O estudo da influência chinesa na América Latina tem focado, sem dúvida alguma, nas relações econômicas e comerciais entre o gigante asiático e os países da região. Embora exista um número considerável de estudos sobre, por exemplo, o poder brando da China, é menos comum encontrar análises sobre a influência política e institucional do país na região.
Entre os instrumentos de internacionalização política de Pequim, destacam-se a diplomacia entre os povos (people-to-people diplomacy), a paradiplomacia chinesa ou o compromisso multilateral do Partido Comunista Chinês (PCCh) na América Latina, através de espaços como o Fórum China-CELAC e seus diversos subfóruns, que articulam intercâmbios com a mídia, think tanks, partidos políticos e setores da sociedade civil.
Essa série de mecanismos, que em países democráticos se manifestam como veículos de poder incisivo, adquire uma relevância particular em sua interação com regimes não democráticos. Na América Central, os casos da Nicarágua, de El Salvador e de Honduras — classificados, respectivamente, como autocracia fechada, autocracia eleitoral e democracia eleitoral na zona cinza pela V-Dem — ilustram como esses vínculos podem ser instrumentalizados em duas direções: por um lado, os governos receptores os utilizam para reforçar práticas de concentração de poder; por outro, a China os aproveita para consolidar sua presença estratégica no istmo.
Nesse sentido, a cooperação entre a China e esses países não deve ser entendida apenas como uma troca de recursos ou investimentos, mas como uma rede mais ampla de interações institucionais, tecnológicas e ideológicas que, em determinados contextos, pode contribuir para a reprodução de dinâmicas autoritárias, como aponta o relatório “Autoritarismo com características chinesas”, do centro Expediente Abierto.
Intercâmbios entre povos: socialização de elites e transferência de práticas
Os intercâmbios entre povos constituem um dos instrumentos mais visíveis — e, ao mesmo tempo, mais subestimados — da projeção internacional da China. Aparentemente, esses mecanismos buscam promover o entendimento entre as sociedades. No entanto, eles fazem parte integrante da política externa do PCCh e operam sob forte controle estatal, articulando redes de influência que conectam atores estrangeiros ao aparato político chinês.
Na América Latina, e particularmente na América Central, esses intercâmbios transcenderam os âmbitos culturais ou acadêmicos para incluir setores sensíveis do aparato estatal. Delegações de policiais, militares, juízes e promotores participaram de programas de formação na China, onde foram expostos a doutrinas operacionais e modelos de governança ligados ao controle da ordem pública e à administração da justiça.
No caso da Nicarágua, funcionários da Polícia Nacional realizaram reuniões bilaterais com o Ministério da Segurança Pública da China e participaram de programas de capacitação que incluem treinamento em táticas de conter distúrbios, uso de drones em operações policiais, investigação criminalística e proteção de dignitários. Essa cooperação também se estende à participação em plataformas internacionais de segurança lideradas pela China.
De maneira similar, em 2024, o embaixador chinês Zhang Yanhui, acompanhado pelo recém-nomeado adido de defesa Dai Zenggang, realizou uma reunião oficial com o ministro da Defesa de El Salvador, na qual discutiram a ampliação da cooperação em áreas-chave da defesa, sinalizando um aprofundamento dos laços militares entre os dois países. Essas interações transcendem o âmbito da defesa e se estendem aos domínios jurídico e fiscal. Em 2023, o presidente da Suprema Corte, Óscar López, reuniu-se em Pequim com Zhang Jun, presidente do Supremo Tribunal Popular da China, onde assinaram acordos de cooperação judicial. Posteriormente, em 2024, o procurador-geral Rodolfo Delgado reuniu-se com seu homólogo chinês para fortalecer a cooperação entre as instituições de justiça.
Um padrão semelhante pode ser observado em Honduras, onde a presidente da Suprema Corte, Rebeca Ráquel Obando, participou de um fórum de cooperação judicial organizado pela China em Quanzhou em 2023 e se reuniu com o embaixador chinês Yu Bo em 2024 para ampliar a cooperação jurídica bilateral. Essas trocas têm facilitado a circulação de experiências relacionadas à digitalização judicial, à gestão criminal e à construção do chamado “Estado de Direito”, em um contexto em que o poder executivo ampliou seu controle sobre o sistema judicial.
