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Novos rituais de bem-estar na América Latina

Cada vez mais latino-americanos buscam, em novos rituais de bem-estar, algo que as instituições tradicionais parecem não oferecer mais.

Meditar, fazer um mapa astral, praticar mindfulness, usar incenso para limpar as energias, mergulhar em banhos de gelo ou participar de cerimônias são práticas muito distintas. No entanto, todas fazem parte de algo maior: a expansão de novos rituais contemporâneos de bem-estar, regulação emocional e busca por sentido. O “alternativo” já não é tanto assim.

Há apenas alguns anos, muitas dessas experiências eram vistas como fenômenos marginais. Hoje, fazem parte de conversas cotidianas, recomendações entre amigos, conteúdos virais nas redes sociais e até mesmo de programas corporativos de bem-estar. Os dados mostram que não se trata de uma moda passageira. Na Argentina, um estudo da consultoria de mercado Voices! revela que a porcentagem de pessoas que realizaram pelo menos uma dessas práticas passou de 55% em 2022 para 70% em 2026.

O fenômeno não se manifesta só em mais pessoas praticando-as, mas também em uma maior diversidade de experiências por pessoa: de uma média de duas práticas em 2022 para três em 2026. Quem já as pratica combina cada vez mais ferramentas distintas. Isso sugere que não estamos diante de consumos isolados, mas sim da consolidação de verdadeiros ecossistemas pessoais de bem-estar.

O crescimento não é homogêneo: é mais acentuado entre as mulheres (tradicionalmente mais legitimadas socialmente para explorar as dimensões emocionais e de cuidado) e entre os setores socioeconômicos mais elevados (que têm maior acesso econômico, capital cultural e exposição a discursos internacionais sobre wellness). Entre as práticas que mais cresceram estão a limpeza energética das casas com incenso ou velas especiais — de 30% para 36% — junto com Reiki, suplementos naturais, registros akáshicos e alinhamento de chakras. Mais do que práticas estritamente espirituais, essas experiências combinam regulação emocional, autocuidado, rituais diários e uma necessidade de conexão. A novidade não é a sua existência — algumas têm milhares de anos —, mas sim a sua legitimação social e ampla adoção.

O fenômeno também não é uniforme em toda a região. No México, práticas ancestrais como o temazcal ou purificações espirituais coexistem com uma indústria urbana de wellness que as redefiniu como experiências de alto valor. Na Colômbia, o crescimento do bem-estar se entrelaçou com processos coletivos de cura em contextos pós-conflito. No Chile, onde a religiosidade tradicional está em forte declínio entre os jovens, proliferaram espaços que combinam regulação emocional com uma dimensão comunitária. Um relatório da consultoria Kantar confirma a tendência regional: 60% planejam passar mais tempo na natureza, 40% buscarão massagens e relaxamento, 35% aumentarão a prática de yoga e meditação e 24% usarão aromaterapia.

A América Latina não começou do zero com essas práticas. Possui um fundamento de saberes ancestrais vivos — tradições indígenas e afro-diaspóricas de cuidado, cura e rituais — que antecedem o mercado. No Brasil, Bolívia e Peru, práticas como o uso cerimonial de plantas, a medicina andina e rituais de origem africana têm reconhecimento legal, comunitário e institucional. Essas práticas já existiam, mas hoje estão sendo reinterpretadas: em alguns casos, há uma genuína revalorização por parte das comunidades; em outros, uma absorção pelos mercados que as reformulam como experiências de consumo, simplificando sua complexidade original. O Brasil vai ainda mais longe: seu sistema público de saúde incorporou meditação, ioga, acupuntura e terapias corporais às estratégias de atenção primária, com mais de doze milhões de atendimentos registrados entre 2017 e 2022.

Talvez uma das transformações mais interessantes seja a espiritual. Estudos do Pew Research Center mostram que, embora a filiação a religiões tradicionais esteja diminuindo na América Latina, as crenças espirituais permanecem muito fortes mesmo entre aqueles que se definem como não religiosos. A necessidade espiritual não desaparece: o que muda são as formas como essa busca se expressa. Formas mais flexíveis e individualizadas estão surgindo: astrologia, rituais, energias, tarô, meditação, cerimônias.

A expansão da meditação é um exemplo disso. Um estudo global realizado pela rede de pesquisas WIN e pela consultoria Voices! em 40 países mostra que a prática de meditação e mindfulness aumentou de 29% para 35% em todo o mundo entre 2018 e 2025.

Esse fenômeno não pode ser explicado apenas pela perspectiva da saúde mental, embora a pandemia tenha atuado como um acelerador em uma região já bastante afetada por ansiedade e exaustão. Ele também reflete mudanças mais amplas nas formas de viver e se conectar. Pesquisas recentes sobre relacionamentos e bem-estar na Argentina, por exemplo, revelam uma crescente sensação de desconexão emocional e um enfraquecimento dos laços sociais tradicionais. Nesse contexto, esses rituais muitas vezes funcionam não apenas como ferramentas individuais, mas também como espaços de pertencimento e apoio emocional.

Essa expansão também ressoa com a crise de confiança nas instituições tradicionais. Diante de modelos percebidos como frios ou excessivamente protocolares, há uma crescente busca por respostas mais personalizadas e humanas. O pesquisador argentino Nicolás Viotti propõe considerar essas práticas como novas formas de construir o bem-estar relacional, que não pode mais ser compreendido apenas como religião ou terapia: elas oferecem uma técnica, uma estrutura de significado e, muitas vezes, uma comunidade.

A cultura digital desempenhou um papel central em sua legitimação. Paradoxalmente, essas práticas oferecem justamente o que o mundo digital torna mais escasso: silêncio, presença física, toque e escuta. Até mesmo a inteligência artificial ocupa um lugar inesperado: 31% dos argentinos já conversaram com sistemas de IA sobre questões pessoais ou emocionais, com uma porcentagem maior entre jovens e trabalhadores remotos. Em ambos os fenômenos — wellness e IA emocional — parece haver uma necessidade compartilhada de ser ouvido e apoiado, uma necessidade que as instituições tradicionais não conseguem satisfazer plenamente.

No entanto, essa expansão também levanta questões. O bem-estar é, além de ser uma busca genuína, uma indústria global multibilionária. Vale a pena questionar se parte da ansiedade que impulsiona essas práticas é produzida pelos próprios sistemas que oferecem retiros de meditação como solução. E o fato de esse fenômeno ser mais pronunciado em setores socioeconômicos mais altos serve como um lembrete de que o bem-estar também tem um preço. A questão em aberto é se essa expansão representa uma genuína democratização do cuidado emocional ou se coexiste com novas formas de desigualdade no acesso a ferramentas para lidar com o sofrimento.

A ascensão dessas práticas não se resume ao bem-estar, mas revela algo mais profundo: que, em sociedades hiperconectadas e emocionalmente exigentes, cada vez mais pessoas sentem a necessidade de reaprender a respirar, a fazer uma pausa e a habitar o próprio ser.

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Diretora da consultoria argentina Voices. Membro do Conselho de Administração da WAPOR Latinoamérica, a seção regional da Associação Mundial de Pesquisa de Opinião Pública.

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