A recente informação sobre a suposta presença de mercenários colombianos no conflito sudanês, vinculados a operações privadas contratadas pelos Emirados Árabes Unidos (EAU), é muito mais do que um incidente isolado. A participação de ex-militares colombianos em cenários bélicos externos não é nova, mas, no caso do Sudão, revela a interação de múltiplas dinâmicas, como a privatização da guerra, a projeção de poder de potências globais e regionais e uma abordagem cada vez mais fragmentada da segurança internacional.
Hoje, o Sudão é palco de uma guerra interna de enorme complexidade, onde as Forças Armadas Sudanesas (SAF) e as Forças de Apoio Rápido (RSF) disputam o controle político, econômico e territorial do país. O conflito não é só interno, mas é alimentado por redes de alianças regionais que convertem o território sudanês em um espaço de competição estratégica. Os Emirados Árabes Unidos foram acusados de apoiar materialmente as RSF, enquanto há evidências de apoio egípcio às SAF. Esse alinhamento não responde só a afinidades políticas, mas à localização estratégica do Sudão como porta para o Mar Vermelho e ligação com o Sahel e o Chifre da África.
Nesse contexto, a contratação de mercenários – e outros atores relacionados ao mercenarismo – não é um acidente, mas um componente calculado. A experiência de ex-militares colombianos em operações de contra-insurgência, adquirida durante décadas de conflito interno, os tornou um recurso apreciado no mercado global de segurança privada. Seu perfil combina disciplina, resistência física, conhecimento tático e disposição para assumir riscos por remunerações significativamente maiores do que as que obteriam em trabalhos de segurança civil. A demanda por esse tipo de pessoal cresceu em conflitos em que os Estados patrocinadores buscam manter distância formal das operações diretas, evitando implicações legais ou diplomáticas.
O caso sudanês também se enquadra na tendência crescente de terceirização da guerra. As empresas militares privadas, assim como os contratados individuais, operam em uma zona cinzenta entre o legal e o clandestino, executando missões que podem ir desde a proteção de instalações estratégicas até o combate ativo. Em cenários como o sudanês, onde as linhas de frente são voláteis, o valor tático de tropas com treinamento sólido e experiência em combate irregular pode gerar inclinações pequenas, mas decisivas, no equilíbrio de poder.
Para a Colômbia, essa presença levanta questões sobre as consequências indiretas de “exportar” capital humano militar. A participação de ex-combatentes em conflitos externos não é só um fenômeno econômico, mas também geopolítico, que implica a inserção de cidadãos em ações que podem envolver violações dos direitos humanos ou infringir sanções internacionais; ou mesmo torná-los vítimas de tráfico de pessoas ou submergi-los em dinâmicas de exploração laboral. E embora essas ações sejam desenvolvidas sob contratos privados, a nacionalidade dos envolvidos não passa despercebida pelos atores estatais e pela comunidade internacional.
No Sudão, a participação de mercenários estrangeiros amplifica as dinâmicas de internacionalização do conflito. Não se trata só de potências como os Emirados Árabes Unidos, a Arábia Saudita ou o Egito jogarem suas cartas; mas o envio de pessoal, não só colombiano, mas também latino-americano, africano ou europeu em tarefas de combate, evidencia que as guerras contemporâneas são sustentadas por recursos humanos globalizados. Esse padrão replica o que ocorreu no Iêmen, Afeganistão, Iraque ou Líbia, onde forças locais e combatentes externos coexistem em um mosaico complexo de alianças e rivalidades.
A importância dos supostos mercenários colombianos no Sudão reside, portanto, em seu papel como multiplicadores de força. Em conflitos de baixa intensidade, mas alta fragmentação, uma unidade pequena e bem treinada pode trazer vantagens táticas desproporcionais. Seu conhecimento em guerra irregular, patrulhamento e operações ofensivas os torna peças úteis para atores que buscam rapidez e eficácia sem o custo político de enviar tropas regulares.
Geopoliticamente, esse fenômeno reflete um paradoxo da ordem internacional atual. Enquanto os fóruns multilaterais promovem a resolução pacífica de controvérsias, a guerra se descentraliza para redes privadas, muitas vezes alimentadas por economias emergentes exportadoras de força militar. Nesse esquema, a Colômbia se posiciona involuntariamente como fornecedora de um recurso estratégico — combatentes experientes a um custo relativamente baixo — que acaba sendo instrumentalizado em conflitos nos quais o país não tem interesses diretos.
O risco desse fenômeno é duplo. Por um lado, coloca os ex-militares colombianos no centro de conflitos com potencial de escalada regional, como o do Sudão, que envolve interesses dos Estados Unidos, da Europa, do Golfo Pérsico e até da África Subsaariana. Por outro lado, alimenta uma economia paralela de guerra que opera à margem dos marcos regulatórios internacionais. A questão, então, não é quem contrata esses efetivos, mas quais são as implicações para a projeção internacional da Colômbia de que seus cidadãos participem, de forma sistemática, em guerras externas.
Em um mundo onde a fronteira entre combatente e contratado privado se dilui, o Sudão se torna um espelho incômodo que mostra como os conflitos modernos não são apenas intra ou interestaduais, mas também incluem redes globalizadas onde capital humano, tecnologia e geopolítica se entrelaçam. Os supostos mercenários colombianos não são uma anomalia nesse esquema, mas mais uma engrenagem de uma máquina de guerra que já não reconhece fronteiras.
Tradução automática revisada por Isabel Lima