A Mobilização Progressista Global realizada em Barcelona merece uma análise mais aprofundada do que aquela que recebeu. O que parecia mais um encontro de líderes afins em um cenário europeu foi, na verdade, algo estruturalmente mais significativo: uma tentativa de reconstruir uma arquitetura ideológica compartilhada para a política externa progressista latino-americana em um momento em que o multilateralismo se desintegra. Uma crise que ficou evidente com a escassa participação da OEA e da CELAC nas diversas crises que afetam a região. Nesse contexto, a reunião de Barcelona não foi uma coincidência de agendas. Foi uma declaração política.
Os temas tratados também não foram casuais. A presidente mexicana Claudia Sheinbaum defendeu uma maior aproximação com Cuba. O presidente brasileiro Lula fez uma crítica aberta à política externa de Washington durante o segundo mandato de Trump. E o presidente colombiano Gustavo Petro articulou seus esforços de mediação na Venezuela, enquadrando-os explicitamente como uma alternativa regional a uma maior escalada militar. Lidos isoladamente, esses são três cálculos políticos distintos provenientes de três contextos nacionais diferentes. Em conjunto, eles formam uma postura estratégica quase coerente: a reafirmação do multilateralismo progressista como contrapeso à consolidação do alinhamento conservador com Washington.
A ressonância histórica é inegável. A Maré Rosa da década de 2000 demonstrou que, quando havia uma coexistência de líderes progressistas sul-americanos, suas políticas externas convergiam em torno de uma diversificação proativa das relações diplomáticas, econômicas e políticas em todo o Sul Global. Tratava-se de uma estratégia destinada a reduzir a dependência estrutural da pressão hegemônica ocidental. A coexistência de Néstor Kirchner, Lula e Hugo Chávez não foi uma mera coincidência ideológica. Foi uma condição estrutural para o tipo de ativismo na política externa Sul-Sul que levou à rejeição da Área de Livre Comércio das Américas na Cúpula de Mar del Plata de 2005.
O encontro atual em Barcelona sugere que os atuais líderes progressistas da região compreendem essa lição e estão tentando aplicá-la em circunstâncias qualitativamente diferentes e, em vários aspectos, mais complexas.
Essas circunstâncias são de suma importância. O panorama multipolar da década de 2020 não é o mesmo da década de 2000, como reconheceu o principal assessor diplomático do Brasil, Celso Amorim. O segundo governo Trump está agindo com muito mais força coercitiva na América Latina do que o primeiro, como demonstra a intervenção militar na Venezuela em janeiro de 2026, que violou princípios fundamentais do direito internacional. Enquanto a Maré Rosa pôde aproveitar um período de relativa distração dos Estados Unidos em relação ao Oriente Médio durante a Guerra contra o Terrorismo, os atuais governos progressistas enfrentam um governo que reafirmou explicitamente a Doutrina Monroe como política externa operacional. A margem de manobra política autônoma não desapareceu, mas foi substancialmente reduzida. Os governos progressistas da região não se encontram mais diante de um momento de distração dos Estados Unidos; enfrentam um momento de reafirmação ativa por parte dos Estados Unidos.
O calendário eleitoral acrescenta maior urgência a essa forma de multilateralismo ideologicamente seletivo, que parece ser a nova normalidade para a direita e os espectros da esquerda na política latino-americana.
As próximas eleições na Colômbia, a polarizada disputa presidencial brasileira de 2026 e o panorama em mudança na Argentina, com a popularidade de Milei em queda drástica, mas sem um candidato peronista anunciado, determinarão se Barcelona representa um realinhamento duradouro das forças progressistas ou um momento de solidariedade simbólica sem expressão institucional duradoura. A Mobilização Progressista Global poderia impulsionar o apoio a candidatos progressistas em toda a América Latina. A presença de Axel Kicillof e Luisa González em Barcelona, representantes das forças progressistas na Argentina e no Equador, e possíveis candidatos à presidência de seus respectivos países, poderia indicar a existência desse projeto.
Os líderes reunidos em Barcelona tentam normalizar o multilateralismo ideologicamente seletivo — a coordenação entre governos progressistas diante da consolidação conservadora hemisférica — como uma característica padrão da política externa latino-americana, em vez de uma resposta conjuntural excepcional. Ao fazer isso, eles respondem ao Escudo das Américas e ao alinhamento das forças conservadoras com o governo Trump, que representa uma visão do futuro da América Latina.
Barcelona representa um caso diferente, no qual os líderes progressistas se reúnem com representantes do Sul Global ideologicamente alinhados e com um interesse considerável na América Latina, como expressou o presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa. Além disso, líderes como Boric, Lula, Sheinbaum e Orsi têm forjado relações ideologicamente alinhadas com parceiros europeus, principalmente com o presidente do Governo espanhol, Pedro Sánchez, sustentadas em componentes materiais da política externa.
Por exemplo, o Brasil assinou um número recorde de acordos bilaterais com a Espanha, que abrangem desde matérias-primas essenciais até a cooperação na luta contra o racismo. A ideologia progressista, com conotações populistas, representa um ponto de partida para a construção de relações exteriores diversificadas. Esse é o melhor resultado possível para as políticas exteriores latino-americanas, que ainda precisam afirmar sua autonomia em um mundo multipolar. Como demonstram os laços de Milei com Israel, que não produziram nenhum resultado tangível, a ideologia por si só não beneficia a política externa se não for acompanhada de uma agenda real de diversificação política e econômica.
Barcelona demonstrou que a ideologia progressista pode servir como catalisadora para a autonomia e a diversificação da política externa, mas a ideologia por si só é insuficiente. O precedente da Marea Rosa demonstra que o impulso Sul-Sul requer consolidação institucional para sobreviver aos ciclos eleitorais e às mudanças turbulentas próprias da política latino-americana.
Os atuais líderes progressistas enfrentam um Washington mais coercitivo do que seus antecessores, o que eleva consideravelmente a importância das próximas eleições na Colômbia, no Brasil e na Argentina. Os acordos concretos assinados com a Espanha e a aproximação com atores do Sul Global, como a África do Sul, demonstram que a Conferência de Barcelona não foi meramente retórica. Que isso se traduza em políticas externas autônomas e duradouras dependerá de os líderes progressistas conseguirem converter o alinhamento ideológico em uma arquitetura diplomática e econômica sólida.
Tradução automática revisada por Isabel Lima










