A disputa que atualmente opõe o Equador à Colômbia, retratada como uma guerra comercial, é, na verdade, sintoma de algo mais delicado: poderia marcar o início do colapso da cooperação prática necessária para governar uma fronteira e uma economia regional que já não se move só por limites geográficos, mas por redes criminosas transnacionais.
Quando esses dois vizinhos substituem a coordenação técnica por sanções econômicas, o problema deixa de ser bilateral e se torna um multiplicador de custos para toda a região andina. O Equador justificou a taxa de segurança de 30% sobre bens colombianos alegando falta de cooperação contra o narcotráfico, enquanto a Colômbia respondeu aplicando uma de 30% sobre mais de vinte produtos equatorianos e suspendendo a venda de energia elétrica. Ao mesmo tempo, sabe-se que o déficit comercial do Equador com a Colômbia foi de US$838 milhões nos primeiros dez meses do último ano para o qual há dados disponíveis, e que a Colômbia exportou US$1,67 bilhão para o Equador nos primeiros onze meses. Portanto, não estamos falando de um intercâmbio marginal, mas de uma troca em larga escala envolvendo medicamentos, insumos industriais, agroquímicos e bens de consumo.
Mas o argumento subjacente do Equador não é o déficit, mas a segurança, e aqui surge a questão que deve nortear qualquer editorial: a fronteira é o problema ou é um reflexo de um problema maior? Antes, as drogas cruzavam pela fronteira, e ainda o fazem. No entanto, seria um erro acreditar que o narcotráfico contemporâneo depende principalmente de travessias terrestres. O que mudou não foi a existência do fluxo, mas sua estrutura: o negócio não está mais ligado a uma linha fronteiriça como único corredor, mas sim conectado a uma cadeia multinódica que inclui portos, contêineres, rotas marítimas, lavagem de ativos, corrupção e controle prisional.
O Equador registrou 9.216 assassinatos em 2025, frente aos 7.063 em 2024, representando um aumento de 30% em apenas um ano, segundo dados do Ministério do Interior. Não se trata de um aumento marginal, mas sim um indicador de um Estado pressionado por guerras entre gangues e realinhamentos criminosos. Portanto, para entender por que a violência disparou no Equador, apesar de o país não ser um grande produtor de coca, é preciso analisar seu papel como país de trânsito. Algumas fontes oficiais indicaram que, em 2024, operações do Bloco de Segurança apreenderam 278 toneladas de drogas (28% a mais que em 2023), um número que, por si só, demonstra a magnitude do corredor equatoriano no mapa regional.
O Ministério da Defesa informou que, até 30 de outubro de 2025, 135 toneladas haviam sido apreendidas em operações marítimas. Esse número é relevante porque confirma que o corredor de drogas não se limita mais à travessia da fronteira: ele também inclui rotas marítimas e logística portuária. Portanto, quando o conflito bilateral é apresentado como consequência da fronteira, uma rede complexa e multifacetada é simplificada em excesso. A oferta também pressiona no lado colombiano; por exemplo, sabe-se que em 2023 a Colômbia atingiu 253.000 hectares de cultivo de coca (10% a mais que em 2022) e uma produção potencial de 2.664 toneladas de cocaína (53% a mais que no ano anterior). Esse aumento intensifica a competição por rotas e a necessidade de escoamento para mercados externos. Em outras palavras, mesmo que uma rota seja fechada, o tráfico encontra outra. E quando os custos do comércio legal aumentam devido a tarifas, atritos ou controles improvisados, o incentivo ao contrabando e à apropriação de lucros ilícitos também aumenta.
A ideia de que tudo se deve às plantações também é incompleta. O cultivo é a origem, mas o problema reside na cadeia de suprimentos. O Equador não precisa cultivar coca em larga escala para se tornar um centro de distribuição; basta ser uma plataforma logística e financeira. Nesse contexto, a fronteira funciona como um centro para combustível, armas, pessoas, mineração ilegal, cobranças ilegais de gangues e drogas. A fronteira importa, mas por si só não explica o colapso da ordem no Equador. Por essa razão, o governo Noboa declarou estado de conflito armado interno em 9 de janeiro de 2024 e designou 22 grupos como organizações terroristas, numa tentativa de fortalecer a resposta do Estado e justificar a intervenção militar na segurança interna, que até então havia sido limitada.
