A Copa do Mundo de 2026, realizada nos Estados Unidos, no Canadá e no México, terminou há várias semanas, mas certas práticas que se intensificaram durante o torneio parecem ter vindo para ficar. Entre elas, as apostas esportivas online.
Durante semanas, as apostas fizeram parte da experiência cotidiana do futebol: nas transmissões, nas redes sociais, nas camisetas, nos influencers, nas promoções com acesso imediato pelo celular… A Copa do Mundo funcionou como um gigantesco amplificador de um setor que já vinha crescendo na América Latina.
Aqui na Voices!, fizemos uma pesquisa nacional na Argentina logo após o torneio, que permite avaliar a dimensão desse fenômeno. 29% dos adultos declararam ter participado de algum tipo de aposta durante a Copa do Mundo, e 14% afirmaram ter apostado dinheiro. A incidência foi muito maior entre os jovens de 18 a 29 anos: quase a metade (47%) participou de alguma modalidade, e 28% apostaram dinheiro.
O torneio não foi só um momento de maior atividade para os apostadores habituais. Para 28%, foi a primeira vez que apostaram. Para outros 28%, apostar era, até então, algo excepcional. Assim, a Copa do Mundo foi, para muitos, uma porta de entrada. E essa porta pode permanecer aberta: cerca de metade dos que apostaram dinheiro durante o torneio acredita que provavelmente ou certamente continuará fazendo isso nos próximos meses, e, entre aqueles que apostaram online pela primeira vez, quase um terço manifesta a intenção de continuar fazendo isso.
Por que se aposta? O dinheiro importa, mas não explica tudo. A principal motivação dos que apostaram foi a curiosidade, seguida por ganhar dinheiro e por fazer isso com amigos, familiares ou colegas, o que mostra o aspecto social dessa atividade.
Na Argentina, as consultas por jogo compulsivo aumentaram 27% em 2025. O transtorno do jogo pode afetar várias dimensões ao mesmo tempo: econômica — dívidas, perda de poupanças —; emocional e de saúde mental — ansiedade, depressão, culpa, desespero —; familiar e social — mentiras, conflitos, isolamento e deterioração dos laços —; e profissional ou educacional, por perda de concentração, absenteísmo ou abandono.
Embora a maioria das pessoas que faz uma aposta não desenvolva necessariamente um problema de jogo, a mudança cultural que estamos testemunhando é que as apostas começam a fazer parte do entretenimento, da sociabilidade e da própria experiência esportiva. Além disso, ocorre uma transformação tecnológica fundamental: para apostar, não é mais necessário ir a um cassino ou a uma agência, nem mesmo estar diante de um computador. É possível fazer isso pelo celular, a qualquer momento e de qualquer lugar.
Essa mudança se torna particularmente relevante quando olhamos para os mais jovens. Kids Online Argentina, um estudo da UNICEF e da UNESCO com mais de 5.900 crianças e adolescentes, concluiu que a entrada no mundo das apostas online ocorre fundamentalmente por volta dos 13 anos, coincidindo com o acesso às carteiras digitais. Não se trata de demonizar uma ferramenta que ampliou enormemente a autonomia financeira, mas sim de reconhecer que a digitalização eliminou barreiras que antes separavam os menores de certas práticas reservadas aos adultos.
A essa facilidade de acesso soma-se outro elemento: a enorme visibilidade que as apostas adquiriram durante a Copa do Mundo. Em nossa pesquisa, 63% dos argentinos afirmaram ter visto publicidade ou promoções de plataformas de apostas com muita ou bastante frequência durante o torneio. Uma pesquisa realizada por pesquisadores da Universidade de San Andrés e publicada pelo Chequeado analisou 274 anúncios veiculados durante 32 transmissões de jogos da Copa do Mundo e constatou que essa foi a categoria com maior presença publicitária: liderou em três das quatro dimensões analisadas. O mesmo ocorre no Brasil, onde uma análise de 22 transmissões do campeonato nacional realizada pela Folha de S. Paulo constatou a presença de alguma publicidade de apostas visível durante 70% do tempo.
