A recente redução da pobreza no México desafia a ideia de que o crescimento econômico, por si só, conduz ao progresso social. Em um contexto regional marcado pela desaceleração econômica e pela desigualdade persistente, o caso mexicano mostra que a recuperação do papel do Estado por meio de políticas sociais universais, melhorias na renda do trabalho e maior intervenção pública pode gerar avanços significativos no bem-estar. Entre 2018 e 2024, cerca de 13,4 milhões de mexicanos saíram da pobreza, dos quais 1,7 milhão deixaram para trás a pobreza extrema.
De acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística e Geografia (INEGI), a taxa de pobreza multidimensional no México situou-se em 29,6% em 2025, o nível mais baixo desde que esse indicador começou a ser medido. Ao contrário da pobreza monetária, a pobreza multidimensional considera não só a renda, mas também o acesso efetivo a direitos sociais como educação, saúde, moradia e alimentação. Na mesma linha, no final de novembro, a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) reportou que a pobreza na América Latina ficou em 25,5%, o nível mais baixo desde que se tem registro. E essa redução foi impulsionada principalmente pela queda da pobreza e da pobreza extrema no México, seguido pelo Brasil.
Como se explica essa redução da pobreza?
Em 2018, Andrés Manuel López Obrador foi eleito o primeiro presidente de esquerda na história democrática recente do México, sob o lema “pelo bem de todos, primeiro os pobres”. Sua chegada ao poder marcou um divisor de águas ao romper com um ciclo de governos neoliberais que haviam relegado a política social, privilegiando o crescimento econômico e limitando o papel do Estado sob a premissa de que isso geraria um efeito de transbordamento de riqueza para o resto da população.
Desde o início de seu governo, López Obrador e seu movimento chamado Quarta Transformação implementaram uma série de programas sociais diferentes dos esquemas condicionais do passado, por meio de transferências monetárias diretas para idosos, jovens aprendizes, camponeses, mulheres trabalhadoras, estudantes e pessoas com deficiência. Além disso, a reforma trabalhista implementada em 2021 restringiu a subcontratação a serviços especializados, o que permitiu que milhares de trabalhadores passassem para a formalidade e adquirissem plenos direitos trabalhistas. A isso se somou um aumento histórico do salário mínimo, que cresceu 215% desde 2018. Dados da OCDE colocaram o México como o país com o maior aumento salarial entre seus membros.
Este conjunto de políticas não está isento de críticas por parte dos setores empresariais e da oposição, que questionam a dependência e o clientelismo que, em sua opinião, os programas sociais geram. Apontam, por exemplo, que os programas sociais existentes no México, cujos gastos representam cerca de 3% do PIB, respondem a uma lógica de assistencialismo sem transformação estrutural, com cadernos de beneficiários pouco transparentes e um foco fraco nas famílias de menor renda. Da mesma forma, persiste a narrativa de que se “ensina a pescar, não a dar o peixe”.
No entanto, a ênfase na política social do governo de López Obrador, continuada sob a presidência de Claudia Sheinbaum, contribuiu para desmontar várias dessas suposições. Em primeiro lugar, é difícil “ensinar a pescar” se não há rio, ou seja, se não se melhora a renda dos trabalhadores e não se coloca a justiça trabalhista no centro da política pública. Em particular, o aumento do salário mínimo, que permaneceu estagnado por mais de duas décadas com o objetivo de manter a competitividade internacional, refutou a noção de que seu aumento inevitavelmente desencadearia uma espiral inflacionária capaz de colocar em risco a estabilidade macroeconômica.
Deficiências persistentes
Apesar desses avanços, a política social do governo mexicano não está isenta de deficiências. Entre elas, destaca-se a falta de um foco mais preciso nas famílias de menor renda, bem como a fraqueza — ou mesmo a ausência — de mecanismos sistemáticos de monitoramento e avaliação. Além disso, o período de aumentos salariais coincidiu com uma estagnação na geração de empregos formais, o que levanta questões sobre a sustentabilidade dos aumentos anuais do salário mínimo em um contexto de crescimento econômico abaixo da média histórica. A isso se soma o fato de que, embora a pobreza tenha diminuído, a desigualdade persiste e a riqueza continua concentrada em um pequeno setor da população. O índice de Gini do México (de 43,5 pontos) o coloca entre os dez países mais desiguais da região.
Um elemento central e frequentemente omitido neste debate é a vulnerabilidade desses avanços quando dependem de lideranças políticas específicas e de conjunturas favoráveis, mais do que de arranjos institucionais robustos. Nesse sentido, é significativo que diversos programas sociais tenham sido elevados à condição de programas constitucionais, com o objetivo explícito de salvaguardar os direitos sociais e reduzir o risco de retrocessos diante de potenciais mudanças no ciclo político. Contudo, a constitucionalização dos direitos, embora significativa, não garante por si só sua efetiva implementação ou sustentabilidade fiscal a longo prazo, o que ressalta a importância do fortalecimento das capacidades institucionais do Estado.
O caso mexicano sugere que a restauração do papel do Estado é uma condição necessária, embora não suficiente, para a transformação das estruturas persistentes de pobreza e desigualdade na região. Em vez de oferecer uma receita pronta, o México fornece evidências empíricas de que o progresso social não é um resultado automático do crescimento econômico, mas sim o produto de decisões políticas, institucionais e distributivas que devem ser preservadas e fortalecidas ao longo do tempo.
Tradução automática revisada por Isabel Lima










