A arquitetura da segurança na América Latina atravessa uma transformação devido à consolidação e a projeção transnacional de organizações criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV). Tratam-se de modelos de governança ilícita de alta complexidade técnica para a legitimidade institucional em territórios estratégicos.
Segundo um diagnóstico de especialistas em segurança regional (InSight Crime, 2025), essas estruturas operam hoje mediante a captura de rotas logísticas e exploração de vulnerabilidades no tecido social.
Trata-se de um fenômeno que teve sua origem no sistema prisional brasileiro, que se tornou um núcleo de articulação e comando operacional para essas facções. A superlotação crítica, que afeta mais de 700 mil pessoas, permitiu que os presídios funcionassem como incubadoras de lealdades e centros estratégicos de recrutamento (Swissinfo, 2025). A partir daí, o PCC aperfeiçoou um modelo de gestão altamente centralizado e disciplinado, com uma lógica corporativa que facilita sua expansão para os setores financeiro e imobiliário. Por sua vez, a CV optou por uma estrutura de franquia descentralizada que lhe garante notável resiliência criminal em ambientes urbanos fragmentados, como as favelas do Rio de Janeiro (El País, 2025). Em resumo, as facções conseguiram se adaptar agilmente às pressões do Estado, mantendo sua capacidade operacional mesmo após a captura de seus líderes visíveis.
O ecossistema amazônico e a captura de corredores transnacionais
A projeção externa das organizações criminosas brasileiras responde a uma necessidade imperativa de controle sobre os corredores logísticos que conectam a produção andina aos mercados consumidores globais. Segundo as pesquisas sobre a dinâmica do crime organizado na região, sua presença operacional se consolidou em pelo menos 28 países, atuando como intermediário crucial nas cadeias de suprimento de narcóticos, especialmente por meio de corredores estratégicos como a bacia amazônica e o rio Solimões, que funcionam como hidrovias ligando a produção na Bolívia, Peru e Colômbia aos portos de exportação em massa.
Consequentemente, a diversificação das economias ilícitas permitiu que as facções transcendessem o narcotráfico tradicional e se aventurassem na mineração ilegal de ouro, roubo de cargas e extorsão sistemática. Estimativas indicam que essas atividades geram aproximadamente US$273 bilhões anualmente na região, fornecendo aos grupos criminosos poder financeiro que facilita a infiltração nos níveis locais de governo.
Ao mesmo tempo, a sofisticação tecnológica dessas organizações, que inclui o uso de drones para vigilância perimetral e a fabricação de armas por meio de impressão 3D, demonstra uma transição para modelos igualmente desafiadores de inovação criminosa.
Rumo a uma reengenharia da política de Estado e ao fortalecimento institucional
É evidente a necessidade de adotar políticas estatais que priorizem a inteligência financeira e o fortalecimento do sistema de justiça em detrimento do uso exclusivo e reativo da força letal. A experiência histórica demonstra que intervenções militares isoladas frequentemente geram efeitos colaterais que fortalecem milícias locais ou reconfiguram o cenário do crime sem enfraquecer seus alicerces estruturais. Portanto, uma estratégia eficaz de contenção deve se basear na retomada do controle territorial por meio da presença abrangente de instituições públicas.
Mas a segurança não é um problema exclusivamente operacional. O roteiro deve ser estruturado em pilares que abordem a raiz do problema: o sistema prisional, a rastreabilidade do capital e a cooperação multilateral.
A primeira área de ação exige uma profunda reforma dos centros de detenção para desmantelar a liderança dentro dos muros da prisão. O Estado deve recuperar a autoridade nos estabelecimentos penitenciários, profissionalizando o corpo de agentes penitenciários e bloqueando efetivamente a comunicação entre os líderes e suas redes externas.
Em segundo lugar, o fortalecimento da inteligência financeira é vital para sufocar a capacidade operacional das facções. A resiliência do PCC e do CV depende diretamente de seu fluxo de caixa; portanto, a detecção de lavagem de dinheiro no setor formal e nas novas plataformas tecnológicas é uma prioridade vital. O terceiro pilar exige a consolidação de uma governança fronteiriça compartilhada na Amazônia que transcenda os acordos diplomáticos tradicionais e estabeleça protocolos de patrulhamento conjunto em tempo real. Somente por meio de um controle territorial efetivo e de uma presença estatal que garanta serviços básicos às populações vulneráveis será possível reduzir o espaço de manobra da governança criminosa.
Em última instância, a segurança deve ser entendida como uma condição necessária para a plena vigência da dignidade humana e do desenvolvimento social. A expansão do Comando Vermelho e do Primeiro Comando da Capital representa um sintoma de falhas institucionais acumuladas que só poderão ser resolvidas por meio de um compromisso firme com a transparência e o fortalecimento democrático. A meta estratégica para o início da próxima década deve ser a restauração do Estado de Direito em cada território sob influência criminosa, garantindo que a soberania nacional não seja substituída pelo poder de fato das multinacionais do crime. A contenção do fenômeno analisado requer uma visão de Estado resiliente, coerente e, acima de tudo, fundamentada na cooperação regional para enfrentar uma ameaça que ignora as fronteiras nacionais.
Tradução automática revisada por Isabel Lima










