Em 9 de janeiro de 2026, o Conselho da União Europeia (UE) aprovou o tão esperado acordo comercial com o Mercosul. A decisão contrasta com o ocorrido há só um mês, quando a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, teve que cancelar sua viagem prevista ao Brasil para a assinatura do instrumento, posto que não havia obtido a aprovação do Conselho. Agora, a assinatura ocorrerá no Paraguai, em 17 de janeiro. Como chegamos até aqui e o que está por vir?
O que aconteceu: vencendo resistências internas
A base do chamado Interim Trade Agreement (ITA), o pilar comercial do acordo, remonta ao “acordo de princípio” anunciado em junho de 2019 pelos líderes de ambos os blocos. Esse anúncio propiciou a rápida formação de uma poderosa coalizão de oposição na Europa, o que acabou paralisando seu processo de aprovação e ratificação. Essa coalizão se formou em torno de dois grandes componentes: um tradicional, integrado por produtores agrícolas europeus, e outro emergente, composto por organizações da sociedade civil voltadas para a defesa do meio ambiente.
Em pouco tempo, o mundo mudou e, por motivos associados predominantemente ao novo contexto geopolítico global, a Comissão retomou a busca pela concretização desse acordo. Para isso, precisava desativar a mencionada coalizão de oposição que, combinada, tinha a capacidade de bloqueá-lo, seja por meio dos governos nacionais no Conselho, seja por meio de seus representantes políticos no Parlamento Europeu.
A aposta da Comissão foi desativar o componente ambiental da coalizão. Para isso, a partir de 2023, embarcou em uma renegociação com o Mercosul, em particular com o Brasil, com o objetivo de aumentar os compromissos ambientais de cumprimento obrigatório incluídos no acordo. Em troca, se dispôs a renunciar a alguns ganhos de acesso aos mercados obtidos no acordo de 2019. Com base nesse trade-off, ambos os blocos anunciaram em dezembro de 2024 um novo acordo.
Enquanto a oposição da base ambiental diminuiu notavelmente após esse anúncio, a da base agrícola continuou. E, como era de se esperar, encontrou nos países com fortes comunidades agrícolas um canal de representação de sua posição. Assim, os governos da França, Polônia e Irlanda manifestaram sua oposição ao acordo e procuraram construir uma minoria de bloqueio para impedir sua aprovação no Conselho.
Para isso, era necessário que ao menos quatro países representassem pelo menos 35% da população da UE, então os países opositores precisavam de novos aliados. E, no caminho, encontraram um parceiro inesperado, dada a sua posição histórica de apoio ao acordo: a Itália de Giorgia Meloni. Desde dezembro de 2024, o governo italiano enviou mensagens ambíguas, que alternavam entre a rejeição e o apoio condicional. Mas quando chegou o momento da aprovação em dezembro de 2025, o governo italiano não deu o seu voto e, portanto, a assinatura não pôde ser concretizada.
No entanto, a posição da Itália acabou por ser transacional. Após o fracasso no início de dezembro, a Comissão negociou com o governo italiano uma série de pagamentos paralelos em troca do seu voto favorável, sendo o mais relevante deles um adiantamento dos subsídios agrícolas previstos no âmbito da Política Agrícola Comum. Paralelamente, as instituições europeias aprovaram um mecanismo específico para ativar as salvaguardas bilaterais previstas no texto do acordo, que prevê o lançamento automático de investigações para uma série de produtos agrícolas sensíveis no caso de os preços internos ou as exportações do Mercosul caírem ou subirem 8%, respectivamente. Cabe notar que estas salvaguardas complementam o fato de a abertura oferecida pela UE para estes bens sensíveis ser parcial, através de quotas, o que por si só limita o alcance da liberalização neste setor de atividade. E embora esse conjunto de concessões não tenha sido suficiente para apaziguar a oposição agrícola, pelo que a França, Polônia, Irlanda, Áustria e Hungria votaram contra (a Bélgica se absteve), o acordo foi finalmente aprovado por maioria qualificada no Conselho.
O que está por vir: o desafio da ratificação
Após a aprovação, a etapa de ratificação do ITA transfere a ação política para o Parlamento Europeu e para os parlamentos nacionais dos países do Mercosul. No primeiro, é altamente provável que surja uma nova batalha entre promotores e opositores.
Os dois maiores grupos políticos do Parlamento Europeu, o Popular (centro-direita) e o Social-Democrata (centro-esquerda), sobre os quais se estrutura a coalizão governante na UE, já anunciaram seu apoio. No entanto, impulsionados pela oposição dos produtores agrícolas, é de se esperar que boa parte dos eurodeputados de países como França, Polônia e Irlanda, entre outros, votem de acordo com a posição contrária de seu país e não com a de seu grupo. Assim, embora o cenário base seja o de uma maioria a favor da ratificação, essa maioria certamente será apertada, e mudanças de posição nas margens poderão, em última análise, inclinar a balança para um lado ou para o outro.
Paralelamente, haverá esforços por parte dos eurodeputados para levar o acordo ao Tribunal de Justiça da UE, com o objetivo formal de determinar a compatibilidade do instrumento com o direito europeu. Indiretamente, esses esforços buscarão atrasar o processo de ratificação e ganhar tempo para construir uma maioria de oposição. Não há garantia de que essas iniciativas terão sucesso, mas, em todo caso, serão um elemento adicional a ser monitorado nos próximos meses.
Nos países do Mercosul, espera-se, em princípio, um processo parlamentar menos contencioso. Aqueles que poderiam ser teoricamente afetados negativamente em termos de distribuição — ou seja, vários segmentos da indústria manufatureira — apoiaram o acordo (no Brasil) ou, pelo menos, não se opuseram ativamente a ele (na Argentina). Em 2019, os países do Mercosul concordaram com uma entrada em vigor bilateral provisória, uma vez que cada membro do bloco, juntamente com a UE, ratificou o acordo. Além de facilitar efetivamente a adoção de acordos preferenciais com terceiros, esta medida visa incentivar a ratificação em cada parlamento nacional. À medida que cada membro do Mercosul ratifica o acordo, o custo de permanecer fora do acesso preferencial ao mercado europeu aumenta.
Em suma, a ratificação parece ser o próximo e último obstáculo antes da entrada em vigor do acordo. E, como tem acontecido desde 2019, o foco estará principalmente no que poderá ocorrer na UE.
Tradução automática revisada por Isabel Lima










