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2025: América em reajuste

2025 deixou democracias vivas, mas exaustas, e um mapa político reconfigurado. Entre medos e urgências, as maiorias escolheram a segurança. Estamos diante de uma deriva para uma ordem punitiva?

O ano de 2025 encerra-se com a sensação compartilhada de que o continente americano atravessa um profundo reajuste, embora sem encontrar um rumo estável. As eleições, longe de serem celebrações da força democrática, confirmaram que o voto hoje legitima projetos incompatíveis entre si: de governos liberais que apostam na redução drástica do Estado a experiências conservadores sustentados em identidades culturais tradicionais, passando por regimes linha-dura que parecem depender mais da obediência emocional do eleitorado do que do equilíbrio institucional. O mapa político não só mudou de cor; mudou de lógica. A América está girando novamente, mas o faz sobre um solo cada vez mais frágil, corroído pelo desencanto dos cidadãos, pela insegurança estrutural e pela incapacidade dos sistemas políticos de produzir certeza.

A América do Sul foi o palco mais visível dessa transformação. Na Argentina, Javier Milei completou o segundo ano de seu singular experimento liberal-libertário com um profundo ajuste econômico que, embora tenha começado a conter a inflação, não conseguiu aliviar o fardo diário dos setores mais vulneráveis. O país vive preso entre um governo que se assume portador de uma missão “refundacional”, disposto a romper com décadas de práticas estadistas, e uma sociedade cansada que exige resultados tangíveis além dos discursos sobre revolução cultural ou liberdade econômica. Não se trata somente do êxito ou fracasso de um programa econômico; o que está em jogo é a própria possibilidade de um projeto antisistema se tornar uma alternativa democraticamente sustentável.

O Chile confirmou essa tendência regional. A vitória eleitoral de José Antonio Kast simbolizou o retorno de uma direita radical ao poder, respaldada por um expressivo voto territorial. Contudo, esse triunfo não se traduziu na capacidade de governar sem freios: o novo presidente assume uma maioria parlamentar limitada, o que o obriga a operar em um Congresso adverso e altamente fragmentado. O caso chileno volta a demonstra que a legitimidade eleitoral nem sempre garante a governabilidade e que o continente transita para um modelo em que a popularidade presidencial enfrenta contrapesos legislativos que o debilita desde o primeiro dia. A Bolívia também ofereceu a ruptura mais simbólica: após duas décadas de hegemonia do MAS, um governo de centro-direita chegou ao poder e tentou desmantelar os pilares distributivos que definiam o país desde o início do século. A reação social foi imediata: greves, protestos e um conflito político que mergulhou o país novamente na instabilidade. O Brasil, por sua vez, optou pela continuidade. Lula da Silva anunciou sua intenção de concorrer novamente, alimentando um paradoxo regional: o continente exige renovação, mas muitas de suas figuras centrais seguem dependendo de líderes do passado recente.

A América Central viveu um processo diferente: lá, a disputa não foi ideológica, mas institucional. El Salvador aprofundou seu modelo plebiscitário de segurança total, com um estado que se expande das prisões para todos os âmbitos da administração pública. Na Nicarágua, a repressão política continuou com a mesma intensidade, e a democracia deixou de ser um horizonte e se tornou uma lembrança. A Guatemala tentou avançar com uma agenda anticorrupção sob a constante ameaça de redes políticas e judiciais que buscam impedir qualquer reforma estrutural. A América Central parece ter sacrificado a democracia liberal em troca de uma liderança forte, e o aspecto preocupante é que essa mudança goza de significativo apoio popular.

Enquanto isso, o México e o Equador exemplificaram o conflito latino-americano entre violência estrutural e legitimidade democrática. No México, a primeira fase do governo de Claudia Sheinbaum foi marcada por um ajuste estratégico em matéria de segurança: manteve-se a participação das forças armadas como um elemento central do controle territorial, mas o componente civil foi reforçado na prevenção, inteligência e coordenação institucional. Esse enfoque, com um entorno econômico estável e um dólar forte, ajudou a manter altos níveis de aprovação presidencial até o final do ano. Em paralelo, a nova Suprema Corte de Justiça da Nação iniciou seus trabalhos em meio a grandes expectativas e intenso escrutínio público. Contudo, entre setembro e dezembro, a Corte, presidida por Hugo Aguilar Ortiz, conseguiu consolidar uma imagem de autonomia institucional: operou segundo seus próprios critérios, manteve-se distante da pressão política e reafirmou sua capacidade de conduzir a agenda jurisdicional com independência. Sua implementação reduziu os temores iniciais sobre a reformulação judicial e fortaleceu a percepção de um equilíbrio entre poderes.

O Equador seguiu um caminho oposto, mas parecido: Daniel Noboa consolidou seu mandato com a promessa de um ataque frontal ao crime organizado. Sua reeleição confirmou que os cidadãos já não votam só por projetos econômicos ou ideológicos, mas por proteção pessoal. A segurança deixou de ser uma política setorial e tornou-se a própria essência do contrato social.

Na América do Norte, o retorno de Donald Trump modificou o equilíbrio hemisférico. Os Estados Unidos reinstauraram uma agenda marcada pela pressão migratória, endurecimento de fronteiras e uma postura mais confrontativa em relação a regimes autoritários. O Caribe, por sua vez, continuou a lidar com sua crise humanitária mais severa: o Haiti permaneceu mergulhado em um colapso institucional, um lembrete brutal de que o Estado falido não é mais uma categoria acadêmica, mas uma experiência real.

Democracias esgotadas: eleições competitivas e deriva punitivista

Se observarmos o continente no geral, 2025 apresenta três conclusões preocupantes. A primeira é que a democracia eleitoral continua operando, mas a democracia liberal está se erodindo. Há eleições competitivas, mas com aceitação cada vez menor devido às limitações que sustentam o sistema. A segunda é que o mal-estar já não impulsiona projetos progressistas de reforma social, mas sim lideranças punitivas que priorizam a ordem em detrimento do futuro. A terceira é que a crescente obsessão com a segurança suplantou as discussões históricas sobre desigualdade, integração e desenvolvimento; hoje, o continente não debate como crescer, mas como sobreviver.

As democracias das Américas seguem vivas, mas estão exaustas. Governos mudam, ideologias se alternam, fronteiras são redesenhadas, mas a incerteza permanece. Em 2025, as Américas reconfiguraram seu mapa político sem conseguir responder à questão essencial: estamos indo rumo a uma democracia mais sólida ou transitando para uma ordem onde o medo substitui a cidadania? O ano terminou sem uma resposta clara, embora tenha deixado um alerta contundente: sociedades fatigadas nem sempre escolhem o que é melhor; escolhem o que é imediato. E o que é imediato, hoje, chama-se segurança.

Tradução automática revisada por Isabel Lima

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Coordenador Nacional de Transparência Eleitoral para México e América Central. Mestre em Governança, Marketing Político e Comunicação Estratégica pela Univ. Rei Juan Carlos (Espanha). Professor universitário.

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