Dito isso, seria incorreto supor que esses intercâmbios levem automaticamente à adoção do modelo chinês. Em vez disso, sua relevância reside na socialização gradual das elites políticas e administrativas em marcos alternativos à democracia liberal. Como já foi apontado, esses espaços funcionam menos como plataformas de diálogo horizontal e mais como mecanismos para integrar atores estrangeiros em redes de influência lideradas pelo PCCh, onde se promove uma visão idealizada do regime de partido único e do desenvolvimento sem liberalização política.
Tecnologia e controle: a dimensão material da cooperação
Se os intercâmbios entre pessoas ocorrem no âmbito da socialização das elites, a exportação de tecnologia constitui sua contrapartida material. Na América Central, essa dimensão tem se desenvolvido principalmente por meio do fornecimento de infraestrutura digital, sistemas de telecomunicações, plataformas de vigilância e soluções de “cidades inteligentes”, muitas delas impulsionadas por empresas ligadas ao Estado chinês.
Na Nicarágua, o governo sandinista promoveu sistemas como o SINAREM (Sistema Nacional de Resposta a Emergências) com a ajuda da China. Esse tipo de arquitetura tecnológica, baseada em dados centralizados e vigilância integrada, tem aplicações evidentes para o controle social.
Na mesma linha, a Biblioteca Nacional de San Salvador, construída por empresas chinesas, incorpora sistemas de reconhecimento facial e serviços automatizados. Além disso, autoridades salvadorenhas visitaram empresas como a Huawei, a China Mobile e a BYD no âmbito de programas de capacitação na China, onde tiveram contato com tecnologias 5G, plataformas de conectividade e soluções de governança digital. Embora apresentadas sob o discurso da modernização, essas ferramentas ampliam a capacidade do Estado de gerenciar dados e monitorar espaços públicos.
Honduras encontra-se em um estágio mais incipiente de cooperação tecnológica com a China, mas segue uma trajetória semelhante à dos outros casos. Funcionários hondurenhos participaram de programas sobre “cidades inteligentes” na China, onde tiveram contato com sistemas de “cérebro urbano” baseados em big data, sensores e vigilância integrada. Internamente, o sistema nacional de emergências 911 — que inclui reconhecimento de placas de veículos e milhares de câmeras interconectadas — tem sido associado a tecnologias ligadas à Huawei e a outras empresas relacionadas. Embora seja apresentado como infraestrutura de segurança pública, esse sistema fornece as bases para capacidades mais amplas de monitoramento.
A relevância da tecnologia chinesa não reside apenas em seu potencial para a repressão aberta. Conforme sugerem análises recentes, essas ferramentas permitem formas de controle mais sutis e persistentes e ampliam não apenas a capacidade do Estado de reprimir, mas também sua capacidade de governar de maneira preventiva.
A cooperação autoritária como processo relacional
As dinâmicas apontadas convidam a reconsiderar a presença da China na América Central. Além da infraestrutura e do comércio, as evidências apontam para um quadro mais amplo de cooperação. Por um lado, a China expande sua influência em setores estratégicos do aparato estatal, constrói redes com as elites governantes e promove a adoção de padrões tecnológicos e marcos regulatórios alinhados aos seus interesses globais. Por outro lado, os regimes beneficiários obtêm acesso a recursos, tecnologias e conhecimentos que podem fortalecer suas capacidades de controle, reduzir sua dependência de parceiros ocidentais e legitimar suas práticas iliberais de governo.
No entanto, esse processo não é uniforme nem determinista, pois seu impacto depende em grande medida das condições políticas internas. Na Nicarágua, a cooperação com a China amplifica estruturas autoritárias já existentes; em El Salvador, ela se entrelaça com um processo mais gradual de autocratização; e em Honduras, gera preocupações principalmente ligadas a dependências estratégicas emergentes.
Nesse sentido, a cooperação autoritária deve ser entendida não como uma imposição externa, mas como um processo relacional moldado por interesses convergentes e trajetórias políticas específicas. A questão central, portanto, não é se a China está “exportando autoritarismo”, mas como seus mecanismos de cooperação interagem com dinâmicas internas que já avançam nessa direção.










