Uma região, todas as vozes

L21

|

|

Leer en

Financiar a transição climática: uma agenda impostergável de redistribuição global

A transição climática exige uma profunda redistribuição global da riqueza para colmatar lacunas históricas e financiar um futuro sustentável.

A crise climática não é só um problema ambiental: é, sobretudo, um problema político e econômico. Enfrentá-la exige redefinir como se produz, se consome e, acima de tudo, como se financia o desenvolvimento em escala global. A discussão sobre o financiamento climático não pode se reduzir a instrumentos técnicos ou promessas voluntárias de investimento “verde”; deve se inscrever em uma agenda mais ampla de redistribuição de riqueza, capaz de corrigir desigualdades históricas e assumir que quem mais contribuiu à deterioração ambiental é também quem concentra a maior capacidade econômica para revertê-la.

Nos últimos anos, o debate internacional reconheceu, ao menos no plano discursivo, que a transição para economias de baixo carbono requer volumes de financiamento sem precedentes. No entanto, a lacuna entre o necessário e o efetivamente mobilizado segue sendo abismal, especialmente para os países do Sul Global, que enfrentam os impactos mais severos das mudanças climáticas com menos recursos fiscais, altos níveis de endividamento e pouca margem de manobra política. A questão central não é mais se é necessário mais financiamento, mas quem paga, como paga e com quais critérios de justiça.

A crise climática como um risco sistêmico

O pensamento dominante entre as elites econômicas globais, expresso anualmente em fóruns como Davos, reconhece cada vez mais a crise climática como um risco sistêmico de longo prazo. As pesquisas de riscos globais do Fórum Econômico Mundial mostram que, além das preocupações conjunturais com conflitos geopolíticos ou tensões financeiras, eventos climáticos extremos, perda de biodiversidade e colapso de ecossistemas ocupam os primeiros lugares quando se projeta o futuro para os próximos dez anos. Essa percepção, no entanto, não se traduz em transformações estruturais do sistema econômico que essas mesmas elites defendem e reproduzem.

O problema é que os riscos não são distribuídos de maneira equitativa, nem em suas causas nem em suas consequências. O padrão de consumo dos setores mais ricos concentra uma porção desproporcional das emissões de gases de efeito estufa, enquanto os custos das mudanças climáticas recaem de forma esmagadora sobre populações empobrecidas, comunidades rurais, povos indígenas e países periféricos. Uma desigualdade alimenta a outra: a concentração de riqueza aprofunda a crise ambiental, e a crise ambiental reforça as brechas sociais existentes.

Os dados são eloquentes. Relatórios recentes da OXFAM, publicados em coincidência com as reuniões de Davos, mostram que os 1% mais ricos do planeta geraram nos primeiros 10 dias de 2026 as emissões de 𝐶𝑂2 que lhes caberiam para todo o ano e acumulam 63% da riqueza mundial gerada desde 2020, enquanto uma em cada quatro pessoas no mundo sofre de insegurança alimentar e quase metade da população global vive em condições de pobreza. O patrimônio acumulado pelos multimilionários atinge valores que superam amplamente os recursos necessários para financiar a transição energética, a adaptação climática e a proteção da biodiversidade. Não se trata de escassez, mas de uma distribuição profundamente desigual dos recursos disponíveis.

Essa concentração extrema de riqueza não tem só efeitos distributivos, mas também políticos. O poder econômico se traduz em influência sobre os processos de tomada de decisão, em captura regulatória e no bloqueio sistemático de reformas que afetariam interesses corporativos, em particular aqueles ligados às indústrias extrativas e aos combustíveis fósseis. Não é por acaso que o negacionismo climático e o atraso na transição energética encontram aliados tanto em setores da extrema direita quanto em atores econômicos que buscam preservar rendas extraordinárias.

A necessidade da redistribuição

Nesse contexto, falar de financiamento climático sem discutir redistribuição é insuficiente. Os atuais esquemas de austeridade fiscal, promovidos como dogma por organismos financeiros internacionais e adotados por numerosos governos, restringem o investimento público justamente quando ele é mais necessário. Ao mesmo tempo, os impostos progressivos são substituídos por um maior endividamento, transferindo os custos para o futuro e consolidando uma visão financeira que ignora os limites ecológicos e as demandas sociais.

