Uma região, todas as vozes

L21

|

|

Leer en

A politização do mal-estar

O avanço das novas direitas na América Latina não se explica apenas por ciclos ideológicos, mas também pela sua capacidade de transformar o profundo mal-estar social e a anomia em projetos políticos.

Os enfoques que explicam a política latino-americana a partir de mudanças cíclicas — da social-democracia ao neoliberalismo, do populismo ao liberalismo, da esquerda à direita — e que analisam, como variável independente, os governos e movimentos que encarnam esses polos, costumam ignorar uma questão sociológica central. Trata-se de compreender o estado de espírito das sociedades — indivíduos, grupos, classes e instituições — que, mediante a variação de seus votos, tornam possível o surgimento desses governos.

Desde meados dos anos 1990, a ciência política ocidental, e em particular a latino-americana, concentrou-se em explicar essas mudanças políticas relativamente abruptas no que durante anos foi a principal chave conceitual da disciplina: a crise da representação política. Consequentemente, as análises se concentraram no funcionamento dos sistemas políticos — partidos, governos e sistemas eleitorais — e em como reconfigurá-los para torná-los mais previsíveis e estáveis. No entanto, não se percebeu com clareza suficiente que o problema não residia nas possíveis soluções, mas em um diagnóstico insuficiente: a crise da representação política avançava porque a matriz social chamada a ser representada estava se desestruturando de maneira crítica. Em outras palavras, se a política constituía uma das variáveis de análise, faltava considerar a outra: a sociedade.

As mudanças contemporâneas da política latino-americana são mais pronunciadas e abruptas do que em outras regiões do mundo. Passa-se de governos de direita para experiências de esquerda e de socialismos autoproclamados revolucionários para direitas extremas articuladas em torno da batalha cultural. Talvez sejam estas últimas que tenham atraído maior atenção, dado que revoluções de esquerda e governos “revolucionários” existiram ao longo da história contemporânea da região. As direitas extremas, por outro lado, tinham aparecido até agora quase exclusivamente sob a forma dos antigos golpes militares.

O que traz essas direitas extremas?

Por que governos de direita cujos programas buscam desmantelar — sob a ameaça da batalha cultural — tudo o que foi instituído em termos de valores, direitos, novos direitos e igualdades se elegem? De onde surgem os Bolsonaros, Mileis, Bukeles, Kast, Noboas e aqueles que esperam na “reserva”, como a vertente uribista recarregada na Colômbia ou o fujimorismo no Peru? Como podem eles defender programas reativos e/ou reacionários após décadas de conquistas políticas que melhoraram as condições de vida na região?

Uma primeira ideia é que eles souberam instrumentalizar o mal-estar social. Esses movimentos deram formato político a amplas faixas sociais mergulhadas na precariedade, na falta de horizontes, na insegurança dos bairros, na desconfiança institucional, na falta de expectativas e na descrença mais absoluta no Estado. Não se trata só do aspecto econômico, mas da falta de esperança em um futuro melhor. É o que o sociólogo francês Émile Durkheim cunhou no século XIX como anomia. Com isso, ele se referia a um estado social marcado pelo desencanto e pela dificuldade de viver o presente, devido ao peso das expectativas sobre o futuro. Esse estado se manifesta como desânimo e perda de confiança em si mesmo.

Grandes faixas sociais em toda a região vivem talvez nesse estado de anomia. Não se trata apenas de indicadores como desemprego, informalidade ou pobreza, medidos por instituições como a CEPAL. Trata-se da reprodução e ampliação dessas situações, da sensação pessoal e social de que não há pertencimento, não há motivos, não há possibilidades. É essa precariedade que nos leva a comportamentos anárquicos, regressivos e prejudiciais. A insegurança não é apenas o medo do crime, é a falta de confiança nas possibilidades de uma vida melhor.

Por isso, juntamente com a análise política da superestrutura, é imprescindível incorporar esse cenário social. Ao articulá-lo com a política, é necessário pensar que a “virtude” das novas direitas extremas na região tem sido sua capacidade de politizar esse mal-estar. Conseguiram integrá-lo em um projeto que propõe refundar — de forma violenta, se necessário — tudo o que até agora foi estabelecido e aceito normativamente, sob a premissa de que essa institucionalidade só beneficia aqueles que “pertencem”. Nesse contexto, sustenta-se também a ideia de que aqueles que pertencem o fazem a partir da desapropriação daqueles que ficam à margem.

Essa nova forma de mal-estar social encontrou e fortaleceu uma nova política: a direita reacionária. Em seu extremo, o que é chamado de direita NRx.

A partir daí, o segredo é definir qual seria a oposição a essa nova hegemonia política. Poderia ser uma esquerda que apela ao tradicional, e obviamente valioso, imperativo da justiça e da igualdade social? Ou deveria ser uma esquerda que acrescentasse a isso as questões de gênero, meio ambiente e sexualidade? Parece que não, pelo menos é o que indicam os resultados das últimas eleições na região.

Portanto, dá a sensação de que a chamada esquerda e/ou o progressismo político devem refundar suas ideias e agenda política. É preciso questionar as formas, codificações e humores do mal-estar social contemporâneo para gerar expectativas para o futuro. Para que as novas gerações — talvez a chamada Geração Z — encontrem o caminho que entendem lhes ser negado, não servem programas políticos pensados e escritos por líderes de outra época.

Tradução automática revisada por Isabel Lima

Autor

Otros artículos del autor

Doctoranda en Ciencia Política en el Instituto de Estudos Sociais e Políticos de la Univ. do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ). Magíster en Ciencia Política por la Univ. Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO).

spot_img

Postagens relacionadas

Você quer colaborar com L21?

Acreditamos no livre fluxo de informações

Republicar nossos artigos gratuitamente, impressos ou digitalmente, sob a licença Creative Commons.

Marcado em:

COMPARTILHE
ESTE ARTIGO

Mais artigos relacionados