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O silêncio estratégico de Kast e os riscos para a agenda de gênero no Chile

O silêncio de Kast sobre questões de gênero não implica neutralidade, mas um risco concreto de desmantelamento gradual dos direitos conquistados pelas mulheres e dissidentes no Chile.

O Chile elegeu em dezemebro de 2025 seu novo presidente, reiterando uma tradição política de alternância entre governos de direita e esquerda, mas trazendo um componente novo: a radicalização. José Antonio Kast (Partido Republicano) é o presidente mais à direita desde o fim da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990).

Acompanhando uma recente guinada mais à direita na América Latina – em países como Argentina, Bolívia, Equador e Honduras -, o eleitorado chileno deu sinal verde ao avanço da direita em seu aspecto mais radical. Após o estallido social (2019) e os anos do governo de Gabriel Boric (2018-2022), parte significativa da população aderiu ao discurso securitário e anti migração de Kast, e suas  declarações públicas de admiração a Pinochet. Longe de gerar repulsa generalizada, essa narrativa foi relativizada diante de propostas como o endurecimento da repressão policial e a construção de um muro na fronteira com a Bolívia.

O que a eleição de Kast representa para a agenda de gênero no Chile?

Para movimentos feministas como a Coordinadora 8M, Kast encarna um projeto político associado à destruição da segurança social, à violência, à regressão de direitos e à impunidade. Ao longo do processo eleitoral, o coletivo alertou para os riscos concretos que a eleição do líder de ultradireita impunha aos direitos já conquistados pelas mulheres no país. De forma análoga, o Movimiento de Integración y Liberación Homosexual (Movilh) refletiu sobre os possíveis impactos do novo governo sobre a população LGBTQI+, e afirmou estar em situação de alerta com o resultado eleitoral.

Estes coletivos, particularmente as feministas, desempenharam papel importante na política chilena da última década, alcançando importantes ganhos em termos de direitos e participação decisória no debate público do país.

O estallido social de 2019 abriu caminho para uma agenda institucional mais participativa e igualitária, incorporada pelo governo Boric, que se declarou abertamente feminista e buscou traduzir esse compromisso em políticas públicas, e também em uma composição de governo mais representativa da multiplicidade cultural, sexual e de gênero da sociedade chilena. Entre os avanços pode-se citar: aprovação do casamento igualitário, a criação do registro nacional de devedores de pensão alimentícia e a promulgação de uma lei abrangente de prevenção e combate à violência contra as mulheres.

No plano internacional, o Chile deu um passo inédito ao se tornar o primeiro país da América do Sul a adotar oficialmente uma Política Externa Feminista. Com forte ênfase na economia do cuidado, essa política tem buscado consolidar mecanismos institucionais capazes de transformar os feminismos em política de Estado, e não apenas de governo. A questão que se impõe agora é inequívoca: quais serão os rumos dessa agenda sob a presidência de Kast?

Os precedentes

Kast é uma figura antiga da política chilena, e já se declarou contrário ao aborto, tendo afirmado em diversas ocasiões que proibia sua esposa de utilizar métodos contraceptivos. Sua atuação política revela um padrão de oposição a avanços nos direitos das mulheres e das dissidências sexuais.

Especialistas chilenos identificam esse conjunto de posições como expressão de uma chamada “agenda valórica”, que, longe de ser marginal, estrutura o projeto político de Kast e se traduz em ofensivas diretas contra o casamento igualitário, a adoção por casais do mesmo sexo e o reconhecimento da identidade de gênero.

Na corrida presidencial de 2025, Kast optou por evitar deliberadamente temas relacionados aos direitos sexuais e de gênero, redirecionando sua campanha para agendas como economia, segurança e reforma social. Esse movimento não representa uma inflexão ideológica, mas um ajuste estratégico com relação à chamada agenda “valórica” destinado a ampliar sua base de apoio para além do núcleo conservador tradicional.

Estudo realizado pelo Observatório Eleitoral dos Direitos LGBTI+ indica que a pauta dos direitos das dissidências sexuais e de gênero ocupou um espaço significativamente menor nas campanhas dos candidatos conservadores, em contraste com aquelas da esquerda. Diferentemente de suas candidaturas de 2017 e 2021, Kast passou, em 2025, a investir em estratégias específicas de captação do voto feminino, como a ampliação da presença de mulheres em cargos de responsabilidade em sua equipe de campanha.

