No meio do espetáculo mais refinado, comercial e estadunidense por excelência – o Super Bowl –, um porto-riquenho vestido como um vendedor ambulante do Harlem subiu em um carro velho e, sem pedir permissão, pegou o microfone. Ele não veio para se assimilar ou sorrir, nem para agradecer a oportunidade. Ele veio para montar um bairro inteiro no meio de um campo de futebol americano, servir bebidas em uma tendinha, lembrar as mãos sangrando da colheita e fazer 134 milhões de pessoas dançarem. Bad Bunny não ofereceu só um show; ele detonou um ato de insubordinação cultural perfeitamente coreografado, um manifesto político envolto em reggaeton que expôs as feridas de uma América Latina migrante e desencadeou a raiva previsível de uma direita em plena ofensiva geopolítica e doméstica.
Isso não foi mero entretenimento. Foi a ponta de lança de uma batalha pela hegemonia, no sentido mais gramsciano do termo. Enquanto Donald Trump e seus cúmplices vociferam com o maior desprezo nas redes sociais, milhões de latinos, desde avós em Miami e Chicago até jovens na Califórnia e Nova York, se reconheciam em cada detalhe daquele cenário. A mensagem foi clara e confrontadora: esta é a nossa história, esta é a nossa música, este também é o nosso país, e não precisamos de sua aprovação para cantar e dançar, para existir.
Do perreo à sinfonia urbana: a evolução artística de um gênero marginal.
Por décadas, as elites culturais – incluindo muitas dentro da própria América Latina – desprezaram o reggaeton. O rotulou de simples, repetitivo, vulgar, limitado a expressões sexuais explícitas e roupas ostentosas. O show de Bad Bunny elevou a linguagem da rua a uma épica visual e sonora. Ele não abandonou o perreo; o colocou em diálogo com a história.
O momento mais sublime e político foi a transição. Enquanto as coristas dançavam salsa em um elegante conversível vermelho, Bad Bunny, no centro, impunha um ritmo cavernoso e percussivo. Não era uma mistura; era uma conversa geracional com a salsa, gênero criado por migrantes caribenhos e porto-riquenhos nos bairros nova-iorquinos dos anos 70. O reggaeton é o neto rebelde, digital e de rua. Juntos naquele palco, traçaram uma linhagem ininterrupta de resistência sonora. Foi a resposta artística a uma pergunta nunca feita: “De onde vem isso?”. O reggaetonero disse desafiadoramente: de nós. Da nossa capacidade de criar beleza na adversidade.
Este salto qualitativo não é inocente. Demonstra que artistas que nasceram nos bairros marginalizados de San Juan, em Porto Rico, ou do Panamá têm a capacidade, a complexidade e a profundidade para criar e recriar musicalmente suas vivências passadas e presentes no centro do império e contar, a partir daí, sua própria versão da história. Não é mais a música que toca casualmente na festa; é a música que dá sentido à celebração.
A casinha, a tendinha e a colheita: o dicionário visual da migração
Qualquer latino que tenha crescido em uma cidade estadunidense reconheceu instantaneamente esse cenário. Não era uma fantasia; era a memória coletiva transformada em cenário. A casinha porto-riquenha com seus telhados e cores: não é uma cabana pitoresca, é o sonho da casa própria, o núcleo da família extensa, o pedaço da ilha reconstruído no Bronx ou em Orlando.
As cadeiras dobráveis de metal: o móvel universal das festas na garagem, de aniversários da avó, da criança que adormece às 3 da manhã enquanto os adultos seguem dançando. É a cadeira da comunidade, fácil de acomodar e mover porque o espaço interno é pequeno, mas a vontade de festejar é muito grande.
O poste de luz na esquina do bairro, testemunha das brincadeiras infantis, dos amores furtivos e das conversas até tarde da noite. O ponto de referência em um mapa emocional. Um poste que se apaga todas as semanas devido à incompetência das autoridades.
A tendinha da Toñita: este foi um detalhe nuclear. Toñita, proprietária do “Toñita’s Sports Bar & Grill” no bairro de Williamsburg, no Brooklyn, é uma lenda viva. Seu negócio, há décadas, é muito mais do que um bar: é um centro comunitário, um escritório de assistência social não oficial, um refúgio. Vê-la ali, servindo uma bebida para Bad Bunny, era canonizar a figura da matriarca comunitária, aquela que sustenta a rede invisível que o sonho americano desconhece e ignora.
A colheita: o golpe mais duro e poético. Os homens com facões, o suor e o esforço agrícola. É a lembrança da origem, da exploração colonial que forçou migrações em massa. Uma letra que parecia dizer: “Antes que nosso ritmo enchesse seus estádios, nossas mãos encheram suas xícaras de açúcar”.