O modelo extrativista vigente agrava essas tensões. A expansão da mineração, dos hidrocarbonetos e das monoculturas, apresentada como via rápida para obter divisas, aprofunda conflitos territoriais, desloca populações, degrada ecossistemas e criminaliza o protesto social. Poucos setores contribuíram tanto para as crises gêmeas das mudanças climáticas e da desigualdade global quanto as indústrias extrativas, que além disso costumam se beneficiar de generosos subsídios estatais e marcos regulatórios frouxos.

Diante desse cenário, a justiça climática parece inseparável da justiça econômica. Financiar a transição implica redefinir quem se apropria dos recursos naturais, quem assume os custos ambientais e quem se beneficia do crescimento. Nesse sentido, é relevante o recente relatório das Nações Unidas sobre o estado do financiamento para a natureza, que alerta para o viés estrutural do sistema financeiro global em direção a atividades que prejudicam o meio ambiente. A magnitude dos fluxos destinados a subsídios fósseis e investimentos nocivos contrasta com a escassez de recursos direcionados a projetos produtivos em harmonia com a natureza.

Redirecionar subsídios para a transição energética

Transformar esse esquema não é fácil, mas também não é impossível. Redirecionar os subsídios que hoje beneficiam a indústria petrolífera para a transição energética permitiria liberar recursos significativos. Esse processo deve ser gradual e socialmente justo, evitando impactos regressivos nos preços da energia que, como mostraram as experiências da França ou do Equador, podem desencadear fortes resistências sociais. Mas a dificuldade política não pode ser desculpa para a inação.

A mudança no financiamento também requer reformas regulatórias profundas. As autoridades monetárias e financeiras devem incorporar critérios climáticos em suas decisões, alinhando o sistema financeiro com os objetivos de sustentabilidade. Alguns países da região começaram a se mover nessa direção: bancos centrais como os do Brasil, Colômbia, Chile e Uruguai introduziram diretrizes verdes, e o mercado de capitais brasileiro desenvolveu regulamentações que exigem maior transparência em relação aos riscos climáticos. Essas iniciativas, ainda em estágios iniciais, reconhecem que a mudança climática não é um problema externo para a economia, mas sim um fator central na estabilidade financeira.

Nem todos os governos compartilham dessa visão. Na Argentina, por exemplo, o governo atual nega a existência do problema climático, minimiza a perda de biodiversidade e descarta a desigualdade como uma questão política. O aprofundamento de um modelo extrativista voltado para poucos setores, combinado com uma obsessão pela estabilidade cambial a qualquer custo, cria uma economia de enclave que corrói o tecido produtivo e social. A ausência de uma agenda ambiental e social não só põe em risco o presente, como também hipoteca o futuro.

Em suma, financiar a luta contra a crise climática exige muito mais do que fundos verdes ou títulos sustentáveis. Exige uma reconfiguração do contrato econômico global, baseada na redistribuição de riqueza, na responsabilidade diferenciada e na democratização das decisões econômicas. Sem justiça tributária, tributação progressiva, regulação de capital e uma redução drástica da desigualdade, a transição climática permanecerá uma promessa vazia. O desafio é político: decidir se o financiamento deve ser direcionado para a manutenção de privilégios ou para a garantia de um futuro habitável para a maioria.

Tradução automática revisada por Isabel Lima

Autor

Otros artículos del autor

Pesquisador Associado do Centro de Estudos do Estado e da Sociedade -CEDES (Buenos Aires). Autor de "Latin America Global Insertion, Energy Transition, and Sustainable Development", Cambridge University Press, 2020.

spot_img

Postagens relacionadas

Você quer colaborar com L21?

Acreditamos no livre fluxo de informações

Republicar nossos artigos gratuitamente, impressos ou digitalmente, sob a licença Creative Commons.

Marcado em:

COMPARTILHE
ESTE ARTIGO

Mais artigos relacionados