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O novo cenário político da Costa Rica

As eleições de 2026 reconfiguram a política na Costa Rica, com a Presidência e o Congresso concentrados em um único partido e um eleitorado mobilizado pela segurança e pela mudança institucional.

Em 1º de fevereiro, a Costa Rica votou e decidiu que Laura Fernández Delgado será a 50ª presidenta desde que o país se tornou uma república e a segunda mulher a ser eleita para o cargo mais importante do país: a Presidência. Além disso, seu partido, o Pueblo Soberano, fundado em 2022, obteve 31 das 57 cadeiras do Congresso unicameral do país, ou seja, mais da metade dos assentos, o que lhe garante uma maioria absoluta, segundo dados preliminares do Tribunal Supremo de Eleições (TSE). O próximo governo iniciará seu mandato com uma série de circunstâncias incomuns: a vitória presidencial no primeiro turno, um aumento na participação de quase 10 pontos percentuais e o controle majoritário na Assembleia Legislativa, algo que não ocorria no país desde 1990.

Desde 1953, eleições periódicas têm sido realizadas, com transições pacíficas de poder (não há reeleição consecutiva). Nesse sentido, a Costa Rica é uma democracia consolidada, onde se cumpre o princípio da “certeza das regras e incerteza dos resultados” e os atores políticos derrotados aceitam a derrota quando são votados contra. Essa estabilidade se baseia, em grande medida, na integridade e no profissionalismo do TSE, que divulgou os resultados preliminares na mesma noite da votação, por meio da atualização contínua dos dados online. No contexto centro-americano, isso constitui uma característica institucional distintiva.

Os resultados eleitorais permitem afirmar que estas foram eleições atípicas, tanto regionalmente quanto em relação às tendências observadas em processos anteriores. A competição foi reordenada e os apoios eleitorais se concentraram de maneira incomum. Por isso, afirma-se que está se configurando um novo padrão de representação e governabilidade e, ao mesmo tempo, as tendências persistiram.

Uma eleição atípica e com continuidades

Em termos regionais, o processo foi atípico, pois não houve punição ao governo: quase 5 em cada 10 eleitores votaram pela continuidade. Além disso, apesar de uma ampla oferta (20 candidaturas, cinco lideradas por mulheres) e uma oposição muito fragmentada, o voto ordenou a competição. O Partido Soberano (48,30%) e o antigo partido tradicional Liberação Nacional, PLN (33,44%), concentraram cerca de 80% dos votos. Na arena legislativa, também não se observa um cenário de maior fragmentação, mas um Congresso com menos forças políticas representadas e sem governo dividido ou em minoria.

Os resultados também refletem uma tendência observável na região, o “esvaziamento do centro político”, que não consegue manter a capacidade representativa e abre espaço para forças mais radicais, como afirmou a acadêmica Flavia Freidenberg. Na Costa Rica, isso se expressa no resultado legislativo, já que desaparecem do Congresso forças que em 2022-2026 ocupavam espaços da direita liberal e da direita conservadora (Liberal Progressista e Nova República, respectivamente); possivelmente esses eleitorados foram absorvidos pela força política governista.

Nova era política na Costa Rica?

As eleições nacionais de 2026 foram realizadas após um processo de transformação do sistema partidário, caracterizado pelo deslocamento do bipartidarismo PLN-PUSC para um cenário multipartidário, com erosão das lealdades e um eleitorado mais volátil. Hoje, apenas uma em cada quatro pessoas se identifica com algum partido (CIEP-UCR), um dado consistente com o desalinhamento partidário e eleitoral que reconfigurou a competição nas últimas duas décadas.

As eleições de 2014 aprofundaram essa trajetória, com a chegada à Presidência de uma força alheia ao bipartidarismo. Na mesma sequência, o desastre eleitoral do PAC após dois governos (2014-2022) e a personalização da competição abriram espaço para uma liderança personalista, confrontativa e polarizadora, que resultou em um mandatário que, após quase quatro anos no poder, manteve níveis de popularidade próximos a 60% (CIEP-UCR).

Esse contexto se refletiu na oferta partidária. O sistema partidário mostrou alta fluidez, o índice de mortalidade (50/100) indica que metade das forças anteriormente representadas ficou fora do Congresso. Em um cenário de proliferação de rótulos partidários, esses dados mostram uma baixa capacidade de manter apoios e lealdades de um ciclo eleitoral para outro. A maioria dos partidos políticos não tem raízes na sociedade e não precisa tê-las para ganhar eleições.

Com base nisso, configurou-se um clima de mal-estar e desconfiança institucional, reforçado pelo aumento da insegurança (a taxa de homicídios é de 16,7/100.000 habitantes, com base em números oficiais). Nesse contexto, a disputa eleitoral foi organizada em torno de um eixo plebiscitário de apoio ou rejeição ao atual presidente, que manteve protagonismo durante a campanha, apesar das denúncias sobre beligerância política, e o partido do governo apresentou uma narrativa de promessa de eficácia, traduzida em “políticas de mão dura”, emulando o “estilo Bukele” (como é o caso da narrativa da construção de uma megaprisão).

O processo eleitoral de 2026 marca um ponto de inflexão na política costarriquenha, a vitória eleitoral do partido no poder foi contundente e com uma presença territorial importante, o que resultou na concentração do poder político — Presidência e maioria legislativa — em uma única força política: há um realinhamento político. O poder institucional do governo entrante se amplia e, consequentemente, sua capacidade de decisão e ação.

Por sua vez, parece estar surgindo um movimento político com base social, ou seja, um eleitorado que se reconhece em um conjunto compartilhado de demandas e sentimentos sobre segurança, ordem e rejeição às elites e instituições percebidas como obstrucionistas e que possivelmente começará a operar como uma nova identidade política, que está abrindo espaço. Isso ocorre em um momento em que o discurso oficialista propõe uma promessa de “refundação”, entendida como uma reconfiguração dos equilíbrios institucionais: desde a proposta de uma Assembleia Constituinte para substituir a constituição atual até reformas profundas no Poder Judiciário, no TSE e em outros órgãos de controle.

Tradução automática revisada por Isabel Lima

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Cientista política e socióloga, professora da Faculdade de Ciências Políticas e pesquisadora do Centro de Pesquisa do Observatório do Desenvolvimento, ambos da Universidade da Costa Rica. Membro da Rede #NoSinMujeres de Mulheres Cientistas Políticas.

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