E então, o clímax: o desfile de bandeiras. Não apenas a porto-riquenha, mas as de toda a América Latina. A mensagem era um tapa na ideia de “América” como propriedade exclusiva de um país. Este continente tem muitos nomes, muitas histórias, e todas elas estão aqui, caminhando por um campo de futebol americano. É a reivindicação de um hemisfério inteiro dentro das fronteiras daquele que se apropriou de seu nome.
A raiva do poder: por que Trump e sua corte reagiram com ódio visceral
As reações não demoraram a aparecer. Donald Trump, em sua plataforma Truth Social, classificou-o como “horrível” e “a pior performance da história”. Comentaristas da Fox News falaram de “lixo”, “vulgaridade” e um “ataque aos valores americanos”. Não criticaram o tom ou a coreografia (uma crítica estética legítima). Seu ataque veio de suas entranhas, carregado de adjetivos ácidos e um desprezo que revelava pânico.
Por que esse medo? Porque eles entenderam a mensagem melhor do que ninguém. Bad Bunny não estava pedindo um lugar à mesa. Ele estava sacudindo a mesa e mostrando que milhões já estavam sentados nela, comendo sua própria comida, falando sua própria língua. O show foi um ato de hegemonia em tempo real: a tomada do símbolo supremo do esporte comercial americano para contar uma história contrária à do “Make America Great Again”. Uma história de diversidade, de resistência migrante, de orgulho racial e de alegria como arma política.
A reação irada prova que o golpe foi certeiro. Gramsci diria que a “trincheira” cultural foi invadida com sucesso. Não é uma guerra de tanques, é uma guerra de significados. E naquela noite, o significado de “americano” se ampliou violentamente, e alguns reagiram por razões poderosas.
Avós dançando: a expansão do público e a emoção coletiva
Um mito caiu: que o perreo é apenas para a geração Z. As câmeras capturaram mães, pais e avós se mexendo e se agitando nas arquibancadas. Em casas por todo o continente, famílias inteiras cantaram “Tití Me Preguntó” e reconheceram a casinha da avó através das imagens da mais sofisticada tecnologia.
A emoção desencadeada não era pela fama de Bad Bunny, mas pelo ato de reconhecimento. Pela primeira vez em um palco desse calibre, a experiência migrante latina não era a piada, o estereótipo ou o fundo exótico. Era o protagonista absoluto, com toda a sua textura: a nostalgia, o esforço, a comunidade, a festa como catarse. Aquelas lágrimas eram a surpresa de se sentir plenamente visto, sem filtros nem desculpas. O reggaeton, assim, completou seu ciclo: de música de quarto escuro a hino geracional transversal, capaz de unir a diáspora em um único grito de pertencimento.
Além do show: o amanhecer de uma narrativa
Isso constitui uma narrativa alternativa à de Trump? Acredito que vai além; é sua antítese em “tempo real” e seu maior pesadelo. Tudo isso por diversas razões, cada uma das quais pode ser amplamente debatida e enriquecida:
Essa narrativa gera uma resposta emocional poderosa. Enquanto Trump mobiliza com o medo e a nostalgia de um passado branco imaginário, essa narrativa mobiliza com o amor, a alegria combativa e a nostalgia de uma origem real e compartilhada. Além disso, abrange um tempo histórico, conecta o passado agrícola colonial, o presente urbano migrante e projeta um futuro de união latino-americana (as bandeiras). Uma epopeia em 12 minutos.
Este discurso também foi instantaneamente decodificável para sua comunidade: cada símbolo era uma palavra em uma língua que 63 milhões de latinos nos EUA entendem perfeitamente. Não houve necessidade de tradução. E, por sua vez, provocou uma reação do adversário: a fúria da direita é o certificado de autenticidade de seu poder disruptivo.
Finalmente, definiu o campo de batalha. De um lado, o nacionalismo excludente, branco e nostálgico. Do outro, o arquipélago latino diverso, mestiço, multicolorido, que proclama que “o amor é mais forte que o ódio”, o lema final que brilhou nos grandes telões do estádio.
O halftime show do Bad Bunny foi muito mais do que um concerto. Foi a tomada da Bastilha cultural. Ele demonstrou que a verdadeira força nem sempre está no poder político formal, mas na capacidade de contar a história que milhões vivem. E essa história, contada através da arte da música e da dança, é imparável. Essa batalha pela hegemonia se apresenta como decisiva em uma guerra que começou com força no início deste século e que, uma década antes, havia sido anunciada por Samuel Huntington em seu livro O Choque das Civilizações.
Tradução automática revisada por Isabel Lima










