A América Latina e o Caribe experimentam uma transformação digital vertiginosa. As redes sociais, os algoritmos e a inteligência artificial se tornaram parte integrante da vida cotidiana. Ao mesmo tempo, as novas tecnologias estão gerando um impacto ambiental notável e pressionando os ecossistemas naturais.
Entre o progresso e o risco emerge uma oportunidade: catalisar o desenvolvimento humano, desenvolvendo tecnologias inspiradas nas formas e processos da natureza para encontrar um novo equilíbrio entre inovação, sustentabilidade e bem-estar coletivo.
Biomimética: um caminho para uma IA mais sustentável
Na natureza, a eficiência raramente é uma coincidência. As baleias jubarte, por exemplo, impressionam não só pelo tamanho, mas também pela sofisticada engenharia de seu corpo: as ondulações em suas barbatanas os permitem manobrar com agilidade, e a textura de sua pele reduz o atrito.
Esses princípios inspiraram turbinas eólicas mais estáveis e barcos de alta velocidade com menor consumo de combustível. Da mesma forma, a inteligência artificial (IA) poderia se beneficiar de um redesenho inspirado em processos biológicos, a chamada biomimética: desde arquiteturas de computação que imitam redes de micélio para otimizar o fluxo de dados, até sistemas de refrigeração modelados em cupinzeiros para economizar energia ou algoritmos que, como a fotossíntese, impulsionam energias limpas.
A IA promete transformar a economia global. Na América Latina e no Caribe (ALC), projeta-se que a IA contribua com até 5,4% do PIB regional em 2030, o equivalente a cerca de US$ 0,5 trilhão. No entanto, essa revolução avança acompanhada de um impacto ambiental crescente.
O desenvolvimento e o treinamento de grandes modelos de linguagem exigem enormes recursos. Entre 2020 e 2023, as emissões da Alphabet, Amazon e Microsoft cresceram 62% e seu consumo de eletricidade 78%, ultrapassando 100 TWh (o que consomem a Colômbia e a República Dominicana juntas). Em 2022, o Google e a Microsoft também aumentaram em 20% e 34% o uso de água em seus centros de dados. Na América Latina, a instalação de centros de dados já gerou tensões, especialmente em regiões com estresse hídrico, como Chile, México e Uruguai. Projetos recentes têm sido questionados sobre a sustentabilidade desse modelo intensivo em recursos.
Diante desse panorama, é urgente repensar a arquitetura da IA. A biomimética oferece um caminho inspirador para reduzir sua pegada ambiental. Assim como os exemplos citados de design de chips e centros de dados, as formas, os processos e os ecossistemas naturais têm o potencial de permitir economias de energia e aumentos na capacidade e estabilidade da geração de energias renováveis, em particular a solar e a eólica. A integração de princípios biomiméticos, ainda em fase inicial de adoção, no design e na operação da IA poderia marcar a diferença entre um modelo de desenvolvimento sustentável e um que aprofunde as crises ecológicas.
América Latina: um banco de ideias para a inovação
A América Latina e o Caribe abrigam 60% da biodiversidade terrestre global e vastos recursos minerais, tendo assim uma oportunidade única nesta transição. A biodiversidade pode se tornar uma fonte inesgotável de inovação bioinspirada, posicionando a região como líder em soluções tecnológicas globais.
Este caminho exige uma mudança profunda de mentalidade e de política industrial. Hoje, grande parte da bioinovação na região continua centrada na exploração de compostos naturais para cosméticos ou agroindústrias, sem um enfoque sistêmico em sustentabilidade, nem um foco no desenvolvimento local onde se localiza essa biodiversidade.
Para que a IA seja uma aliada e não uma ameaça à biodiversidade na América Latina, são necessárias políticas que promovam a biomimética, garantam o acesso responsável aos dados e fortaleçam um ecossistema regional de inovação. Igualmente, é essencial formar uma nova geração de cientistas, engenheiros e empreendedores que trabalhem na interseção entre biologia, IA e design sustentável.
Do potencial à ação: o papel dos governos e outros atores na IA biomimética
A falta de infraestrutura digital e de capacidade computacional limita o desenvolvimento de modelos próprios de IA na região. Muitas universidades carecem de laboratórios especializados, enquanto a fuga de talentos enfraquece a inovação local. A isso se soma a dependência de hardware e software importados, expondo os países a gargalos geopolíticos e à volatilidade de insumos estratégicos, como semicondutores.
Mesmo nos casos em que existem capacidades técnicas, os marcos regulatórios são insuficientes ou desatualizados, dificultando o acesso a dados sobre biodiversidade e freia a colaboração entre atores públicos, privados e comunitários.
Confiar que o mercado, por si só, canalizará os investimentos necessários para uma IA biomimética é ingênuo, com um grande número de atores que priorizam a rentabilidade imediata em detrimento da sustentabilidade a longo prazo. Aproveitar a biodiversidade para o design tecnológico exige políticas que integrem ciência, indústria e conservação. Os governos devem estabelecer padrões de sustentabilidade, financiar pesquisas interdisciplinares, assegurar a soberania dos dados ambientais e criar centros regionais que reúnam engenheiros, biólogos e empreendedores.
Nesta área também há boas notícias. O Centro TIDE da Universidade de Oxford vai lançar na próxima COP30, que será realizada em Belém, às portas da Amazônia brasileira, uma iniciativa para projetar soluções de eficiência energética e impulso às energias renováveis inspiradas na natureza, lideradas por startups e centros de pesquisa da região.
Esta revolução digital não tem por que se tornar um novo ciclo extrativista da natureza. Pode e deve ser uma oportunidade para nos reconciliarmos com ela. Como nos ensinam as baleias, às vezes as soluções mais avançadas estão bem diante dos nossos olhos, ou nadando no oceano, há milhões de anos.
Este artigo apresenta um avanço do Relatório Regional sobre Desenvolvimento Humano 2025, intitulado “Sob pressão: recalibrando o futuro do desenvolvimento”, elaborado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) na América Latina e no Caribe.
Tradução automática revisada por Isabel Lima