O afastamento deliberado desse tema não indica qualquer compromisso com a preservação dos avanços ou das agendas já conquistadas, mas revela uma estratégia política ajustada a um contexto de forte efervescência da resistência feminista no país.

Soma-se a isso a leitura eleitoral de que foi o voto feminino um dos fatores decisivos para a vitória de Boric em 2021, justamente no segundo turno contra o próprio Kast. Desta vez, a estratégia argumentativa mostrou-se mais sofisticada: em vez de confrontar os discursos da esquerda que defendem os direitos sexuais e de gênero, a campanha de Kast optou por esvaziar o debate, sinalizando que essa não seria uma questão urgente para o país.

Em seu primeiro discurso como presidente eleito, pode-se dizer que Kast reiterou esta tática ao adotar um discurso “apaziguador”, pedir respeito pelos opositores e dizer que governaria “para todos”. No entanto, no desenrolar da fala, esse “para todos” não veio acompanhado pelo reconhecimento de marcadores de gênero, sexualidade, classe, raça, etnia – o que interfere diretamente nas violências e desigualdades experimentadas por determinadas populações.

Não se pode esquecer que Kast é parte de um movimento transnacional ultraconservador, com afinidades claras em termos ideológicos com outras figuras políticas como Javier Milei (Argentina), Donald Trump (EUA) e Giorgia Meloni (Itália), por exemplo.

A grande questão que paira neste momento é se o novo presidente vai fechar ou não o Ministério da Mulher e de Igualdade de Gênero, se suspenderá financiamentos de políticas públicas com foco na igualdade de direitos e abandonar a Política Externa Feminista. Não há anúncio de fechamento, até agora, mas de uma reformulação. E o que isso significa? 

Uma coisa ficou clara: o gênero não é tema prioritário. E, se não é prioridade do governo, ele pode facilmente tornar-se uma agenda insignificante, sem financiamento e, portanto, sem força de resistência. Medidas drásticas não são as únicas formas de interromper avanços e a construção de sociedades mais justas e inclusivas para mulheres e dissidências sexuais. Ignorar, colocar de lado e retirar a urgência é uma estratégia silenciosa e, muitas vezes, mais eficaz.

Memórias de luta e futuro dos feminismos no Chile e além

Diante dessa guinada do Chile à ultradireita, os movimentos feministas têm respondido não apenas com alerta, mas com a reativação de memórias históricas de resistência. Em declaração publicada em 14 de dezembro, a Coordinadora Feminista 8M afirmou que tempos marcados por medo e frustração exigem mais mobilização social, e não recuo. Para o coletivo, enfrentar o novo ciclo político implica recuperar legados intergeracionais de articulação feminista, como os do Movimiento Pro-Emancipación de las Mujeres de Chile (MEMCH), que incorporou um horizonte antifascista durante a ditadura.

A eleição de Kast se insere em um contexto regional de fortalecimento de projetos ultraconservadores, como os de Javier Milei, na Argentina, e de rearticulação da extrema direita no Brasil. Países que compartilham histórias de autoritarismo e violência estatal também compartilham tradições feministas forjadas na resistência – da experiência das Madres de Plaza de Mayo às mobilizações feministas chilenas contemporâneas.

Mais do que antecipar os rumos do governo Kast, os feminismos reafirmam que a disputa não se dará apenas no plano institucional, mas na mobilização social, na construção de redes solidárias e na defesa ativa da democracia. Em contextos de regressão, ignorar também é uma forma de violência – e resistir continua sendo uma urgência política.

Autor

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Doutora em Ciência Política e Mestre em Sociologia pelo IESP/UERJ. Especialista em política externa feminista e consultora independente.

Candidata ao doutorado no Instituto de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (IRI/PUC-Rio). Mestre em Relações Internacionais (Unesp, Unicamp, PUC-SP) e colaboradora convidada do Observatório de Política Externa Feminista Inclusiva (OPEFI).

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