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Cobrança de proteção no México: uma extorsão em avanço imparável

A extorsão criminosa se infiltra em escolas, templos e espaços esportivos diante da incapacidade do Estado de garantir a segurança e conter sua expansão.

Em 25 de janeiro, um campo de futebol em Salamanca, Guanajuato, foi palco do último massacre que abalou o México. O saldo foi de onze pessoas mortas e uma dezena de feridos. As autoridades atribuíram o ataque a uma célula do Cartel de Santa Rosa de Lima, e o motivo teria uma conexão com a cobrança de proteção associada à prática do futebol. Comumente se considera que esse tipo de crime afeta principalmente empresas e comerciantes; no entanto, sua expansão se estendeu a áreas não convencionais. De que maneira esse crime se manifestou em áreas como religião, educação e recreação?

Ao longo dos anos, os grupos do crime organizado diversificaram suas atividades ilícitas, sendo a cobrança de proteção uma das modalidades que mais lhes rendeu lucros. Mediante ameaças, intimidação ou, em alguns casos, uso direto da violência, eles exigem pagamentos periódicos de pessoas ou empresas, tanto formais quanto informais — diários, semanais ou mensais — em troca de permitir que vendam seus produtos ou continuem com suas atividades. Isso implica o controle territorial de uma determinada área.

Esse crime afeta tanto uma empresa transnacional quanto uma pequena barraca de tacos. O medo de que o negócio seja danificado ou destruído, ou mesmo de serem assassinados, leva trabalhadores e proprietários a concordarem em pagar as quantias exigidas. Em alguns casos, os valores exigidos são impagáveis, forçando-os a fechar as portas. Em outros, apesar das ameaças, optam por resistir e continuar operando.

O Instituto Nacional de Estatística e Geografia (INEGI), através da Pesquisa Nacional de Vitimização Empresarial (ENVE) de 2024, indica que 747 mil crimes de extorsão foram cometidos no México em 2023, dos quais 113 mil corresponderam a extorsão em locais públicos, em estabelecimentos comerciais ou à cobrança de propina. Enquanto em 2011, 44,7% das vítimas cederam às exigências dos criminosos, em 2023 esse número subiu para 67%. Essa tendência de alta reflete uma modalidade cada vez mais exitosa para os criminosos, já que a maioria das vítimas cede às suas exigências.

Ademais, o INEGI indica que mais de 90% dos crimes cometidos contra empresas não foram formalmente denunciados. Entre as causas da falta de denúncias, a agência destaca que cerca de 60% são atribuíveis a fatores internos às autoridades, incluindo o medo de extorsão, a desconfiança institucional e experiências negativas anteriores.

Na ausência de dados oficiais que quantifiquem com precisão as perdas decorrentes da extorsão como percentual da receita empresarial, algumas estimativas, como a divulgada em 2024 pelo presidente da Aliança Nacional de Pequenas Empresas (ANPEC), indicam que ela representa entre 10% e 20% da receita desse tipo de negócio (Senado da República, 2024). Por sua vez, a Confederação Patronal Mexicana (Coparmex) indicou em 2025 que o crime de extorsão, que engloba a extorsão em si, representa perdas econômicas superiores a um bilhão de dólares.

Tem sido amplamente documentado o impacto da extorsão em empresas e produtores de diversos setores. Nos últimos anos, porém, surgiu uma tendência em que atividades antes fora do alcance do crime organizado passaram a ser afetadas por essa prática.

Em 2022, o Arcebispo de Guadalajara, Cardeal Francisco Robles, afirmou que, em regiões do norte de Jalisco, era necessário obter autorização do líder local responsável pelas atividades ilícitas de um cartel para realizar festas de padroeiros e que, mesmo assim, deveria entregar até 50% do arrecadado durante as festividades. Da mesma forma, em 2024, o presidente da Rede Evangélica de Veracruz, Guillermo Trujillo, afirmou que diversas igrejas no estado haviam fechado devido a extorsões, equivalentes a aproximadamente US$580 a US$1.160 por mês, de acordo com a cotação da época.

Na esfera educacional, esse setor também não escapou desse crime. Há relatos de extorsão contra professores em escolas em distintas regiões do México; o jornal El Universal documentou o fato em julho de 2024 ao destacar que, durante a presidência de Andrés Manuel López Obrador, doze investigações foram abertas por esse crime. Um caso que exemplifica essa situação é o da escola primária Lázaro Cárdenas, em Michoacán, onde, em abril de 2025, pais relataram extorsão contra professores, afirmando que os criminosos chegaram a usar alunos como intermediários para entregar pastas contendo ameaças dirigidas à equipe escolar.

Da mesma forma, atividades recreativas, como esportes, também foram afetadas, sendo o massacre ocorrido em Guanajuato o exemplo mais trágico. Os eventos que antecederam esse trágico incidente foram ameaças feitas pelo crime organizado contra ligas amadoras de futebol locais, o que levou várias ligas a suspenderem suas partidas dias antes do ataque. Diversas fontes jornalísticas relataram que organizações e dirigentes das ligas receberam exigências de extorsão, equivalentes a aproximadamente US$2.900 por mês, como condição para a realização dos jogos.

Diante da ausência de proteção policial, algumas ligas optaram por contratar segurança privada; no entanto, diversas mídias,  como o El País, indicaram que, segundo as autoridades federais, o ataque em Salamanca foi resultado de uma disputa entre o Cartel de Santa Rosa de Lima (CSRL) e o Cartel Jalisco Nova Geração (CJNG), já que cinco das vítimas, membros da força de segurança privada, supostamente tinham ligações com este último grupo. De acordo com esses relatos, membros do CSRL chegaram aos campos de futebol e abriram fogo indiscriminadamente contra jogadores e espectadores.

Em suma, a extorsão em novos negócios continua aumentando. A situação é complexa, já que o Estado mexicano está falhando em sua função primordial de garantir a segurança pública. Isso se explica, em parte, pela conivência de atores políticos, em diferentes níveis do governo, e de agentes estatais que cooperam com grupos do crime organizado ou decidem não agir. Essa situação permitiu que essas organizações exercessem um controle de fato sobre várias regiões do país.

Não se vislumbra um cenário animador diante de uma realidade que ultrapassa os mexicanos. A estratégia de segurança do governo de Claudia Sheinbaum, até o momento, apresenta limitações, enquanto parte da população se sente cada vez mais encurralada pelas redes criminosas. Diante da cobrança de proteção, parecem existir duas vias reais: ceder às demandas ou recusar-se e enfrentar as consequências. Nenhuma das duas deveria ser uma opção. O massacre ocorrido em Salamanca pode ser interpretado como uma expressão extrema desse contexto, no qual, diante da ausência de proteção estatal, recorreu-se à contratação de segurança privada. No entanto, o desfecho evidencia que o crime organizado age de acordo com seus próprios interesses e que, para alcançá-los, a vida do outro não constitui um obstáculo.

Tradução automática revisada por Isabel Lima

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Professor de Relações Internacionais na Universidade do Vale do México. Doutorando em Ciência Política pela Universidade de Guadalajara e Mestre em Assuntos Políticos e Políticas Públicas pelo Colégio de San Luis.

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