2026 será um ano crucial para a Guatemala. As máximas autoridades selecionarão as pessoas que ocuparão os chamados “cargos de segundo grau”. Os cargos em jogo são numerosos, desde os magistrados do Tribunal Supremo Eleitoral (TSE) até o chefe do Ministério Público. Esses processos são marcados pelas falhas institucionais do mecanismo de seleção e pelo fato de ocorrerem em um ano pré-eleitoral. A isso se soma o fato de que atualmente existe uma tensão entre facções políticas que apostam na continuidade de um sistema, frente ao reformismo de grupos emergentes.
Os cargos de segundo grau na Guatemala
No sistema político guatemalteco, os cargos de segundo grau são concebidos como aqueles que, embora não sejam eleitos por voto popular, são fundamentais para o cumprimento das funções do Estado. Além disso, eles têm um papel fundamental no que diz respeito à salvaguarda da democracia, à promoção da justiça e à aplicação do princípio de pesos e contrapesos entre as instituições. Dada a sua relevância, grupos de diferentes esferas do poder têm historicamente influenciado os processos de seleção. 2026 não será exceção.
Os cargos em disputa são os magistrados do TSE, os magistrados da Corte de Constitucionalidade (CC), o cargo de Procurador-Geral e Chefe do Ministério Público e o cargo de Controlador Geral de Contas. Os magistrados do TSE que forem selecionados em 2026 terão sobre seus ombros o processo das eleições gerais do próximo ano.
Além disso, em 2026 será realizado o processo de eleição do reitor da única universidade pública do país: a Universidade de San Carlos da Guatemala (USAC). Essa nomeação, embora não seja definida pelo presidente ou pelo Congresso, também é relevante. O motivo é que a USAC é a única universidade no mundo com a possibilidade de propor iniciativas de lei. Além disso, possui diferentes espaços de influência na administração pública e na política guatemalteca.
O mecanismo das comissões de indicação
É importante ressaltar que a maioria das eleições de segundo grau se baseia no mecanismo das comissões de indicação. As comissões são um órgão temporário integrado por pessoas de diferentes setores, com o objetivo de pré-selecionar e formar uma lista de candidatos. Elas funcionam como um filtro, para que a autoridade competente receba uma lista com os melhores perfis e selecione o mais adequado.
Para a comissão de nomeação de magistrados do TSE, esta apresenta uma lista de 20 candidatos ao Congresso, que com 107 votos (dois terços) seleciona 5 magistrados titulares. No caso do Procurador-Geral, a autoridade que decide é o presidente, a partir de uma lista de 6 candidatos apresentada pela respectiva comissão de nomeação. E para o Controlador Geral de Contas, a lista proposta pela comissão é de 6 candidatos, sendo eleito por maioria absoluta pelo Congresso.
No entanto, as comissões, embora em sua origem representassem o envolvimento de outros atores na tomada de decisões, tornaram-se um meio para a institucionalização de interesses de grupos paralelos e uma desculpa para cooptar instituições-chave. Isso vem acontecendo com o Colégio de Advogados e Notários (CANG), cuja Assembleia elege um representante titular para a comissão de nomeação do TSE e elege diretamente um magistrado para a CC.
Uma academia sem legitimidade para participar
Situação semelhante é observada no setor acadêmico. Por exemplo, para eleger os 5 magistrados titulares da CC, um deles é eleito diretamente pela USAC. Infelizmente, o atual reitor dessa instituição de ensino foi acusado de ilegitimidade e de promover fraude a seu favor nas eleições para reitor do ano de 2022. Como se isso não bastasse, o atual reitor preside a Comissão de Nomeação para magistrados do TSE, de acordo com a Lei Eleitoral e de Partidos Políticos.
As universidades privadas não ficam atrás. Tanto os decanos das faculdades de direito quanto os reitores das universidades privadas desempenham um papel importante nas comissões de nomeação. Prova disso é que a comissão de nomeação para o procurador-geral da República é composta por todos os decanos das faculdades de Ciências Jurídicas existentes no país. Situação semelhante ocorre com a comissão para o controlador geral: ela é composta pelos reitores das faculdades de contabilidade pública e auditoria.
Infelizmente, o ideal de envolver a academia e, assim, eleger os melhores foi contornado com a criação de novas universidades. Nos últimos anos, houve um aumento no número de universidades privadas. Isso facilitou que certos atores políticos pudessem influenciar o processo das comissões de nomeação, o que, por sua vez, causou o desgaste da credibilidade do ensino superior no país.
Tensões e cenários da eleição
A todos esses fatores e fragilidades institucionais, devemos acrescentar o contexto sociopolítico. É evidente a tensão entre facções que buscam perpetuar um sistema alinhado aos seus interesses e grupos reformistas com aspirações ao poder. As primeiras estão ligadas ao que é conhecido na Guatemala como “pacto dos corruptos”; os últimos, aos movimentos anticorrupção que orbitam em torno do partido governista, o Movimento Semilla.
Em meio a tudo isso, há uma clara intenção, por parte dos atores políticos, de evitar que a facção reformista, seja por meio do partido Movimento Semilla ou de qualquer outra organização, concorra nas próximas eleições. Isso aumenta a importância desses processos, uma vez que os selecionados para cargos de segundo escalão terão a palavra final em muitas decisões relativas às eleições de 2027.
De qualquer forma, a rejeição da oposição política ao presidente Bernardo Arévalo e seus associados certamente se tornará mais acentuada. Como resultado, há uma crescente polarização, obstrução da agenda do governo e crises políticas contínuas, o que, em termos de assuntos públicos, se traduz em um cenário insustentável de ingovernabilidade.
A participação ativa e a fiscalização das organizações da sociedade civil, da comunidade internacional e dos cidadãos em geral serão vitais para esses processos de seleção. A Guatemala deve estar no centro das atenções regionais não apenas porque altos funcionários estão sendo eleitos, mas também porque, de uma perspectiva voltada para o futuro, a democracia, o Estado de Direito e a justiça no país estão em jogo.
Tradução automática revisada por Isabel Lima










