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É possível fazer prevenção de saúde em escala planetária?

“Era domingo. Estávamos todos em casa e, de um momento para o outro, fomos cercados pela água. Ficamos no telhado por seis horas até conseguirem nos resgatar”, relembra Sandra, moradora de Río Ceballos. Em 15 de fevereiro de 2015, moradores de várias cidades das Sierras Chicas, na província argentina de Córdoba, viram rios e riachos da região transbordarem. Os rios que normalmente eram usados para “molhar os pés” se transformaram em uma avalanche de água que varreu vidas, casas, pontes e tudo o que estava em seu caminho. Em doze horas, caíram 300 milímetros de chuva: quase um terço da média anual calculada para essa zona serrana.

Dois anos antes, um grupo de cientistas da Universidade Nacional de Córdoba alertava sobre essa possibilidade em um relatório técnico. O avanço descontrolado da fronteira urbana e o desmatamento da floresta nativa poderiam aumentar o risco de deslizamentos de terra, rocha e água, e de inundações, precisamente na bacia dos rios Ceballos e Saldán, nas Sierras Chicas.

“Não foi a chuva, foi o desmatamento”, denunciou a assembleia de vizinhos autoconvocados da zona no sétimo aniversário da inundação que marcou a história da região. Naquele momento, porém, os vizinhos não haviam sido alertados porque as informações simplesmente não estavam disponíveis para a sociedade.

Por esse motivo, esse grupo de vítimas de enchentes e ativistas iniciou um processo de amparo coletivo no qual, entre outras coisas, solicitou a implementação de um sistema de alertas prévios para detectar, avaliar, informar e prevenir qualquer fenômeno climático severo na província.

A saúde em escala planetária

Dia após dia, a mídia e as redes sociais mostram as consequências de secas, inundações, temperaturas extremas, incêndios e outras catástrofes ambientais em diferentes cantos do planeta. Alguns até anunciam que “a Terra está com febre” ou que está sofrendo de “uma infecção chamada humanidade”. Mas será que podemos falar sobre uma saúde planetária? É possível encontrar indicadores dessa saúde e medi-los? E essas informações poderiam nos ajudar a tomar melhores decisões em escala global?

Os efeitos das mudanças climáticas não são evidentes apenas no aumento significativo de eventos climáticos extremos, cuja intensidade e magnitude crescentes impactam diretamente a vida cotidiana das pessoas. Além disso, têm uma influência decisiva na saúde das pessoas, de forma indireta, devido à estreita associação entre a saúde humana e fatores como a qualidade da água, do ar e do acesso aos alimentos. De fato, diversos fóruns e organismos internacionais alertam para a necessidade de adotar uma perspectiva de saúde que incorpore os desafios trazidos pelas mudanças climáticas.

Essa abordagem inclui um conjunto mais amplo de forças e sistemas que impactam as condições de vida, como sistemas alimentares e produtivos, e até mesmo formas de organização política. Além disso, é preciso incluir as complexas interconexões e equilíbrios entre a saúde humana e a saúde do planeta, entendida como um direito universal a ser respeitado pelas gerações presentes e futuras.

Medir, integrar e alertar

Para combinar dados sobre a tríade clima, meio ambiente e saúde como uma estratégia para monitorar as áreas que requerem mais atenção e cuidado, um consórcio de pesquisadores sul-americanos provenientes de diversas disciplinas científicas e geografias propõe a criação de uma plataforma digital com informações acessíveis ao público que serão alojadas na página da Universidade Nacional de Córdoba, na Argentina.

A equipe pretende coletar dados importantes para construir indicadores que permitam reunir dados que atualmente estão dispersos, fragmentados ou expressos em diferentes escalas temporais. E é precisamente essa dispersão que dificulta a criação de um sistema integrado de vigilância e monitoramento que permitiria atender às problemáticas em diferentes escalas territoriais. Essa plataforma poderia, portanto, contribuir para o desenvolvimento de intervenções para mitigação ou adaptação à crise climática.

“Em todas as suas fases, será promovida a participação de atores-chave e usuários em potencial”, afirma a Dra. Sonia Muñoz, professora e pesquisadora da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nacional de Córdoba, que lidera o projeto. “Estamos convencidos da importância estratégica da transdisciplinaridade ao pensar e desenvolver a plataforma, bem como ao comunicá-la aos tomadores de decisão e à sociedade como um todo”.

Há décadas, a comunidade científica vem realizando diversas medições que, em cada um de seus relatórios, integram elementos que convergem para a necessidade de tomar medidas diante da emergência climática. Por isso, a possibilidade de projetar uma plataforma cooperativa regional que tenha como objetivo gerenciar dados integrados sobre indicadores-chave na tríade clima-ambiente-saúde é um passo fundamental diante do panorama epidemiológico regional. Essa abordagem permitirá que se avance na redução da lacuna entre a pesquisa e a obtenção de evidências científicas e as políticas públicas e práticas de saúde.

Não só é importante identificar os pontos críticos que podem representar riscos à saúde associados à mudança climática, como também é essencial desenvolver estratégias adequadas para tornar essas informações facilmente acessíveis aos tomadores de decisão, como autoridades locais, provinciais e nacionais nas áreas de saúde, meio ambiente, agricultura, social e educação, entre outras. Dessa forma, a capacidade de resposta durante emergências e desastres climáticos poderia ser aprimorada, beneficiando assim a sociedade como um todo. 

Sem dúvida, o que aconteceu nas Sierras Chicas de Córdoba não foi um evento fortuito ou um episódio isolado; pelo contrário, é um sintoma de um fenômeno cada vez mais difundido e frequente que precisa ser abordado e respondido. A resposta está em reunir as evidências científicas, torná-las acessíveis à sociedade como um todo e apoiar sua aplicação na prática.

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