Nos últimos anos, ao menos duas metrópoles sul-americanas sofreram com a escassez de água devido à qualidade ou quantidade inadequada. Em 2020, a Região Metropolitana do Rio de Janeiro enfrentou uma emergência hídrica devido a uma contaminação por geosmina, um composto orgânico não tóxico produzido por algas que, segundo moradores, deixou a água com um cheiro “desagradável” e expôs uma crise estrutural de água e saneamento. Já em 2023, a Região Metropolitana de Montevidéu vivenciou uma crise que colocou em risco aproximadamente 1,5 milhão de pessoas devido à seca e ao aumento da salinidade da água, gerando preocupações sobre sua potabilidade e criando um sentimento generalizado de vulnerabilidade.
À primeira vista, as crises parecem distintas: uma causada pelo excesso de cloreto de sódio, a outra por mau odor. Mas há um padrão comum: disputas sobre o modelo de gestão hídrica, pressão do setor privado (interessado em entrar no mercado de distribuição), crises de gestão devido ao modelo predominantemente centralizado, pouco participativo e com grande assimetria de poder na governança, e narrativas oficiais que buscaram mascarar as responsabilidades. Essas foram algumas das reflexões que emergiram da mesa-redonda “O que vem primeiro: crises hídricas, soluções hidráulicas ou a atuação de empresas privadas? Reflexões sobre Montevidéu e Rio de Janeiro”, da qual participaram os especialistas María Selva Ortiz, Álvaro Briano e Ana Lucia Britto, no âmbito do projeto “Dimensões hidrossociais da crise hídrica na Região Metropolitana de Montevidéu”, em parceria com o PRIDES (Faculdade de Ciências Sociais) e a Unidade de Ciência e Desenvolvimento (Faculdade de Ciências) da Universidade da República.
A naturalização das causas
O discurso oficial e certos meios de comunicação responsabilizaram a seca, a variabilidade climática e os fenômenos ambientais como a proliferação de algas ou a contaminação por geosmina. Em Montevidéu, o aumento da salinidade da água, que então passou a ser definida como “bebível” (uma nova categoria utilizada para substituir a água potável), e as restrições hídricas foram explicadas como consequência da baixa vazão do Rio Santa Lucía (que deságua no estuário do Rio da Prata) e da seca prolongada. Contudo, esse diagnóstico omite as decisões que levaram a atrasos nos investimentos, à falta de manutenção das redes de água, às dificuldades e atrasos na implementação das medidas de gestão planejadas para a bacia, à limitada participação pública, entre outros fatores.
De forma semelhante, no Rio de Janeiro, a poluição crônica da bacia do Rio Guandu, fonte de água para mais de 9 milhões de pessoas, o subinvestimento histórico em água e saneamento, e uma gestão marcada pela negligência precederam a contaminação por geosmina. Soma-se a isso a percepção de um problema estritamente técnico, a despolitização e a baixa participação social na gestão, marcadas por decisões “intencionalmente” equivocadas. Isso inclui a captação contínua de água bruta quando as condições eram inadequadas para o tratamento, resultando na distribuição de água com propriedades organolépticas alteradas (cheiro e sabor) por toda a metrópole. A narrativa pública não buscou minimizar o alarme (pelo contrário, contribuiu para amplificá-lo), com a crise servindo como um dos fatores que sustentaram e legitimaram uma agenda de privatização já em curso, iniciada após a promulgação da Lei nº 14.026/2020. Em resumo, em ambos os casos, as crises foram parcialmente explicadas como fenômenos naturais ou técnicos, embora tivessem raízes políticas e institucionais profundas.
Escassez hídrica e social e oportunidades de privatização
Se considerarmos entender essas crises através do conceito de escassez hídrica e social, formulado pela especialista Ana Lúcia Britto, podemos entendê-las não como consequências ambientais ou naturais, mas como produto de decisões institucionais, modelos de desenvolvimento, desigualdades e relações de poder. Em um contexto ideal, a água seria garantida como um direito humano e gerida de forma participativa; no entanto, quando o Estado deixa de fazer os investimentos necessários, prioriza interesses econômicos ou subestima a participação social, o resultado é a escassez que afeta milhões de pessoas.
No caso uruguaio, a vulnerabilidade do abastecimento depende hoje de decisões de investimento de longo prazo, do modelo de gestão escolhido para a bacia do rio Santa Lucía (que prioriza o setor agrícola) e da manutenção da rede de distribuição. No Rio de Janeiro, a escassez resulta de uma complexa rede de desigualdades territoriais, concentração da oferta, fragilidade institucional e um modelo técnico centralizado, além de investimentos historicamente baixos em infraestrutura e deficiências na cobertura de água e saneamento. Esses fatores foram agravados pela crise econômica e fiscal do estado do Rio de Janeiro, que favoreceu a privatização do setor.
Argumenta-se frequentemente que as crises hídricas podem se tornar janelas de oportunidade para reconfigurar a governança da água. O caso do Rio de Janeiro mostra como a poluição foi usada para deslegitimar a empresa pública de água e saneamento (CEDAE), o que, juntamente com outros fatores, levou à privatização dos serviços em 2021.
Em Montevidéu, a crise de 2023 reacendeu o debate sobre grandes obras hidráulicas, como o Projeto Netuno, proposto por um consórcio de empresas privadas e aprovado durante o governo anterior. Esses projetos foram defendidos como soluções estruturais sob o pretexto de “segurança hídrica”. Diferentemente do caso do Rio de Janeiro, a agenda de privatização no Uruguai foi parcialmente contida, em grande parte devido à mobilização social e à mudança política que atualmente renegocia outros projetos hidráulicos com o consórcio privado.
Considerações finais
As crises hídricas revelam o que é priorizado em nossas sociedades: quem decide, quem se beneficia, quem é deixado de lado e que tipo de relação idealizamos com um recurso fundamental para a vida.
As crises hídricas metropolitanas do século XXI não se definem só pela escassez de água ou pela má qualidade da água que chega às casas. Elas se definem pela forma como os Estados, as empresas e as sociedades mobilizam — ou deixam de mobilizar — a capacidade política para lidar com elas. Os casos de Montevidéu e Rio de Janeiro demonstram que o que está em jogo não é apenas a gestão da água, mas também o modelo de gestão dos territórios das bacias hidrográficas, da infraestrutura de saneamento e do ambiente urbano. Em ambos os casos, o técnico e o político não podem ser separados: a crise hídrica não é meramente um problema ambiental (ou natural) ou uma falha técnica, mas sim um sinal de profundas deficiências em um modelo de gestão.
Os ciclos políticos mudam, mas o paradigma da água permanece. Seja por meio de contratos herdados, flexibilizações regulatórias ou novos projetos apresentados como essenciais para a segurança hídrica, essas crises acabam reforçando o mesmo modelo, que prioriza projetos de infraestrutura e a participação privada em detrimento de alternativas democratizantes para a gestão de um bem comum. Diante dessa situação, devemos nos perguntar: as crises também podem levar ao fortalecimento da gestão da água como um bem comum e um direito humano? Ou acabarão sempre por ser um caminho para soluções que envolvam o setor privado com interesse em serviços de abastecimento de água?
Tradução automática revisada por Isabel Lima












