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Uma vitória contundente que expõe a política tradicional costarriquenha

A Costa Rica acordou com um poder concentrado e uma oposição arruinada: o resultado das eleições expõe uma crise política há muito negada.

As eleições deixaram para trás mais do que só uma nova distribuição de poder: expuseram as fissuras acumuladas na política costarriquenha. A magnitude da vitória governista não só redefine as maiorias, mas também nos força a questionar o que deu errado com a oposição, porque o mal-estar social encontrou só um canal eficaz e até onde um governo um poder tão concentrado pode ir. Este resultado não encerra um capítulo; abre um debate urgente sobre liderança, instituições e a direção democrática do país.

A vitória contundente do governo nos poderes Executivo e Legislativo marca um ponto de inflexão na política costarriquenha. Com Laura Fernández alcançando 48% dos votos e uma maioria legislativa de 31 cadeiras (de 57), o governo não só consolida o poder institucional, mas também envia uma mensagem clara sobre o humor do eleitorado. O Partido da Libertação Nacional, seu concorrente mais próximo, ficou relegado a 17 cadeiras, evidenciando uma lacuna política e simbólica difícil de ignorar.

Esse resultado não pode ser explicado só pelos méritos do partido governista, mas também pela profunda incapacidade da oposição de construir consensos unificadores. Os partidos de oposição mostraram-se fragmentados, mais focados em disputas internas e cálculos táticos de curto prazo do que em articular uma visão crível e compartilhada para o país. Isso levou ao desaparecimento de vários partidos do cenário legislativo e à redução de outros a um mínimo indispensável.

Cabe ressaltar também que, nos meses que antecederam as eleições, diversas forças políticas, de tendências variadas, realizaram negociações com o objetivo de unificar critérios prioritários e articular estratégias comuns baseadas em alguns pilares compartilhados. No entanto, esse esforço fracassou, em grande parte devido à ausência de uma figura capaz de liderar e estruturar o processo. Nesse novo cenário, não se pode descartar que a presença de figuras proeminentes na Assembleia Legislativa, com experiência e visão política, permita, ao menos, a construção de uma agenda mínima para os próximos quatro anos, particularmente no que diz respeito a questões eleitorais, na preparação para as eleições municipais de 2028. Isso é especialmente verdadeiro considerando que o partido governista conseguiu vencer em 64 dos 84 cantões do país.

Soma-se a isso uma repetida leitura equivocada da realidade nacional por amplos setores da classe política tradicional. Durante anos, subestimaram o descontentamento social, a desconfiança nas elites e o cansaço da população com uma retórica distante da vida cotidiana, bem como a função, a utilidade e o alcance das novas tecnologias de informação e comunicação, particularmente as mídias sociais. Nessa área, o partido governista fez uma de suas maiores apostas, desenvolvendo uma estratégia de comunicação ininterrupta, consistente e claramente direcionada, que, em última análise, ampliou sua capacidade de se conectar com amplos segmentos da população.

Assim, o governo canalizou eficazmente esse descontentamento popular, combinando uma narrativa de ordem e controle com resultados percebidos em termos de estabilidade macroeconômica.

No entanto, a ampla concentração de poder levanta questões legítimas sobre os limites e o alcance das transformações institucionais que o partido governante pode — ou irá — promover, particularmente em áreas sensíveis como a nomeação de autoridades institucionais, a relação com o judiciário e a preservação do equilíbrio democrático.

A isso se somam sérias dúvidas sobre a capacidade do grupo governante de traduzir sua força política em conquistas governamentais concretas, especialmente considerando que o governo anterior deixou questões importantes sem solução e resultados insuficientes em áreas-chave. Essa situação alimenta a percepção de que um padrão semelhante poderia ser replicado, o que apenas exacerbaria os problemas sociopolíticos e econômicos do país, potencialmente mascarados por uma retórica populista com características autoritárias.

Vale ressaltar também que o caso da Costa Rica está longe de ser único e deve ser compreendido dentro de um contexto mais amplo. No âmbito da análise e especulação política — nem sempre sustentada por provas conclusivas — observa-se uma crescente preocupação em vários países quanto à potencial influência do crime organizado sobre os sistemas democráticos.

E numa esfera diferente, mais claramente documentada, característica da política internacional, há tentativas de enfraquecer o direito internacional e corroer o multilateralismo, afetando os quadros de cooperação construídos ao longo de décadas. A Costa Rica, apesar da sua forte tradição institucional, não está isolada dessas dinâmicas e enfrenta o desafio de reconhecê-las e abordá-las seriamente.

Em última análise, o problema é mais profundo e estrutural. Por pelo menos duas décadas, a Costa Rica evitou transformar suas estruturas sociopolíticas e permanece apegada a uma visão conservadora do sistema, incapaz de compreender e confrontar a complexa realidade social atual. A vitória do partido governista não resolve esse dilema; ela o expõe com mais clareza.

O cenário emergente combina oportunidades e riscos. A força do mandato recebido oferece ao governo a possibilidade de forjar acordos, modernizar as instituições e responder a demandas há muito negligenciadas. Ao mesmo tempo, a fragilidade da oposição e a concentração de poder exigem uma fiscalização democrática ativa, capaz de prevenir excessos e preservar o sistema de freios e contrapesos que historicamente caracteriza o país.

Entre a esperança de mudanças necessárias e as dúvidas sobre seus limites, a Costa Rica entra em uma nova etapa em que o futuro é incerto e dependerá, em grande medida, da maturidade política de seus líderes e da capacidade da sociedade de defender e renovar sua democracia.

Tradução automática revisada por Isabel Lima

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Cientista político, ex-assessor da Assembleia Legislativa da Costa Rica, ex-funcionário do PNUD, acadêmico e pesquisador da Faculdade de Ciências Políticas da Universidade da Costa Rica. Diretor da revista de opinião La Revista CR.

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