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A hora das transições justas

As múltiplas transições pelas quais a região está passando só serão legítimas se conseguirem enfrentar a crise climática sem aprofundar a desigualdade.

A América Latina e o Caribe constituem uma região atravessada por múltiplas transições. Embora o termo tenha sido utilizado sobretudo para se referir às transições para a democracia, hoje a noção vai muito além do campo político. Fala-se em transições energéticas, ecossociais, urbanas e digitais, entre outras, para enfatizar que a mudança não envolve apenas novos recursos ou tecnologias, mas também a transformação de modelos produtivos, padrões de consumo e visões de mundo. Na região mais desigual do planeta, uma expressão que tem ganhado crescente notoriedade e urgência é a de transição justa. Afinal, os 10% mais ricos concentram 77% da riqueza regional, segundo o Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF). Nesse contexto, qualquer processo de mudança enfrenta um desafio central: que a transição não aprofunde as desigualdades históricas, mas abra caminho para uma transformação verdadeiramente equitativa.

Por que falar de transições justas hoje?

A crise climática que enfrentamos é também uma crise de desigualdade. Pessoas super-ricas e grandes corporações contribuem de maneira desproporcional para o aquecimento global devido aos seus elevados níveis de emissões e ao seu poder econômico e político, segundo relatório da Oxfam (2025). De fato, 86% do 0,1% mais rico do planeta reside no Norte Global, enquanto as consequências das mudanças climáticas afetam sobretudo os países do Sul e grupos historicamente vulnerabilizados, como povos indígenas, afrodescendentes e mulheres. A crise climática, portanto, atua como multiplicadora de desigualdades.

Diante desse cenário, é urgente articular saberes diversos e repensar a organização de nossas sociedades dentro dos limites planetários. Embora muitos setores defendam que a transição energética e o chamado capitalismo verde ofereceriam uma solução integral, sob essas denominações governos e empresas, especialmente do Norte Global, impulsionam uma nova corrida por terras raras, minerais estratégicos e energias renováveis para produzir baterias, veículos elétricos e abastecer tecnologias como a inteligência artificial.

A contradição é evidente: a fabricação dessas soluções “verdes” exige enormes quantidades de energia e minerais extraídos no Sul Global, intensificando impactos e conflitos socioambientais e reproduzindo dependências históricas. Longe de superar assimetrias, as atuais propostas de transição energética, tal como vêm sendo implementadas, tendem a aprofundar desigualdades e consolidar novas formas de colonialismo verde.

Em um contexto de tensões geopolíticas e disputa por recursos estratégicos, a América Latina, rica em lítio, petróleo, cobre e terras raras, torna-se território de competição entre grandes potências, reforçando sua inserção periférica como exportadora de recursos naturais para China e Estados Unidos. De forma premonitória, a recente intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela e o controle das reservas petrolíferas do país, em flagrante violação da Carta da ONU e do direito internacional, estabelecem um precedente preocupante para a região.

Por outro lado, apesar dos graves efeitos da crise climática, persistem o negacionismo, a desinformação e iniciativas voltadas a adiar ou impedir medidas eficazes contra o aquecimento global. A saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris e processos de desregulamentação ambiental promovidos por países como Índia, Argentina e Equador colocam em risco os avanços ecológicos das últimas décadas. Para evitar uma catástrofe maior, é imprescindível promover uma transição rumo a um modelo econômico, político e social verdadeiramente sustentável.

Implicações de uma transição justa na América Latina e no Caribe

O conceito de “transição justa” é herdeiro das lutas do movimento operário e surgiu na década de 1980, quando sindicatos norte-americanos de indústrias dependentes de combustíveis fósseis o utilizaram para defender trabalhadores afetados por novas regulações ambientais. A noção enfatiza a necessidade de considerar quem ganha e quem perde em um processo de transição, bem como os benefícios e impactos negativos gerados por ele.

Nos últimos anos, o conceito ganhou centralidade no debate climático global, destacando que o caminho para a descarbonização deve colocar toda a sociedade no centro, especialmente as comunidades, trabalhadores e grupos historicamente vulnerabilizados. Embora sua interpretação varie conforme o país ou a região, o princípio é claro: nenhum processo de transformação será legítimo se deixar setores inteiros para trás.

Na América Latina e no Caribe, enfrentar a crise climática e concretizar a transição para uma economia sustentável e de baixo carbono exigirá investimentos anuais entre US$ 470 bilhões e US$ 1,3 trilhão (equivalentes a 7% a 19% do PIB regional) em infraestrutura e gasto social, com profundas implicações econômicas e sociais. Isso implicará o fechamento de empresas ligadas aos combustíveis fósseis, mudanças geográficas nos padrões produtivos e perdas de empregos em alguns setores, ao mesmo tempo em que criará oportunidades em áreas como energias renováveis. Também demandará maior qualificação e desenvolvimento de novas competências por parte dos trabalhadores.

O abandono dos combustíveis fósseis terá impactos sobre a infraestrutura regional, os sistemas produtivos e o custo de vida, devido ao possível aumento dos preços de alimentos e transporte. Simultaneamente, poderá reduzir receitas fiscais disponíveis para financiar políticas sociais, impondo desafios adicionais aos Estados.

Nesse contexto, os países da região devem assegurar que esses processos sejam planejados de forma adequada, participativa e justa, garantindo a distribuição equitativa de seus benefícios. Paralelamente, é fundamental prevenir impactos negativos e adotar medidas de mitigação e compensação por meio de políticas de proteção social, redistribuição de renda e geração de emprego, especialmente voltadas às famílias de menor renda e aos grupos historicamente marginalizados.Longe de ser apenas um ideal, existem propostas concretas surgidas na América Latina e no Caribe. Uma delas é o Pacto Ecossocial e Intercultural do Sul, que sustenta que uma verdadeira transição não deve ser apenas energética ou tecnológica, mas uma transformação integral do regime socioecológico, orientada à garantia de condições de vida dignas e à centralidade da justiça social e do combate às desigualdades. Sem isso, a transição não será apenas incompleta, mas também ineficaz.

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Cientista política. Professora de Relações Internacionais e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade (CPDA) da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Doutora em Ciência Política pela Universidade Complutense de Madrid.

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