O conflito no Oriente Médio está entrando no segundo mês, enquanto a guerra na Ucrânia já dura mais de quatro anos. Ambos os conflitos tiveram fortes repercussões nos mercados energéticos, além de terem afetado os mercados agrícolas: aumento de preços, maior volatilidade, interrupção na oferta e problemas de abastecimento. As crises evidentes apresentam um novo contexto, no qual as decisões de consumo, investimento e financiamento são afetadas pela geopolítica.
Além de tensões e conflitos que se sobrepõem no âmbito militar, há também as guerras de narrativas em torno da transição energética. Independentemente das escaramuças, fica evidente que as fontes limpas serão as vencedoras desta última disputa. Às suas credenciais ambientais, somam-se as vantagens econômicas: os avanços tecnológicos mostram que a geração de energia a partir de fontes renováveis é a mais barata em qualquer lugar do mundo. A isso se soma o caráter universal de sua disponibilidade, bem como a gratuidade que apresenta o recurso associado ao custo marginal nulo. Em outras palavras, avançar com a transição é romper com a dependência fóssil.
Convocados pelos Países Baixos e pela Colômbia, nos últimos dias de abril, representantes de mais de cinquenta países se reuniram na cidade colombiana de Santa Marta para discutir a transição energética. A referida conferência reuniu um quinto dos produtores e mais de um terço dos consumidores, cujos líderes entendem que avançar com a transição não é uma obrigação ética, mas uma aposta estratégica para o futuro. E, certamente, a conferência chega em um momento tão oportuno quanto crítico. Após mais de um mês de conflito no Oriente Médio, o aumento nos preços do petróleo e do gás custou até 111,6 bilhões de dólares a empresas e famílias. O outro lado da moeda são os lucros extraordinários que as empresas petrolíferas embolsam, estimados por diversos estudos em mais de 30 milhões de dólares por hora.
O conflito não só provoca aumentos nos combustíveis, com repercussão imediata no bolso dos motoristas e no preço do transporte. Também afeta a conta de luz e o fornecimento de fertilizantes. Tudo isso se reflete no índice de preços da energia publicado pelo Banco Mundial, com um aumento de 41,6% após o início do conflito, o que se explica pelo barril de petróleo Brent estar acima de US$110, enquanto os preços dos fertilizantes aumentaram 26,2% desde o início do conflito.
Mas o conflito não só fez os preços subirem, como a escalada bélica impactou a infraestrutura da maioria dos países da região. Trata-se de uma disrupção na oferta de grande magnitude, já que mais de 20% do petróleo e do gás passam pelo estreito de Ormuz. Nessas circunstâncias, é improvável que os preços voltem aos níveis anteriores no futuro imediato.
O conflito mostra que depender de combustíveis fósseis é economicamente oneroso, além de extremamente arriscado do ponto de vista estratégico. Embora a maioria dos participantes da referida conferência venha da Europa e da América Latina, talvez alguns dos ausentes sejam justamente aqueles que decidem avançar mais rapidamente com a transição. Essa afirmação decorre da observação do efeito que a guerra está causando na Índia, Coreia do Sul, Filipinas, Indonésia e outros países asiáticos, mas também em território europeu.
As Filipinas são um dos países mais afetados pela guerra no Irã, com aumentos no preço do diesel que pressionam a inflação e, ao mesmo tempo, geram forte descontentamento social. Como importador de combustíveis, a economia do país fica exposta às oscilações do mercado petrolífero, bem como às consequentes contas elevadas que afetam sua balança comercial, como ficou evidente em 2022. As tensões geopolíticas em torno do Mar do Sul da China levaram as autoridades do país a recusar a cooperação no passado, uma atitude que atualmente está sendo reconsiderada: a guerra destaca a necessidade imperativa da transição.
Mas os aumentos de preços também induzem mudanças de comportamento, pelo menos entre aqueles com capacidade de trocar de carro ou instalar painéis solares em suas casas. Considere, por exemplo, a atitude adotada em 2022 pelo governo do Paquistão, que decidiu avançar com a difusão de energias renováveis. Conforme destaca um estudo recente do centro de pesquisas em energia e ar limpo (CREA), tal decisão permitiu que o país economizasse mais de 12 bilhões de dólares graças à instalação de painéis solares em residências, estabelecimentos agrícolas e fábricas. Entre o fim de 2021 e dezembro de 2025, a participação da energia solar na geração de eletricidade quintuplicou, o que reduziu o uso do gás natural, permitindo ao governo revender o excedente nos mercados internacionais.
As decisões de investir em energias renováveis não surgem com força só entre os asiáticos. Um estudo recente da Clean Air Task Force destaca a continuidade dos projetos de energia limpa no continente africano, uma decisão considerada estratégica para atender à crescente demanda observada na região, que promete investimentos de mais de 100 bilhões. Vale ressaltar que os fundos provêm de um grupo de investidores do Catar, Kuwait, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Bahrein.
Um relatório do Banco da Espanha indica que, em 2024, o preço no atacado da eletricidade ficou 40% mais barato do que em 2019, devido à crescente relevância das energias renováveis na geração. Tudo isso explica a decisão de acelerar o investimento em energias renováveis, redes de transmissão e eficiência energética adotada pela Comissão Europeia (COM/2026/116), envolvendo o Banco Europeu de Investimento com mais de 75 bilhões, um montante que serviria para alavancar projetos de valores muito maiores.
A isso poderia somar-se o crescente interesse em carros elétricos que se observa na Europa e nos Estados Unidos, devido ao forte aumento dos preços dos combustíveis após o início do conflito. Um alerta para os terminais tradicionais, que continuam lutando para adiar a regulamentação ambiental.
Nos círculos especializados, a guerra no Irã é vista como disruptiva, mais um “momento COVID” que altera a forma como governantes e empresários encaram a questão energética. Ao pensar em investir em uma nova fábrica, como resolvo a questão energética? Abastecê-la com gás ou apostar nas energias renováveis? Continuo investindo em veículos com motor de combustão interna ou invisto em linhas de produção de veículos elétricos?
Os investidores observam os riscos de manter seus ativos em empresas petrolíferas, enquanto a rentabilidade dos fundos de investimento em energia limpa cresce acima da média global. As discussões em Santa Marta geraram avanços notáveis, incluindo a criação de um painel científico sobre transição energética. Avançar nessa direção é imperativo, pois os riscos climáticos crescem mais rápido do que o esperado.
Tradução automática revisada por Isabel Lima










