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Descida aos infernos

Uma releitura urgente que revela como crises em cadeia e lideranças extremistas podem arrastar sociedades inteiras para a catástrofe.

Descida aos infernos: Europa 1914-1949 é uma obra fundamental do historiador britânico Ian Kershaw, publicada originalmente em 2015. Uma década depois, sua releitura ganha outra intensidade, em um mundo de conflitos bélicos que se intensificam com projeções temerárias e líderes que alimentam as chamas em vez de apaziguá-las. Aquele livro foi o primeiro volume da história da Europa da série Penguin History of Europe, cujo segundo tomo, “Ascensão e crise. Europa 1950-2017”, aborda o período pós-guerra que se estende até os dias de hoje.

Kershaw analisa como a Europa, o continente que dominava o mundo no início do século X, precipitou-se para a autodestruição em apenas três décadas. A obra centra-se em quatro crises interligadas: a explosão da violência étnico-racista, que culminou no Holocausto e em limpezas étnicas em massa; a instabilidade econômica, marcada pela Grande Depressão e pela hiperinflação na Alemanha; conflitos de classes agudos: o choque entre o bolchevismo e as forças contrarrevolucionárias e o nacionalismo extremo, com o surgimento do fascismo e do nazismo.

Ao contrário de outras obras centradas exclusivamente no aspecto militar, Kershaw integra a vida cotidiana, explorando como a população civil interpretava e sofria os acontecimentos, e a cultura da sociedade, analisando como o clima intelectual e social permitiu a ascensão de regimes totalitários. O autor aplica o conceito de “trabalhar em prol do Führer” para explicar como as estruturas do Estado e o extremismo ideológico se alimentam mutuamente em uma radicalização catastrófica que culmina na entronização de uma ditadura totalitária.

Esta história do século XX começa com a eclosão da Primeira Guerra Mundial em 1914 e conclui-se com o início da Guerra Fria em 1949, momento em que a Europa fica dividida após a “queda” mais sangrenta de sua história.

Além de escrever uma das biografias mais completas de Adolf Hitler e vários livros sobre o regime nazista na Alemanha, Kershaw publicou em 2022 o ensaio Personalidade e poder: Formadores e destruidores da Europa moderna. Nesta obra, o autor aborda uma questão recorrente entre os historiadores: se os grandes líderes moldaram o século XX ou se foram produto de suas circunstâncias.

Kershaw rejeita a “teoria do grande homem” e argumenta que a personalidade individual é um fator crucial, mas apenas quando combinada com crises sistêmicas e bases de apoio que permitem a um líder obter e exercer um poder extraordinário.

Ele explica isso em uma interessante entrevista conduzida por Mariano Schuster em “O passado não está morto” (Siglo XXI, 2025). Kershaw sustenta que o carisma não é só uma característica inata, mas é concedido pela sociedade e pelo contexto em momentos de desespero. E introduz o conceito de “grandeza negativa” para figuras como Hitler ou Stalin, reconhecendo seu impacto histórico massivo e catastrófico, sem que isso signifique validar sua moralidade.

Em “Personalidade e poder”, Kershaw divide sua análise em doze ensaios interpretativos sobre figuras-chave que marcaram o rumo da Europa, classificando-as entre ditadores e líderes democráticos: Lenin, Stalin, Hitler, Mussolini, Tito e Franco, entre os primeiros; Churchill, de Gaulle, Adenauer, Thatcher, Gorbachev e Helmut Kohl entre os segundos.

Há líderes que são consequências dessas grandes “crises epocais” e há outros que, surgidos delas, conseguem superá-las conduzindo seus povos à superação, da guerra à paz. Nas palavras de Erich Fromm, líderes da mudança antecipatória e líderes de mudanças catastróficas. Atualmente, parecem abundar os primeiros e escassear os segundos.

*Texto publicado originalmente no jornal Clarín, Argentina

Tradução automática revisada por Isabel Lima

Autor

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Cientista político e jornalista. Editor-chefe da seção Opinião do jornal Clarín. Prof. da Univ. Nacional de Tres de Febrero, da Univ. Argentina da Empresa (UADE) e de FLACSO-Argentina. Autor de "Detrás de Perón"(2013) e "Braden o Perón. La historia oculta"(2011).

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