No domingo, 12 de abril, os peruanos irão às urnas com pouco entusiasmo para eleger um novo presidente. Mas essa eleição não parece abrir um diálogo com o futuro, e sim revelar a precariedade do atual cenário político peruano. Nas últimas décadas, a política peruana foi marcada por uma instabilidade persistente, com ex-presidentes presos, um suicídio e outros destituídos antes de concluir seu mandato. Nesse contexto, a questão deixa de ser só quem ganhará a eleição, mas quais condições estruturais explicam que o exercício da presidência no Peru pareça levar, repetidamente, ao descrédito, à punição ou à queda. Será, então, que a política importa?
35 candidatos disputarão a presidência do Peru, o que reflete uma alta fragmentação política. Esse número representa uma das disputas mais complexas da história do país, em busca dos sucessores para o período 2026-2031. É claro que o número de candidatos não é o elemento causal, mas sim a dispersão das preferências que configura a fragmentação, que não pode ser explicada por uma única causa, mas pela convergência de vários fatores: desde regras eleitorais permissivas, que facilitaram o registro de partidos, até um sistema eleitoral centrado nos candidatos (voto preferencial), pulverizando principalmente os partidos menos institucionalizados, menos programáticos e, além disso, menos disciplinados.
Somam-se às regras institucionais a heterogeneidade social — a dimensão identitária, étnica e a dimensão urbano-rural — e a territorial. Neste último caso, é o processo de descentralização, no qual cada região busca representação com base em movimentos e estruturas próprias, que provocou uma desconexão das plataformas nacionais, que se organizam sem densidade social nem capilaridade territorial.
A isso se soma a crise de representação, em que os partidos perdem legitimidade constantemente dada à precariedade das gestões governamentais e ao déficit de legitimidade, abrindo espaço para novas organizações e movimentos anti-establishment. Isso é alimentado por um sistema de mídia, antes a televisão e hoje as redes sociais, que facilitam candidaturas mais personalistas, menos dependentes de aparatos partidários, o que fomenta a fragmentação e a invisibilidade da questão programática.
Uma das causas da fragmentação é a economia, já que o neoliberalismo contribui para a fragmentação, fundamentalmente quando desorganiza as bases sociais da representação, dilui as diferenças programáticas entre os partidos e conduz a uma guerra de “eliminação” do adversário. O especialista Kenneth Roberts evidencia como esse mecanismo funciona. Primeiro, o neoliberalismo rompe os laços históricos entre partidos e sociedade. Pois se um partido que representa a classe trabalhadora, os setores populares ou as classes médias organizadas aplica reformas de mercado que atingem justamente sua base, o vínculo se desgasta.
No Peru, o colapso do sistema partidário dos anos 1990 persistiu mesmo após a queda do regime autoritário em 2000, com a manutenção da Constituição de 1993. Os partidos, antes diferenciados programaticamente, convergiram de uma forma que invisibilizou a identidade partidária e gerou um contínuo desalinhamento programático.
Não se trata só de que candidaturas de centro ou centro-esquerda prometeram uma coisa e governaram fazendo outra, como Alejandro Toledo, Ollanta Humala ou Alan García, que aplicaram ou mantiveram reformas neoliberais, mas também de que não se diferenciaram nitidamente entre as ofertas partidárias, contribuindo para simplificar a percepção de que “todos são iguais”.
Um terceiro mecanismo é a colonização da vida através da precarização, da desigualdade e da frustração. E quando os partidos mais institucionalizados não canalizam esse mal-estar, surgem propostas fora do sistema, sejam elas de outsiders ou não (como ocorreu com Pedro Pablo Kuczynski e Pedro Castillo). Dessa forma, a precarização institucional da política acaba sustentando a reprodução do modelo econômico, razão pela qual a economia se distancia da política.
Os modelos de desenvolvimento não produzem só efeitos socioeconômicos; não há dissociação, embora diferentes campos disciplinares insistam que existe uma distância significativa. A associação ocorre na medida em que as políticas econômicas definem uma agenda política, o enquadramento da representação e os conteúdos programáticos próprios de uma disputa política partidária. Em termos comparativos, existe uma associação entre modelos de desenvolvimento inclusivos e universalistas e níveis menores de fragmentação partidária. Enquanto os modelos menos inclusivos ou neoliberais, que tendem a invisibilizar o programático e buscam a convergência, tendem a corroer os laços sociais, enfraquecer as identidades partidárias e tornar a representação mais instável.
Por isso, o Peru se tornou o porta-estandarte neoliberal na América Latina, um modelo a ser seguido, já que a precarização é uma espécie de círculo virtuoso para manter a economia afastada das consequências políticas e sociais. Talvez Keiko Fujimori, que parece provável que chegue ao segundo turno, possa, se for eleita, provar do veneno que seu pai inoculou com a precarização institucional do sistema político e social no Peru. E se o vencedor for um opositor da economia neoliberal, será destituído sob a mesma hegemonia neoliberal do tipo gramsciano que predomina no Peru.
Tradução automática revisada por Isabel Lima










