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Como a máfia albanesa opera na América Latina?

Os clãs albaneses foram os primeiros a impulsionar o tráfico de cocaína da América Latina para a Europa. Na nova edição do DP Enfoque 20, Arturo Torres investiga o modus operandi do grupo criminoso.

Três fatores foram cruciais para que a máfia albanesa e outros clãs balcãs transformassem o Equador em uma incubadora do crime transnacional: a fraqueza institucional e a corrupção latentes nos órgãos de controle, uma economia dolarizada com incipientes controles antilavagem de dinheiro, bem como o aumento significativo da produção e da demanda por cocaína na Europa.

No Velho Continente, o mercado da droga quadruplicou nos últimos 15 anos. Nesse período, quase todos os países da América Latina se tornaram elos importantes no tráfico de cocaína, seja como produtores, processadores, transportadores da droga ou paraísos para a lavagem de dinheiro. A região produz agora mais do que o dobro da cocaína produzida há uma década. O cultivo de coca na Colômbia, origem da maior parte dessa droga no mundo, triplicou, chegando a 3.000 toneladas anuais, segundo dados da ONU.

Os primórdios

Por volta de 2009, os primeiros albaneses chegaram ao Equador. Eles seguiam as diretrizes da máfia italiana Ndrangheta, que buscava acesso direto à compra de cocaína da Colômbia para comercializá-la na Europa. Os albaneses encontraram uma série de vantagens, especialmente na cidade litorânea de Guayaquil, com uma estrutura robusta de oito portos. A maioria se dedicava à exportação de banana e outros produtos para a Europa e outros continentes. Eles perceberam que as exportações, devido ao grande volume de carga em contêineres, seriam um meio ideal para o transporte da droga.

Naquela época, o foco das investigações policiais eram os embarques de drogas pelas praias e portos artesanais de Manabí e Esmeraldas, em lanchas rápidas com destino à América Central e aos Estados Unidos. O cartel de Sinaloa era hegemônico, não tinha concorrentes à altura para transportar pelo Equador, por via terrestre, marítima e aérea, a droga que lhe era vendida pelos narcotraficantes colombianos. Seu parceiro no Equador, responsável pelo transporte e pela logística, era a gangue Los Choneros.

Em 2007, Rafael Correa acabara de assumir o poder e tomou uma série de decisões que marcariam irreversivelmente o rumo do Equador no que diz respeito ao enfraquecimento do controle antidrogas. A partir de 2008, rompeu formalmente as relações com a Colômbia e, de fato, com os EUA. O gatilho foi o bombardeio por aviões colombianos ao acampamento das FARC em Agostura.

Isso implicou na suspensão abrupta do intercâmbio de informações, da cooperação e das operações conjuntas contra grupos de narcotraficantes na fronteira. Correa desmantelou os sistemas de inteligência que coordenavam ações com a Colômbia e os EUA. Retirou da Marinha as competências de controle portuário, transferindo-as para o Ministério dos Transportes. Desde então, a vigilância marítima ficou sem liderança. A cereja do bolo foi a aprovação, na nova Constituição (2009), do conceito de Cidadania Universal, que permite a entrada de qualquer estrangeiro sem a necessidade de visto nem de antecedentes criminais. Poucos meses após o início dessas entradas, redes do crime organizado da Rússia, do Oriente Médio e da China abriram novas rotas para o tráfico de pessoas com destino aos EUA.

Modus operandi

Embora inicialmente o plano dos albaneses fosse se estabelecer na Colômbia, eles preferiram testar sua fórmula criminosa no Equador: Guayaquil foi seu principal laboratório.

Naqueles primeiros anos, o albanês Arber Çekaj chegou àquela cidade portuária. Ele fundou uma empresa de exportação de banana, que usou para esconder narcóticos em navios cargueiros, atuando como representante da ‘Ndrangheta italiana. Na mesma época, Dritan Gjika — figura de destaque da máfia albanesa — chegou ao Equador com um visto de visitante temporário. Em 2012, chegou Dritan Rexhepi, considerado o chefão pioneiro do cartel transnacional albanês “Compañía Bello” no Equador.

