando entusiasmo pelo conceito global e\nabstrato de &#8220;cuidar do meio ambiente&#8221;, na regi\u00e3o norte elas j\u00e1 n\u00e3o se\npreocupam tanto com esse conceito. L\u00e1, a preocupa\u00e7\u00e3o era com temas que resultam\nda degenera\u00e7\u00e3o ambiental, como o desemprego, migra\u00e7\u00e3o (para as cidades) e sa\u00fade\np\u00fablica, entre outros.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira li\u00e7\u00e3o do livro \u00e9 que temos que mobilizar a todos\npara proteger a floresta antes que a deteriora\u00e7\u00e3o continue. No Equador, no\nBrasil, ou seja l\u00e1 onde for. Ainda que se preocupar com a conserva\u00e7\u00e3o ambiental\npossa se tornar algo mais complicado e, portanto, exista o risco de abandon\u00e1-la\ncomo conceito. E h\u00e1 uma segunda li\u00e7\u00e3o: o populismo realmente n\u00e3o funciona.<\/p>\n\n\n\n<p>No Equador, estudamos as pol\u00edticas do ex-presidente Rafael Correa, que, apesar de seus defeitos, parece ter sido mais democr\u00e1tico do que <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/o-perigo-dos-outsiders\/\">Jair Bolsonaro<\/a>. Este \u00e9 canhestramente populista, apoia os mais baixos padr\u00f5es da humanidade e seus \u00fanicos rivais hemisf\u00e9ricos na &#8220;corrida ao fundo do po\u00e7o&#8221; talvez sejam Nicol\u00e1s Maduro e Donald Trump.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso equatoriano, vimos que as pol\u00edticas populistas de entregar projetos e empregos em troca da destrui\u00e7\u00e3o da floresta influ\u00edram menos sobre os cidad\u00e3os mais vulner\u00e1veis \u00e0 mudan\u00e7a do clima (os que viviam na <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/natureza\/noticia\/2019\/08\/23\/nasa-diz-que-2019-e-o-pior-ano-de-queimadas-na-amazonia-brasileira-desde-2010.ghtml\">Amaz\u00f4nia<\/a>). Eles, e sobretudo as comunidades ind\u00edgenas amaz\u00f4nicas, lutaram contra a destrui\u00e7\u00e3o da selva e se empenharam na solu\u00e7\u00e3o do problema da mudan\u00e7a do clima.<\/p>\n\n\n\n<p>Parece que o desafio, para os leitores do hemisf\u00e9rio em\ngeral, \u00e9 aprender a pensar como se vivessem na primeira fila \u2014 ou na\n&#8220;linha de fogo&#8221; \u2014 da vulnerabilidade \u00e0 mudan\u00e7a do clima. Hoje somos\ntodos brasileiros e temos que pressionar o governo ignorante do Brasil. Como\ntentou o presidente Emmanuel Macron na reuni\u00e3o do Grupo dos 7 na Europa. Mas\ncom ainda mais urg\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>O argumento de Bolsonaro sobre as viola\u00e7\u00f5es da soberania de\nseu pa\u00eds \u00e9 uma fal\u00e1cia. A Am\u00e9rica Latina conhece viola\u00e7\u00f5es desse tipo desde a\n\u00e9poca colonial (que de certa maneira Trump busca reviver agora com seu\ntratamento aos migrantes latinos nos Estados Unidos), mas no momento esse\nargumento da soberania precisa ser suplantado por um argumento humanit\u00e1rio e em\nfavor da natureza.<\/p>\n\n\n\n<p>A natureza precisa de quem fale por ela. Temos que insistir\npara que a boa vontade de outros presidentes, os presidentes &#8220;verdes&#8221;\nde outros pa\u00edses amaz\u00f4nicos \u2014 e de qualquer pa\u00eds que enfrente uma crise\nambiental \u2014 seja a predominante. \u00c9 preciso isolar presidentes como Bolsonaro,\nfazendo press\u00e3o internacional e interna sem suborn\u00e1-los com ofertas de dinheiro\nou fazer amea\u00e7as que n\u00e3o ser\u00e3o cumpridas.<\/p>\n\n\n\n<p>O Conselho de Seguran\u00e7a das Na\u00e7\u00f5es Unidas precisa obter\nconsenso (infelizmente com a unanimidade de seus cinco membros permanentes)\npara poder declarar emerg\u00eancias de seguran\u00e7a ambiental. A institui\u00e7\u00e3o talvez\nseja a \u00fanica com legitimidade para cumprir o objetivo de enviar pessoal para\nproteger \u00e1reas naturais que s\u00e3o patrim\u00f4nio da humanidade quando elas est\u00e3o em\nalerta vermelho, como a Amaz\u00f4nia atual.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 certo que o hist\u00f3rico da ONU em sua atua\u00e7\u00e3o em favor da\nhumanidade \u00e9 contradit\u00f3rio. \u00c9 uma organiza\u00e7\u00e3o repleta de esc\u00e2ndalos de\ncorrup\u00e7\u00e3o, que sofre de falta de lideran\u00e7a e de uma inefic\u00e1cia not\u00f3ria. Mas em\nmomentos como este n\u00e3o podemos deixar o futuro de um patrim\u00f4nio t\u00e3o importante\nquanto a Amaz\u00f4nia nas m\u00e3os de um populista autorit\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 que projetemos uma institui\u00e7\u00e3o melhor, o Conselho de\nSeguran\u00e7a da ONU \u00e9 a melhor op\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, contando com o apoio forte da\nFran\u00e7a e do Reino Unido, ter\u00edamos de eleger um presidente democrata nos Estados\nUnidos e esperar que a situa\u00e7\u00e3o se torne suficientemente cr\u00edtica para\nconquistar o apoio daqueles que negaram poder \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o no passado, como a\nChina e a R\u00fassia.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas \u00e9 preciso trabalhar agora a fim de criar condi\u00e7\u00f5es para que algu\u00e9m fale pela natureza, com a voz democr\u00e1tica e unida da humanidade. No momento, a ONU \u00e9 nossa maior esperan\u00e7a para evitar a ru\u00edna da Amaz\u00f4nia e a apatia e desesperan\u00e7a que isso acarreta.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Foto de Ana_Cotta em Trend hype \/ CC BY<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O aumento dos inc\u00eandios na Amaz\u00f4nia brasileira, patrim\u00f4nio da humanidade, mostra duas formas perigosas de aquecimento: a do fogo na selva e a do populismo autorit\u00e1rio. 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