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Quando o poder se fragmenta: violência, Estado e os limites da estratégia

A violência que se seguiu aos recentes acontecimentos em Jalisco não diz respeito apenas a uma organização criminosa, mas também à capacidade — e aos limites — do Estado para administrar os vácuos de poder.

As imagens de veículos incendiados, bloqueios de estradas e motins em prisões que se seguiram à morte de Nemesio Oseguera Cervantes em Jalisco não podem ser vistos como episódios isolados ou meras reações emocionais de uma organização criminosa ferida. Tampouco são uma anomalia inesperada. Fazem parte de um padrão conhecido em contextos onde o uso da força estatal altera equilíbrios ilícitos sem que exista, ao mesmo tempo, uma capacidade suficiente para administrar as consequências. O número de ao menos 26 mortes, relatado por La Jornada, é um lembrete contundente de que a violência organizada raramente desaparece com a eliminação de um único ator.

O Cartel Jalisco Nova Geração não é uma estrutura improvisada nem dependente exclusivamente de uma liderança carismática. Relatórios do Congressional Research Service e de Drug Enforcement Administration o descrevem como uma organização com alta capacidade armada, expansão internacional e redes transnacionais consolidadas. Essas características explicam por que, após a queda de seu líder histórico, a resposta não foi a paralisia, mas uma demonstração coordenada de força: bloqueios, ataques seletivos e desestabilização da vida cotidiana.

A literatura acadêmica ajuda a compreender esse fenômeno. Pesquisas publicadas no Journal of Conflict Resolution mostram que os efeitos da chamada “decapitação” criminosa variam segundo duas variáveis-chave: o nível de coesão interna do grupo e a capacidade do Estado para ocupar rapidamente o vácuo de poder. Quando essas condições não são atendidas, a violência tende a se intensificar no curto prazo. No México, essa dinâmica foi documentada de forma sistemática por Guillermo Trejo e Sandra Ley, que alertaram que a fragmentação organizacional, sem um controle territorial efetivo pelo Estado, produz disputas internas e expansão do conflito.

Os protestos após a morte de Oseguera Cervantes também revelam outra dimensão crítica: a resiliência operacional das economias ilícitas. O Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime indicou que mercados criminosos com infraestrutura financeira robusta e controle logístico diversificado se adaptam rapidamente às mudanças de liderança. Nesses casos, o problema não é a ausência de um líder, mas sim a persistência de incentivos econômicos, rotas, contatos e mecanismos de corrupção que sustentam a atividade ilegal. A violência, portanto, torna-se um instrumento para redefinir hierarquias e enviar sinais, tanto dentro da organização quanto para rivais e autoridades.

Este contexto explica por que, em paralelo aos eventos violentos, surgiram especulações sobre possíveis implicações para a Copa do Mundo de 2026. Convém separar a análise técnica do ruído político. Até agora, não há indicação de que a FIFA tenha considerado mudar as sedes mexicanas. Pelo contrário, seu presidente, Gianni Infantino, reiterou publicamente sua confiança no México como país anfitrião. A questão relevante não é se o torneio corre risco imediato, mas como a segurança será gerenciada em um ambiente onde as reconfigurações criminosas podem ter efeitos retardados.

Os grandes eventos internacionais não são planejados com base em certezas, mas em cenários. A experiência comparativa indica que os processos de sucessão dentro de organizações criminosas podem se estender por semanas ou meses, com picos intermitentes de violência. Ignorar essa possibilidade seria irresponsável. Ao mesmo tempo, superestimá-la sem respaldo empírico seria contraproducente. O equilíbrio reside no planejamento estratégico: monitoramento constante, coordenação interinstitucional e proteção preventiva de infraestruturas críticas, especialmente nas cidades anfitriãs.

Aqui, surge um problema estrutural que vai além do CJNG. O Índice Global de Impunidade indica que o México continua a ficar significativamente para trás em termos de eficácia institucional, investigação criminal e persecução penal. Essas fragilidades não geram manchetes sensacionalistas, mas condicionam profundamente a capacidade do Estado de transformar ataques táticos em resultados sustentáveis. Sem instituições sólidas em nível local — forças policiais profissionais, procuradorias eficazes e sistemas prisionais controlados — cada operação de alto impacto corre o risco de ser apenas um episódio dentro de um ciclo repetitivo de violência.

O sistema prisional merece menção especial. O Banco Interamericano de Desenvolvimento documentou como as prisões latino-americanas, longe de neutralizar o crime, frequentemente funcionam como centros de operação e coordenação. Os incidentes registrados em prisões após a morte de Oseguera Cervantes reforçam esse alerta. Sem governança prisional, controle tecnológico e supervisão externa, a privação de liberdade perde sua função básica como instrumento de segurança pública.

A dimensão financeira é outra frente crucial. O Departamento do Tesouro dos EUA identificou redes de lavagem de dinheiro ligadas ao cartel CJNG que operam além das fronteiras mexicanas. Atacar essas estruturas não produz imagens espetaculares nem gera aplausos imediatos, mas reduz diretamente a capacidade do crime organizado de se regenerar. A rastreabilidade financeira e o controle de precursores químicos são, nesse sentido, políticas de segurança tão importantes quanto, ou até mais importantes que, prisões de alto perfil.

Nada disso diminui a importância de eliminar líderes criminosos. Pelo contrário, coloca-a em sua devida perspectiva. A força sem governança cria vácuos; vácuos criam conflitos; e conflitos se traduzem em mais violência para a população. A confiança internacional, inclusive a associada a eventos como a Copa do Mundo, não se constrói negando os riscos, mas demonstrando a capacidade de antecipá-los e gerenciá-los.

Em última instância, a segurança não se mede pela queda de um nome, mas sim pela redução sustentada da violência e pelo fortalecimento do Estado de direito. Enquanto a estratégia continuar a priorizar golpes simbólicos sobre a consolidação institucional, cada “vitória” terá um custo a longo prazo. E esse custo, como demonstram os eventos recentes, muitas vezes se traduz em vidas.

Tradução automática revisada por Isabel Lima

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Doutor em Políticas Públicas pela Universidade IEXE (México). Mestre em Segurança Pública, Pesquisador Acadêmico. Consultor organizacional das forças policiais mexicanas e consultor em segurança pública e privada.

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