Inicialmente, eles ficavam de um a dois meses; depois, passaram a ficar permanentemente. Eles obtinham documentos de identidade falsos no Registro Civil ou pagavam por vistos de residência permanente ou de investidores. Além disso, casavam-se com equatorianas, pagando-lhes para que se prestassem à simulação.

Por meio de colaboradores locais, identificaram brechas no sistema societário e bancário. Começaram a comprar e constituir dezenas de empresas exportadoras de frutas e frutos do mar. Eles adotaram a fachada de jovens empresários. Isso os impulsionou a se infiltrar com relativa facilidade na alta sociedade de Guayaquil (conhecida por seu espírito ousado nos negócios). Aprenderam espanhol rapidamente, além de outros idiomas. Com essa estratégia, teceram contatos e tornaram-se bons amigos de empresários, políticos, altos oficiais da Polícia e da Marinha, juízes e promotores. Era o início do contágio

O contágio institucional

Discretamente, essas estruturas dos Balcãs se infiltraram nas instituições da sociedade equatoriana. Seu objetivo era assumir o controle de partes-chave da cadeia de abastecimento de cocaína e desencadear uma enxurrada de drogas na Europa: um mercado anual de cocaína de mais de 12 bilhões de dólares. Foram justamente esses lucros que lhes permitiram diversificar seu portfólio de receitas, não se limitando apenas ao tráfico de drogas, cujas receitas foram investidas em outras atividades, como a mineração ilegal de ouro. Segundo estimativas oficiais, endossadas pelo presidente Daniel Noboa, atualmente as economias criminosas, lideradas por máfias dos Balcãs, têm receitas de cerca de 26 bilhões de dólares, o equivalente a 20% do PIB.

Esse lucrativo negócio criminoso traz graves consequências. Desde 2021, a insegurança se alastrou em Guayaquil e, com o passar dos anos, se espalhou para as principais cidades do país, incluindo Quito. Cerca de 50 gangues operam atualmente no Equador. Grande parte desses grupos presta serviços, indistintamente, para transportar e armazenar a coca no Equador para os cartéis, não apenas dos Balcãs, mas também de Sinaloa e Jalisco Nova Geração. As disputas para dominar mais territórios para a prática de crimes desencadearam a violência.

Em janeiro de 2024, o governo declarou estado de guerra contra os grupos criminosos, mas sem um rumo claro para reverter esse fenômeno. A taxa de homicídios passou de 6 para 50,9 mortes violentas por cada 100 mil habitantes entre 2019 e 2025. O Equador se tornou o país mais violento e inseguro da América Latina em apenas quatro anos.

Em meio a essa crise, os EUA e a União Europeia aumentaram significativamente sua cooperação a partir de perspectivas distintas, mas complementares. A abordagem europeia é mais abrangente. Ela busca combater as causas estruturais da criminalidade por meio de capacitação, apoio a programas sociais e intercâmbio de inteligência. Os EUA mantêm uma linha de fornecimento de equipamentos e infraestrutura para as forças de segurança, bem como de inteligência. Apesar de todos os seus esforços, com ênfase em ações punitivas, com mais militares e policiais nas ruas e prisões constantes de membros das gangues, o Estado não consegue sair da fase de reação e contenção. Perdeu sua capacidade preventiva e de recuperação efetiva dos territórios, cada vez mais extensos, onde impera a governança criminosa.

Até o momento, o governo carece de uma estratégia eficaz e multidimensional para superar a crise de insegurança, que é o principal problema que assola o Equador e ameaça sua sobrevivência democrática.

*Texto publicado originalmente no Diálogo Político

Autor

Jornalista investigativo especializado em crime organizado e corrupção. Dirige o site de notícias Código Vidrio. É coautor dos livros *O Jogo do Camaleão: Os Segredos de Angostura* e *Reféns: Por que os jornalistas do El Comercio foram executados?*, que investigou com María Belén Arroyo.

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