Essa exposição pode alterar o lugar que as apostas ocupam em nossa cultura. Sete em cada dez argentinos consideram que a presença constante de publicidade contribui para normalizar as apostas e fazê-las parecer uma atividade sem muitos riscos, e uma proporção semelhante acredita que isso pode incentivar especialmente adolescentes e jovens. De qualquer forma, o custo desse alcance publicitário foi alto: metade da sociedade exige diretamente a proibição desses anúncios e 34% os tolerariam, mas com restrições.
A publicidade de apostas também acarreta um custo de reputação para quem a protagoniza. 47% dos argentinos afirmam que sua opinião sobre uma figura pública piora quando ela promove uma casa de apostas; apenas 9% afirmam que sua opinião melhora. Um estudo da Ipsos-Ipec concluiu que, no Brasil, 51% da população também tinha uma percepção negativa daqueles que promoviam casas de apostas. Isso levanta uma questão interessante para marcas, atletas, clubes e influenciadores: até que ponto estão dispostos a arriscar sua reputação em troca da visibilidade e da receita que as apostas oferecem?
Uma das questões mais delicadas do assunto é o acesso de menores. Na pesquisa Voices!, 54% dos adultos consideraram que, durante a Copa do Mundo, foi mais fácil para os menores acessarem apostas online, e 72% consideraram pouco ou nada eficazes os controles para impedir isso. E os próprios adolescentes parecem estar exigindo maior proteção. Uma pesquisa do Observatório Humanitário da Cruz Vermelha Argentina, realizada com mais de 11.400 adolescentes de 13 a 18 anos, constatou que oito em cada dez consideram que as medidas atuais para impedir o acesso de menores não funcionam.
A demanda por limites mais rígidos também não parece ser exclusivamente argentina. No Chile, 57% da população manifesta grande preocupação com o impacto das apostas online sobre os menores, e 58% se mostram a favor de manter a proibição das plataformas de jogos online, de acordo com uma pesquisa recente da Datavoz.
Essa necessidade de prevenção já está gerando respostas por parte da sociedade civil. O Conselho Publicitário Argentino lançou a campanha “Parece um jogo, mas é uma armadilha”, voltada para adolescentes e jovens. A iniciativa busca colocar em discussão justamente aquilo que a normalização pode tornar invisível: que, por trás de uma atividade apresentada como entretenimento, existem riscos que é preciso conhecer. A campanha propõe abordar o tema sem moralizar nem estigmatizar, oferecendo ferramentas de prevenção aos jovens e suas famílias.
Quando, na Voices!, perguntamos quem deveria ter a principal responsabilidade na hora de impedir que menores tenham acesso a apostas online, as famílias aparecem em primeiro lugar. Mas, logo atrás, vêm o Estado, as próprias plataformas de apostas, as redes sociais e plataformas digitais, as organizações esportivas, a mídia e as escolas. Em suma, a responsabilidade é compartilhada porque o ecossistema também o é.
Como destaca a especialista em ludopatia Débora Blanca, não basta pedir a um adolescente que “saiba parar” se, ao mesmo tempo, ele tem no bolso uma plataforma disponível 24 horas por dia, uma carteira virtual para financiá-la, promoções que oferecem bônus para começar, figuras admiradas que a legitimam e publicidade que a integra à sua experiência esportiva. Também não se pode atribuir toda a responsabilidade às famílias. Os adultos têm um papel fundamental na conversa e no acompanhamento, mas competem com um ecossistema digital e comercial de enorme escala e sofisticação.
As apostas estão deixando de ocupar um espaço separado da vida cotidiana para se integrarem ao esporte, ao entretenimento e à cultura digital. Para uma geração que cresceu com o celular como extensão de sua vida social, as fronteiras entre jogar, assistir a uma partida, consumir conteúdo e apostar estão cada vez menos evidentes.
É importante refletir sobre o lugar que queremos que as apostas ocupem em nossa cultura esportiva e digital, quais limites sua promoção deveria ter, como protegemos os menores e como distribuímos as responsabilidades.
A Copa do Mundo acabou. Mas, para muitos, as apostas só agora começaram.