Nesse contexto, vale a pena fazer outra pergunta que ajuda a compreender o problema em sua totalidade: as FARC estão mais divididas? A resposta é sim, e essa fragmentação também é importante para o Equador. Um relatório do governo australiano indica que, após a dissolução das FARC, surgiram mais de 30 grupos dissidentes, não monolíticos, com facções e alianças em constante mudança. O relatório estima ainda uma força coletiva entre 4.000 e 8.000 membros, com atividades criminosas ligadas ao tráfico de cocaína, mineração ilegal e extorsão. Portanto, a fragmentação por si só não exporta automaticamente a violência, mas multiplica o número de atores que competem por rotas, cobram por proteção e buscam parceiros logísticos. E quando o lado equatoriano tem gangues locais fortes e um sistema prisional infiltrado, a conexão se torna funcional: não é Colômbia contra Equador, mas um mercado regional para serviços criminosos complementares.
É aqui que o enfoque de represália econômica se torna estrategicamente inadequado. Se o objetivo é melhorar a segurança, as tarifas não apreendem cocaína nem desmantelam redes. Se o objetivo é pressionar por cooperação, romper os canais de coordenação torna os esforços conjuntos mais caros e lentos. E se o objetivo é político, o custo pode superar o benefício: os consumidores pagam mais, as empresas reconfiguram suas cadeias de suprimentos e territórios fronteiriços como San Lorenzo e o norte de Esmeraldas ficam ainda mais expostos a economias ilegais que prosperam com o atrito estatal.
Convém olhar para a história para não repetir os erros. A Colômbia já viveu um ciclo em que a violência e o narcotráfico pareciam ingovernáveis. No início da década de 1990, Medellín atingiu taxas de homicídio de 381 por 100 mil habitantes, segundo o Banco Mundial, no auge do terror urbano ligado às economias criminosas. E isso levanta uma terceira questão: o que a Colômbia fez? Isolou-se, como o Equador ameaça fazer hoje em termos comerciais? A resposta, com todos os seus problemas e controvérsias, foi uma combinação de fortalecimento do Estado, reformas e, sobretudo, apoio internacional em massa.
O Plano Colômbia, iniciado em 2000, recebeu um impulso inicial de US$1,3 bilhão do governo dos Estados Unidos, e a assistência acumulada ultrapassou US$10 bilhões nos anos subsequentes, segundo relatórios do Congresso estadunidense. Esse apoio se traduziu em capacidades como inteligência, mobilidade aérea, interdição, treinamento e fortalecimento institucional. Os custos humanos, os efeitos sobre os direitos humanos e a eficácia final podem ser debatidos, mas um fato é difícil de ignorar: a Colômbia não resolveu seu problema isolando-se, mas sim, em grande medida, integrando-se a esquemas de cooperação e financiamento. O Equador encontra-se numa encruzilhada parecida, embora não idêntica.
Os dados sobre homicídios mostram uma forte pressão interna, os números das apreensões demonstram que o país se situa na principal rota do tráfico, especialmente a marítima, e a fragmentação dos atores armados e criminosos no norte aumenta a complexidade. Neste contexto, transformar a disputa com a Colômbia numa guerra tarifária é como tentar apagar um incêndio com gasolina: pode gerar aplausos imediatos, mas também abre as portas para os verdadeiros beneficiários do atrito – o contrabando, a corrupção e as redes criminosas – e, além disso, encarece o comércio formal, que sustenta empregos e o abastecimento legal.
A saída é conceber uma cooperação verificável, com metas e números concretos, e não só com comunicados. Se o Equador acusa a Colômbia de falta de cooperação, que apresente indicadores claros do que exige: quantas operações conjuntas espera, quantos alvos de alto valor, quantos controlos coordenados, quanta rastreabilidade portuária partilhada, quanta informação judicial trocada. E se a Colômbia responder, que esses números sejam transformados em protocolos sustentáveis, e não em munição política. Porque a questão fundamental, aquela que deveria permanecer sem resposta após analisar esta situação, não é se as drogas eram usadas para atravessar a fronteira — um debate antigo e estéril — mas sim se os estados andinos irão lutar entre si enquanto as economias ilegais, que são globais, estão mais coordenadas do que nunca.
A integração não é testada em anos de calmaria; ela é testada quando a criminalidade aumenta, a violência se intensifica e a política busca atalhos.
Tradução automática revisada por Isabel Lima










