Todo dia 18 de dezembro, o Dia Internacional dos Migrantes convida o mundo a refletir sobre uma realidade frequentemente deixada à margem do debate público. Não se trata só de números ou fluxos migratórios, mas de pessoas que se deslocam porque as condições mínimas para viver com dignidade deixaram de existir em seus locais de origem.
Em um contexto global marcado por crises sobrepostas, a mobilidade humana expõe uma tensão central do nosso tempo: a urgência de milhões de pessoas versus a lentidão, senão a indiferença, das respostas políticas.
Hoje, mais de 281 milhões de pessoas vivem fora de seus países de origem e ao menos 122 milhões são deslocadas à força devido a conflitos, violência, crises econômicas e desastres ambientais. Esses números não representam um fenômeno isolado. São reflexo de um sistema global que produz exclusão de forma estrutural e, ao mesmo tempo, não oferece mecanismos eficazes para gerir a mobilidade que gera.
As Nações Unidas têm avançado em resoluções e marcos de referência que reconhecem a migração como um fenômeno inerente ao desenvolvimento humano. O Pacto Global para Migração Segura, Ordenada e Regular é um marco ao propor cooperação, um enfoque de direitos e corresponsabilidade. No entanto, na prática, a lacuna entre os compromissos internacionais e as políticas nacionais permanece profunda, especialmente em regiões como a América Latina e o Caribe.
América Latina: uma região em constante movimento
A América Latina e o Caribe concentram hoje uma das dinâmicas migratórias mais complexas do mundo. A região é, ao mesmo tempo, origem, destino, trânsito e retorno. Essa condição desafia as categorias tradicionais ainda utilizadas para elaborar muitas políticas públicas. O deslocamento venezuelano é o exemplo mais visível. Mais de sete milhões de pessoas saíram de seu país, e 85% permanecem em países da região. A Colômbia abriga quase um terço dessa população, seguida por Peru, Brasil, Chile e Equador. Após anos de chegadas em massa, o fenômeno entrou em uma fase de assentamento prolongado que exige respostas estruturais.
Não se trata só de ajuda humanitária. O desafio central é a integração socioeconômica: acesso a emprego formal, educação, saúde e mecanismos sustentáveis de regularização. No entanto, uma parte significativa da população migrante segue presa na informalidade. Na Colômbia, cerca de 82% da população venezuelana trabalha com contratos verbais, segundo dados do Departamento Administrativo Nacional de Estatísticas (DANE), o que perpetua condições precárias e limita sua plena contribuição para a economia.
A isso se somam os fluxos de trânsito em massa para os Estados Unidos e o aumento da migração extrarregional. A América Central, o Caribe e o México enfrentam pressões crescentes em corredores migratórios expostos ao crime organizado transnacional. Em muitos casos, a região responde com recursos limitados e uma cooperação internacional nem sempre proporcional à magnitude dos desafios.
Retornos forçados, diáspora e ciclos inacabados
Os retornos forçados tornaram-se uma constante na experiência migratória recente da América Latina e do Caribe. Longe de significarem o fim de um processo, esses retornos frequentemente reintegram as pessoas em contextos marcados pela precariedade, insegurança e falta de oportunidades que originalmente impulsionaram a migração. Assim, a diáspora não representa um ciclo concluído, mas sim um processo contínuo, marcado por deslocamentos sucessivos, rupturas familiares e uma prolongada incerteza.
Enquanto alguns migram, outros retornam. O retorno tornou-se uma dimensão cada vez mais visível da mobilidade humana, embora permaneça amplamente negligenciada. Só em 2024, mais de 17.000 pessoas foram deportadas para a Colômbia, principalmente dos Estados Unidos, segundo dados da Migración Colombia. Muitas retornaram despreparadas, sem reservas financeiras e sem redes de apoio. Os marcos legais existentes foram, em sua maioria, concebidos para retornos voluntários. Não abordam adequadamente os impactos do retorno forçado, nem as necessidades específicas de quem retorna após anos fora do país. O resultado é um vácuo institucional que deixa milhares de pessoas em situação de alta vulnerabilidade econômica e social.
Esse fenômeno não é exclusivo da Colômbia. Países de toda a região enfrentam o mesmo dilema: como reintegrar pessoas que retornam com experiências, habilidades e expectativas diferentes, mas sem mecanismos de apoio claros. Longe de fechar o ciclo migratório, o retorno abre um novo ciclo de exclusão quando faltam políticas produtivas de reintegração.
Em contrapartida, a diáspora latino-americana continua a sustentar as economias a partir do exterior. Segundo o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), em 2024, as remessas para a região ultrapassaram US$ 160 bilhões, tornando-se uma importante fonte de renda para milhões de famílias. Essas transferências aliviam a pobreza e estabilizam as economias locais, mas também evidenciam uma dependência estrutural.
Além das remessas, a diáspora representa um capital humano estratégico. Profissionais, empreendedores, cientistas e trabalhadores qualificados geram conhecimento, redes e inovação. Quando as políticas reconhecem esse potencial, a migração pode se tornar um ativo para o desenvolvimento. No entanto, em muitos países, esses esforços permanecem dispersos e mal coordenados.
Decisões urgentes diante de um cenário transformado
A mobilidade humana não é uma crise passageira, mas uma característica estrutural do mundo atual. Insistir em abordagens focadas exclusivamente no controle e na segurança tem se mostrado ineficaz: fechar fronteiras não interrompe os fluxos, só os torna mais perigosos e custosos em termos humanos.
As experiências mais bem-sucedidas demonstram que a gestão da migração requer uma combinação de políticas: assistência humanitária, integração socioeconômica, mobilidade regular, cooperação internacional e fortalecimento das capacidades locais. Exige-se também uma melhoria na qualidade dos dados. A fragmentação dos dados sobre migrantes, retornados e diáspora dificulta a tomada de decisões e limita a avaliação do impacto real das políticas públicas nos países de acolhimento.
Atualizar os marcos legais é outro desafio urgente. Muitas normas foram pensadas para contextos de mobilidade temporária e não para migração prolongada ou retornos forçados em massa. O Dia Internacional dos Migrantes deve servir para mais do que apenas declarações. É uma oportunidade para reconhecer que a mobilidade humana veio para ficar. Entre a urgência daqueles que migram e a indiferença daqueles que tomam as decisões, ainda há espaço para políticas mais responsáveis, humanas e coerentes.
Tradução automática revisada por Isabel Lima










