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Durou pouco: Peru volta a ficar sem presidente

A nova destituição presidencial confirma que, no Peru, o problema já não é quem governa, mas sim um sistema que faz da instabilidade a sua norma.

Em 17 de fevereiro, o Peru ficou novamente sem presidente. O que em qualquer democracia seria uma crise excepcional, no caso peruano tornou-se um episódio recorrente. Desde 2016, nenhum presidente conseguiu completar seu mandato. A instabilidade não é mais um acidente do sistema político: é sua característica dominante.

José Jerí, que era presidente da Mesa Diretiva do Congresso até Boluarte ser substituída, assumiu a presidência conforme a ordem constitucional por um período de 130 dias. Jerí havia entrado no Congresso como suplente após a destituição de Martín Vizcarra. Durante seu breve mandato, tentou projetar uma imagem de liderança firme, visitando centros penitenciários e com uma retórica centrada na ordem e na segurança. No entanto, sua popularidade se deteriorou rapidamente.

A empresa de pesquisa Ipsos registrou 60% de desaprovação, em um contexto marcado por questionamentos públicos, como reuniões com empresários chineses, denúncias de violação e deterioração dos indicadores de segurança cidadã. Embora as razões apresentadas pelos congressistas para sua destituição estivessem ligadas a esses episódios, sua destituição faz parte de uma estratégia política dos partidos com vistas às próximas eleições. Após sua saída, José María Balcázar, um congressista de esquerda de 83 anos, tristemente conhecido por seu apoio ao casamento infantil, tornou-se o novo presidente do Peru.

Um após o outro

O último chefe de Estado que completou seu mandato foi Ollanta Humala (2011-2016). Desde então, a sucessão tem sido acelerada. Pedro Pablo Kuczynski renunciou após pouco mais de um ano e meio de governo, pressionado por um Congresso controlado majoritariamente pelo fujimorismo. Seu vice-presidente, Martín Vizcarra, que assumiu após a renúncia, foi destituído por meio da figura da “vacância presidencial”. Manuel Merino, então presidente do Congresso, assumiu o cargo de acordo com a ordem constitucional, mas renunciou cinco dias depois, após intensos protestos sociais nos quais dois jovens morreram. Francisco Sagasti completou a transição até as eleições de 2021. Pedro Castillo, eleito naquele ano, foi destituído após tentar dissolver o Congresso. Sua vice-presidente, Dina Boluarte, assumiu a presidência e, após acordos frágeis com os congressistas, foi destituída.

Além dos nomes e dos dias que cada um permaneceu no poder, o relevante é que o Peru enfrenta uma fragilidade institucional que permite a destituição frequente do chefe de Estado. A Constituição peruana contempla a figura da “vaga por incapacidade moral permanente”, que autoriza o Congresso a declarar a destituição do presidente com dois terços dos votos (maioria simples no caso de censura ao presidente da Mesa Diretiva do Congresso).

Trata-se de um mecanismo excepcional, pensado para situações extremas; no entanto, na prática, tornou-se uma ferramenta de pressão política. A expressão “incapacidade moral permanente” é suficientemente ambígua para permitir diversas interpretações. Nos últimos anos, ela tem sido invocada por diversos motivos, desde acusações de corrupção até questionamentos políticos, sem que exista um padrão jurídico claramente delimitado.

Essa instabilidade tem consequências concretas. As políticas públicas exigem continuidade, planejamento e coordenação interinstitucional. Quando os governos se sucedem rapidamente, as equipes ministeriais mudam, as prioridades são redefinidas e as reformas estruturais perdem impulso. Problemas complexos como a insegurança cidadã, a informalidade econômica ou a precariedade dos serviços públicos dificilmente podem ser abordados com eficácia em um ambiente onde a sobrevivência política é o objetivo imediato.

Por outro lado, é importante indicar que não houve uma reforma constitucional que alterasse formalmente o equilíbrio de poderes após 2016. O que mudou foi a maneira como os atores políticos decidiram usar os instrumentos disponíveis. A vacância deixou de ser um recurso extraordinário para se tornar uma ameaça constante contra presidentes sem maioria. Neste contexto, a estabilidade do Executivo depende menos de critérios jurídicos do que de uma aritmética legislativa. A isso se soma o fato de que, após a dissolução do Congresso durante o governo de Martín Vizcarra, o Legislativo tem buscado reforçar suas atribuições, limitando, por exemplo, a possibilidade de o Senado ser dissolvido.

O que o país realmente precisa

Uma reforma política profunda é, portanto, indispensável. Fortalecer o sistema de governo e o sistema partidário é condição necessária para reduzir a fragmentação e o confronto permanente. No entanto, modificar as regras não é suficiente. A experiência recente demonstra que é fundamental o compromisso genuíno das elites políticas com a estabilidade democrática. Em 2018, o então presidente Martín Vizcarra promoveu um pacote de reformas que foi submetido a referendo. Embora tenha contado com a participação dos cidadãos, parte do seu conteúdo foi diluído no processo legislativo posterior e não conseguiu gerar as mudanças estruturais esperadas.

Nos próximos meses, o Peru voltará às urnas para eleger o presidente e os vice-presidentes, bem como os membros do Senado e da Câmara dos Deputados. Diante da fraqueza institucional que caracteriza o país, surge uma pergunta inevitável: é determinante quem ocupa a presidência, se as regras do jogo permitem que seu mandato seja interrompido com relativa facilidade?

O contexto sugere que a estabilidade do sistema não depende apenas da figura presidencial, mas do desenho e funcionamento do conjunto institucional. Sem ajustes nesse quadro, o risco de que a história se repita continuará presente.

Tradução automática revisada por Isabel Lima

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Consultora e pesquisadora. Mestre em Ciência Política pela Universidade de Salamanca e cientista política pela Pontifícia Universidade Católica do Peru. Membro da Rede #NoSinMujeres de Mulheres Cientistas Políticas.

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