Na América Latina, os mapas são redesenhados mais rapidamente nos discursos de campanha do que nos escritórios de Chancelaria. A ilha de Santa Rosa, hoje centro de tensão entre Peru e Colômbia, é apenas o último capítulo de uma velha receita regional: quando a estabilidade interna está em risco, há sempre um pedaço de terra à mão para agitar o nacionalismo. Aqui, a diplomacia costuma dar lugar à oratória patriótica e a soberania se torna combustível político que queima com mais força em tempos de pesquisas adversas.
O presidente colombiano, Gustavo Petro, é o novo protagonista dessa história de instigação geográfica. O confronto eclodiu quando, em 7 de agosto, ele reivindicou como sua a referida ilha, localizada na tríplice fronteira entre seu país, Peru e Brasil, no coração da Amazônia, em protesto contra o fato de que, em 3 de julho, o Congresso peruano criou ali, através de uma lei, o distrito de Santa Rosa de Loreto como parte de seu território.
A ilha onde está localizado este distrito surgiu por volta de 1970 devido a um processo natural de fragmentação da parte sul da ilha peruana de Chinería. A leste, faz fronteira com as cidades de Leticia (Colômbia) e Tabatinga (Brasil). Lá vivem exclusivamente habitantes peruanos, que somam aproximadamente 1.800 pessoas, que têm documento de identidade e usufruem dos serviços públicos do Estado peruano.
O Peru garante que tratados internacionais como o do Rio de Janeiro de 1934 o respaldam e que a narrativa de Petro se deve ao desconhecimento, embora, na verdade, ao reivindicar a ilha como sua, Petro tente desviar a atenção e encobrir os escândalos internos que o cercam, como o caso de corrupção na compra de caminhões-tanque com sobrecustos e o desvio de recursos para supostamente subornar congressistas em troca de apoio às suas reformas sociais.
A justiça também investiga o aparente financiamento ilícito de sua campanha presidencial, na qual se presume que houve doações de narcotraficantes a favor de seu filho Nicolás.
Com tudo isso, em junho de 2025, a desaprovação de Petro atingiu seu ponto mais alto e, embora tenha tido uma recuperação moderada em agosto, a rejeição continua significativamente acima do apoio. 89% dos colombianos questionam a crise de insegurança cidadã que, segundo eles, piorou durante seu mandato, e a convocação unilateral de consultas populares, como a da reforma trabalhista. Também não houve melhorias na saúde, o que faz com que o governo seja visto como pouco eficaz, e a exploração energética foi restringida, o que afeta as expectativas de crescimento econômico.
Esses episódios afetaram fortemente sua credibilidade e o levaram a buscar uma narrativa que lhe devolvesse o protagonismo e coesionasse seu bastião eleitoral.
Petro está usando o tema politicamente? Claramente sim, ele está fazendo isso. Ele transferiu a comemoração da Batalha de Boyacá para Leticia para evitar um protesto de mineiros que estava lhe custando capital social. Ele apelou para a defesa da soberania e não descartou recorrer a tribunais internacionais se o diferendo com o Peru não for resolvido por vias diplomáticas. Uma encenação em que cada declaração altissonante adquire um tom épico.
Por sua vez, a sociedade peruana está convencida de que o presidente colombiano usa o tema como uma cortina de fumaça. A manobra chega justamente quando sua coalizão, o Pacto Histórico, precisa se posicionar para as eleições presidenciais de maio de 2026. E, como em tantas outras histórias latino-americanas, o verdadeiro campo de batalha não está no território em disputa, mas na opinião pública.
Basta olhar para o conflito entre a Venezuela e a Guiana pelo Esequibo, que sempre se reacende especialmente em momentos de crise econômica, sanções e isolamento diplomático da ditadura de Nicolás Maduro. Embora a disputa por esse território se arraste desde o século XIX, Maduro a transformou em um trunfo recorrente sempre que a economia entra em colapso ou os protestos ameaçam incendiar as ruas. Algo cotidiano.
Em dezembro de 2023, o referendo sobre esta região foi um movimento claro para apelar ao nacionalismo e legitimar o governo antes das eleições que, seis meses depois, acabou por perder, mas manteve o poder com manobras judiciais denunciadas até hoje. Assim, demonstrou, mais uma vez, que a disputa territorial é para o seu regime uma tábua de salvação de aparecimento prioritário.
Este ano, Maduro redobrou a pressão com planos para instalar uma zona militar especial e conceder licenças petrolíferas na área, acompanhadas de manobras militares na fronteira que buscam reforçar o discurso anti-imperialista pelo apoio dos Estados Unidos à Guiana. Sua atitude confirma que, na América Latina, a exaltação patriótica continua sendo o álibi favorito para desviar o olhar dos problemas e escândalos internos.
Na Bolívia de Evo Morales, aconteceu algo semelhante. Após anos insistindo na reivindicação marítima contra o Chile, a decisão de Haia em 2018 foi completamente desfavorável ao seu país: determinou que o Chile não tinha nenhuma obrigação jurídica ou diplomática de negociar uma saída soberana para o mar. No entanto, o ex-presidente e seu entorno se agarraram a uma frase do veredicto que indicava que a decisão “não impedia” que os dois países conversassem, algo que na verdade apenas aludia à possibilidade de diálogos bilaterais voluntários.
Nos últimos meses, já impedido de se candidatar, Morales pediu para votar nulo nas eleições presidenciais de 2025 e voltou a deixar em aberto a possibilidade de retomar a causa marítima como bandeira. Em sua retórica, é provável que o tema do mar continue aparecendo como um recurso de agitação.
A ilha, o mar ou o rio são apenas desculpas: o que realmente está em jogo é o poder. O nacionalismo continua sendo o refúgio preferido daqueles maus governantes que não querem prestar contas por seus fracassos.
Tradução automática revisada por Isabel Lima