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A importância do cuidado ambiental na América Latina

Na América Latina, as mulheres sustentam a vida em territórios degradados, onde cuidar do meio ambiente é também resistir à crise climática e à desigualdade.

O cuidado ambiental é uma prática política e coletiva, realizada sobretudo por mulheres, que entrelaça a reprodução da vida com a proteção de um território degradado.  Este conceito permite visibilizar respostas que incorporam o ambiente como uma dimensão fundamental dos cuidados, historicamente invisibilizada e não remunerada.  Sua relevância é chave para compreender o papel das mulheres latino-americanas diante da crise climática e em âmbitos como a saúde.

 Crise, saúde e cuidados na América Latina

A irrupção da COVID-19 deixou em evidência que atender aos problemas de saúde exige a exclusão de uma multiplicidade de fatores. Em 2020 não nos encontrávamos antes de uma pandemia, mas sim bem antes de uma sindemia.  Segundo os antropólogos Merrill Singer e Bárbara Rylko-Bauer, a sindemia define a sinergia entre o vírus, outras afecções de saúde e padrões sociais em um coquetel que repercutiu com maior força nas realidades de grupos sociais vulneráveis. Ao mesmo tempo, como foi documentado pela CEPAL, eles absorveram a maior carga de dedicação às necessidades de cuidado, forçando as mulheres.  Nas grandes cidades, essa sobrecarga operou de maneira mais crua para quem vivia em situações de marginalidade urbana.

Na América Latina, os cuidados caem desproporcionalmente sobre os lares e, especificamente, sobre as mulheres, que dedicam o triplo do tempo que os varões a estas tarefas. O mapa da economia do cuidado é caracterizado por uma alta informalidade laboral e desigualdades intersetoriais marcadas que se agravam no cruzamento com fatores étnicos, de idade e de nível socioeconômico, afetando especialmente as mulheres rurais e pobres que carecem de recursos para terceirizar essas áreas.

Além de serem aquelas que trabalham em trabalhos de cuidado, ao voltar para suas casas aumenta o tempo e o dinheiro que devem ser investidos no acompanhamento de pessoas com afetos de saúde de suas famílias e seus bairros.  Em matéria de prevenção, todo o tempo que estiver disponível para chegar aos controles médicos e aos recursos com aqueles que os contam são escassos.

Esta crise dos cuidados se agrava em contextos de marginalização urbana e degradação ambiental, onde a falta de infraestrutura básica (como água corrente ou saneamento) faz com que este trabalho seja hoje mais pesado e arriscado para a ação e os cuidados das cuidadoras.

Nos grandes conglomerados urbanos latino-americanos, a exclusão econômica consolidou um modelo estrutural que a epidemiologia crítica caracteriza como “malsano”, que restringe o direito à saúde dos setores segregados.  Os riscos ecológicos, como a contaminação hídrica, os lixões crônicos e a infraestrutura deficiente, são distribuídos de maneira desigual nas cidades, gerando múltiplas formas de injustiça socioambiental.  Sob esta lógica, o ambiente degradado não é um cenário físico simples; a crise ambiental se encarna nos “corpos-territórios” das populações segregadas, moldando seus processos de saúde, enfermidade e morte.  Assim, as ameaças do ambiente são parte de uma violência estrutural que define quem está mais exposto ao parto e abaixo das condições que devem sustentar a vida.

Um exemplo significativo de injustiça ambiental é a Área Reconquista (AR) na Grande Buenos Aires, na Argentina. Trata-se de um território marcado pela proximidade do complexo de aterros CEAMSE Norte III e pela cuenca contaminada do Rio Reconquista que evidencia como a segregação urbana confina aos setores vulneráveis ​​e ambientes degradados.  Ali, muitas famílias construíram suas casas sobre solos de humedal aos que lograram acessar, rellenando com escombros e basura para elevar seus terrenos e evitar inundações, uma tarefa difícil frente à intensificação das chuvas que trae a mudança climática, a insuficiente coleta de lixo das valas e a presença histórica do rio. A população convive com a emanação de gases – como o gás metano – e odores fortes do basural, como também o humor da questão dos cabos nos lixões crônicos do bairro, o que provoca afecções concretas: problemas respiratórios crônicos como a Enfermidade Pulmonar Obstrutiva Crônica (EPOC), diarréia por água contaminada e lesões dermatológicas graves nas áreas  infância.

Diante desses cenários, as mulheres são as que querem se encontrar com mais explicações.  Ao permanecer por mais tempo nos bairros, seu contato com os lixões crônicos e os contaminantes é maior que o dos homens.  Em seu papel de cuidadores, são as primeiras a detectar os riscos ambientais através das afecções de saúde de quem cuida.  É a partir dessas atividades de cuidado que as mulheres não reconhecem e acionam apenas os impactos do meio ambiente nas pessoas e em seus territórios, mas também ocupam um lugar chave diante da crise climática atual.

O cuidado ambiental: um trabalho chave, mas ainda invisibilizado

O trabalho como cuidadoras de mulheres de setores vulneráveis ​​de forma múltipla como os da Área de Reconquista, não se limita às paredes de sua casa, nem na criação de seus próprios filhos: implica uma ação coletiva que sustenta o bem-estar de todo o bairro.  Desde espaços de cuidado comunitários e mesas locais se envolvem no sustento de ollas populares, apoio escolar e contenção diante da violência, saneamento de ruas, praças e arroios, campanhas de descacharre, reciclagem de resíduos, manutenção de huertas e gestão para a ampliação de redes de serviços básicos, entre outros  tareias.

Nestes cenários é clara a relevância do cuidado ambiental, não como um cuidado destinado à formação isolada no ambiente, mas também como uma prática política e coletiva que entrelaça a reprodução da vida com a proteção de um território degradado.  Este conceito permite visibilizar respostas que, operando sob lógica doméstica e comunitária, incorporam o ambiente como uma dimensão fundamental dos cuidados que ele permanece invisível e sem remuneração.  Ao ampliar o cuidado mais ao redor do ambiente doméstico, você reconhece que o bem-estar em contextos de segregação depende de um agenciamento situado que se articula com as pessoas e os territórios, o que explica tanto o conhecimento das mulheres sobre a crise climática como seu papel central na ativação de iniciativas coletivas antes da ausência ou insuficiência de políticas públicas.

Estas tarefas exigem reconhecimento e profissionalização do seu trabalho, com salários dignos e direitos.  Além disso, as vozes desses coletivos de mulheres exigem um diálogo de saberes que validem sua expertise situada na gestão de um território degradado. Diante deste cuidado ambiental, demonstram que o bem-estar não é um fenômeno isolado das condições do território.  Ignorar este vínculo só aprofunda as injustiças socioambientais e obstaculiza uma saída real à crise dos cuidados, pois não existe sustentação da vida possível fora de um ambiente são e digno de habitar.

Tradução automática revisada por Isabel Lima

Autor

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PhD. em antropologia social pela UNSAM. Co-coordenadora do Programa de Pesquisa “Migrantes na Reconquista” (IDAES-UNSAM) e co-coordenadora do grupo de Epistemologia e Pedagogia da rede internacional The Global (De)Centre.

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