Costa Rica na encruzilhada: certeza histórica diante da volatilidade eleitoral

A Costa Rica enfrenta eleições marcadas pela incerteza e pelo aumento do personalismo político, colocando à prova uma das democracias mais estáveis da América Latina diante de um cenário de volatilidade sem precedentes.

Um clima de imprevisibilidade incomum envolve o processo eleitoral costarriquenho, desafiando a estabilidade arraigada que caracterizou sua vida política durante décadas. A repetição de resultados surpreendentes nas últimas três disputas presidenciais transformou a análise política em um exercício de humildade, onde as pesquisas perderam seu papel de oráculos e qualquer previsão deve ser vista com ceticismo.

Este cenário volátil contrasta profundamente com o extraordinário legado institucional do país. Possuindo uma das democracias mais duradouras e estáveis da América Latina, a Costa Rica construiu sua identidade sobre pilares inalienáveis: a realização ininterrupta de eleições, a alternância no poder por meio de regras claras e a decisão histórica de 1948 de abolir o exército, optando pela supremacia do direito e pela via civil para resolver conflitos.

Nesse contexto, o atual momento de turbulência não é um fenômeno isolado, mas faz parte de uma tendência regional. Assim como em outras nações latino-americanas, o populismo encontrou terreno fértil na Costa Rica. Os partidos políticos tradicionais, outrora canais essenciais de representação e ideologia, viram sua influência diminuída diante da ascensão de figuras personalistas que constroem seu poder apelando diretamente para as emoções do eleitorado, muitas vezes deixando em segundo plano os programas governamentais estruturados.

A próxima disputa, a ser realizada em 1º de fevereiro, exemplifica essa nova complexidade. Um cenário lotado com vinte candidatos à presidência não se traduz em uma competição acirrada. As pesquisas dão uma ampla vantagem à candidata do partido no poder, Laura Fernández, do Partido Pueblo Soberano, que lidera as intenções de voto. Muito atrás aparecem Álvaro Ramos, do Partido Liberação Nacional, Ariel Robles, da Frente Ampla, Claudia Dobles, da Coalizão Aliança Cidadã, e Fabricio Alvarado, da Nova República, enquanto outras candidaturas definham com apoios estatisticamente irrelevantes.

A explicação para essa hegemonia nas preferências é multifacetada. Ela responde a uma estratégia de comunicação governamental permanente e sofisticada, executada com intensidade nas redes sociais, que conseguiu transferir uma popularidade presidencial incomum para a candidata oficial. Esse impulso é potencializado por uma vantagem material decisiva: o acesso a recursos que permitem uma campanha onipresente, diante de uma oposição majoritariamente enfraquecida por uma grave escassez de financiamento.

Além disso, essa oposição sofre de uma fragmentação paralisante. A proliferação de vinte candidaturas não é sinônimo de riqueza democrática, mas a evidência de uma profunda dispersão que atomiza o discurso, desorienta a cidadania e, paradoxalmente, simplifica a disputa ao concentrar a atenção real em muito poucos atores. A incapacidade crônica de construir pontes e alianças programáticas consolida esse panorama, operando como um fator objetivo que favorece o candidato que chega com o apoio unificado da máquina estatal.

O que está em jogo nessas eleições transcende em muito a mera designação de pessoas para cargos públicos. O desfecho pode reconfigurar o panorama político e institucional do país para as próximas décadas, abrindo a porta para reformas substanciais do Estado, modificações no sistema político e até mesmo a possibilidade de um processo constituinte, tudo isso determinado pela correlação de forças que emergir das urnas.

Nesse contexto, a batalha pela Assembleia Legislativa adquire uma importância crítica. Embora tradicionalmente difícil de prever, tudo aponta para uma redistribuição significativa de cadeiras: o governo emerge com possibilidades concretas de ampliar sua bancada de forma substancial, e a esquerda mostra sinais de crescimento, enquanto o centro e a direita tradicionais enfrentam um panorama de contração. A conquista de uma maioria legislativa, seja sozinha ou por meio de coalizões, daria ao próximo governo um poder transformador capaz de alterar o equilíbrio institucional vigente.

Essas dinâmicas levaram analistas a estabelecer comparações prudentes, nunca equivalentes, com conjunturas anteriores em países como Venezuela, Nicarágua ou El Salvador. A atenção se concentra em padrões comuns: legitimidade de origem popular majoritária, erosão dos partidos estabelecidos, oposição desarticulada e uma potencial concentração progressiva do poder no executivo, processos que em outros contextos também começaram com amplos mandatos eleitorais e dentro da formalidade jurídica.

No entanto, atribuir um resultado definitivo a essas tendências seria prematuro. A história eleitoral recente da Costa Rica é um lembrete constante dos limites da previsão. As pesquisas e leituras nas redes sociais delineiam contornos, não destinos, e uma parte considerável do eleitorado reserva sua decisão para o próprio dia da votação, preservando assim uma margem essencial de surpresa.

A Costa Rica se aproxima de um momento decisivo em que a solidez de sua tradição democrática será posta à prova pelas forças da fragmentação e da incerteza. O processo eleitoral não apenas decidirá quem ocupará os cargos de poder, mas também avaliará a saúde do seu sistema político.

A verdadeira vitória, neste contexto, não será apenas para o candidato que alcançar a maioria, mas para a capacidade coletiva da nação de navegar neste período de transição, preservando os pilares do equilíbrio institucional, do diálogo civil e do respeito às normas que, por mais de setenta anos, garantiram sua estabilidade e paz social. O desafio consiste, em última instância, em renovar o contrato democrático sem fraturar seus alicerces.

Tradução automática revisada por Isabel Lima

Autor

Cientista político, ex-assessor da Assembleia Legislativa da Costa Rica, ex-funcionário do PNUD, acadêmico e pesquisador da Faculdade de Ciências Políticas da Universidade da Costa Rica. Diretor da revista de opinião La Revista CR.