Dois dias após a captura de Maduro, diante de mil venezuelanos que festejavam no obelisco em Buenos Aires, Patricia Bullrich, ex-ministra da Segurança e atual senadora governista, declarou: “Maduro se foi. (…) Maduro foi levado.” Sob aplausos do público, continuou: “E agora começa uma jornada onde todos vocês retornarão à sua querida Venezuela. Muito obrigada. Sentiremos saudades.” A reação da multidão mudou: poucos aplausos, algumas vaias e, em seguida, um profundo silêncio. Esse contraste gritante, que rapidamente viralizou nas redes sociais, levanta questões profundas para os governos da América Latina: quando os 7,9 milhões de venezuelanos poderão voltar ao seu país? Ou, mais precisamente, vão voltar?
As diásporas e seu retorno após conflitos
Em situações de diáspora, como no caso venezuelano, a premissa do retorno voluntário ao país de origem enfrenta questões complexas: o que ocorre quando o conflito termina, mas a integração local já ocorreu? Após conflitos, o retorno geralmente é limitado e depende de múltiplos fatores, incluindo segurança, estabilidade institucional, perspectivas econômicas e vínculos emocionais e identitários. De modo geral, as populações da diáspora tendem a considerar o retorno quando percebem que seu país de origem oferece garantias mínimas de segurança e governança, juntamente com oportunidades econômicas razoáveis.
Na ausência desses elementos, o retorno é pouco provável. Soma-se a isso uma complexa dimensão emocional, que oscila entre o apego identitário e o compromisso com a reconstrução nacional, por um lado, e as novas raízes construídas após anos de deslocamento, por outro. Essas tensões explicam por que o vínculo com o país de origem, embora possa se traduzir em repatriação permanente, frequentemente assume formas alternativas, como remessas, investimentos, visitas ou retornos temporários.
Segurança e estabilidade institucional incertas
Após a captura de Maduro, o Estado socialista venezuelano permanece praticamente intacto. Embora não esteja claro as implicações das palavras do presidente Trump, “vamos manejar a Venezuela”, está claro o apoio de seu governo a Delcy Rodríguez, vice-presidente de Maduro e leal ao regime, como nova presidente. Com ela, o núcleo duro do chavismo, incluindo Diosdado Cabello e Vladimir Padrino López, segue governando. Os sinais políticos são contraditórios. Enquanto o governo de Rodríguez parece cooperar com o governo estadunidense, ela própria declarou que “Jamais seremos colônia de nenhum império”. E embora a libertação de presos políticos tenha sido anunciada — com só algumas efetuadas —, organizações sociais continuam denunciando a violência estatal e novas prisões.
Enquanto isso, o secretário de Estado Marco Rubio afirmou que pensar em eleições é prematuro, em consonância com a ênfase das declarações de Trump, centradas na reafirmação da Doutrina Monroe e no destino dos recursos petrolíferos venezuelanos, em vez de restaurar a democracia. Este último ponto não foi mencionado por Trump nem por nenhum dos outros oradores na manhã de 3 de janeiro. Assim, os eventos dos primeiros dias sugerem que uma mudança de regime que leve à reconstrução nacional orientada a fortalecer a segurança e a estabilidade institucional democrática é extremamente incerta.
Incerteza econômica
Mesmo que as condições políticas melhorassem drasticamente, as perspectivas econômicas permaneceriam sombrias. Primeiro, o plano do governo Trump em relação ao petróleo não é totalmente claro. O que é certo é que a infraestrutura petrolífera da Venezuela está em ruínas após anos de má gestão e subinvestimento. Segundo a Bloomberg, uma recuperação significativa da capacidade produtiva exigiria um investimento de cerca de US$100 bilhões — US$10 bilhões anuais por uma década. Esse desafio é agravado pela queda de quase 25% nos preços do petróleo no último ano, o que compromete seriamente a rentabilidade do setor. Assim, a possibilidade de uma chuva de investimentos na Venezuela parece improvável.
Consequentemente, o incentivo econômico para que os venezuelanos retornem e reconstruam o país é incerto. Ademais, muitos migrantes venezuelanos se estabeleceram economicamente em seus países de acolhimento. Têm empregos, negócios e redes profissionais. O custo de oportunidade de abandonar essas conquistas arduamente alcançadas para retornar a um cenário econômico incerto é considerável.
O fator emocional e identitário
Considerar as dimensões emocionais e identitárias do deslocamento é fundamental. Após anos vivendo em outro lugar, o amor pela pátria perdida se complexifica. Basta pensar nos adolescentes nascidos na diáspora, nas crianças em idade escolar, nos jovens que fugiram para forjar seu futuro e em tantos outros que criaram comunidades em seus países de acolhimento. Seu apego à Venezuela é certamente real e profundo, mas coexiste com um apego igualmente real às sociedades que os receberam e às quais, de muitos modos, também contribuíram. A identidade torna-se transnacional, uma ponte que conecta a pátria, o país de acolhimento e as comunidades da diáspora global.
Esse amor complexo também convive com a contradição de uma identidade nacional fragmentada. Voltar significa voltar ao lugar onde persiste o que os expulsou. Não se trata de falta de patriotismo ou indiferença. É um processo identitário, típico de deslocamentos prolongados, marcado por tensões e, em muitos casos, com a certeza de um status legal definitivo no país de acolhimento, seja mediante autorizações de residência ou mesmo naturalização.
Repensando o retorno
A migração de retorno após um conflito raramente é um processo linear. Num cenário ideal, muitos venezuelanos manterão laços com seu país de origem através de remessas, investimentos e visitas regulares. Outros optarão por padrões migratórios circulares, alternando entre os dois locais. Da mesma forma, muitos continuarão a participar ativamente na promoção da mudança política, enquanto só alguns retornarão permanentemente para contribuir com a reconstrução do país. Mas esperar — ou exigir — uma repatriação em massa ignora tanto os obstáculos sociopolíticos quanto as vidas legítimas e complexas que os migrantes construíram. Ignora também que isso ocorreu não só com a permissão expressa dos países anfitriões, mas também com a exploração política e eleitoral do conflito venezuelano por quem governa a América Latina.
O forte contraste nas reações no Obelisco em Buenos Aires deve servir como um alerta. Os países anfitriões e a comunidade internacional não podem esperar um retorno quase automático como consequência da captura de Maduro. As diásporas não terminam simplesmente com a conclusão dos conflitos, especialmente quando o “suposto fim” está repleto de incertezas tão grandes quanto as que caracterizam a situação venezuelana. O silêncio no Obelisco muda a pergunta: não se trata de quando os venezuelanos retornarão, ou mesmo se retornarão, mas sim se as sociedades latino-americanas estão preparadas para honrar a complexa realidade dos migrantes venezuelanos e as decisões legítimas que tomam.
Tradução automática revisada por Isabel Lima










