Uma região, todas as vozes

L21

|

|

Leer en

A proliferação de candidatos presidenciais na América Latina: democracia ou espetáculo?

A inflação de candidatos não responde apenas a um desejo de liderança ou compromisso com o projeto de país. Muitas candidaturas são estratégias de posicionamento político e midiático.

Ser candidato presidencial na América Latina parece ter se tornado uma oportunidade não apenas para políticos de carreira, mas também para figuras midiáticas, empresários, comentaristas de redes sociais e até mesmo personagens excêntricos sem formação política. A cada eleição, a oferta de candidatos aumenta, embora o cargo traga consigo desafios como desgaste político, baixos índices de aprovação, conflito com a oposição e pressão dos movimentos sociais. Isso nos leva a uma questão fundamental: o que realmente motiva tantos aspirantes a concorrer à presidência?

O fenômeno da inflação de candidatos não responde apenas a um desejo de liderança ou compromisso com o projeto de país. Muitas candidaturas são estratégias de posicionamento político e midiático, ferramentas de negociação ou simples exercícios de visibilidade. Enquanto alguns candidatos competem com possibilidades reais de sucesso, outros buscam consolidar sua imagem para eleições futuras ou incluir determinadas questões na agenda pública. E um grupo não menos importante participa com o único objetivo de negociar apoio no segundo turno, trocando votos por cargos no futuro governo.

O caso chileno: uma candidatura para cada perfil

Um caso emblemático desse fenômeno é o Chile, onde, desde 25 de março de 2025, 96 pessoas estão buscando patrocínio do Serviço Eleitoral para concorrer à presidência. Embora nem todas elas consigam coletar as assinaturas necessárias para estarem na cédula de votação, o número é significativo em comparação com os 35 aspirantes em 2021. Os candidatos variam desde leitores de tarô a comentaristas de extrema direita nas redes sociais e ex-candidatos presidenciais de disputas anteriores. A maioria deles sabe que possui chances ínfimas de êxito, mas o simples fato de participar do processo lhes dá exposição midiática e capital político.

Ao mesmo tempo, a competição mais estruturada é entre candidatos com apoio partidário. Nomes como Carolina Tohá, Evelyn Matthei, José Antonio Kast, Johannes Kaiser, Alberto Undurraga e Ximena Rincón representam diferentes setores do governo e dos partidos de oposição. Seus partidos e coalizões procuram organizar o cenário por meio de primárias, embora a fragmentação continue sendo um problema latente.

Esse excesso de indicações não apenas dificulta a consolidação de candidaturas viáveis, mas também prejudica a governabilidade. Em cenários de extrema dispersão eleitoral, o segundo turno se torna um mercado de transações políticas, em que o apoio de determinados candidatos é oferecido ao maior lance em troca de cargos e concessões.

Equador e o mercado de votos no segundo turno

O caso equatoriano ilustra bem essa dinâmica. Nas eleições de 2025, 25 candidatos disputaram a presidência, mas o resultado mostrou que a maioria dos votos se concentrou em apenas dois concorrentes: Daniel Noboa, com 44,17%, e Luisa González, com 44%. Um terceiro candidato, Leônidas Iza, obteve 5,25%, enquanto os outros candidatos ficaram bem abaixo desses números.

O fracionamento dos votos transformou o segundo turno em um jogo de barganha, no qual os candidatos descartados tentaram trocar seu apoio por cargos ou influência no futuro governo. Isso não é coincidência: o Equador tem um sistema partidário frágil e volátil, onde as estruturas políticas são fracas e as eleições dependem cada vez mais de uma liderança personalista. Em um país polarizado, cada voto conta e, com ele, o poder de negociar.

O problema da ausência de projetos de país

Entretanto, o problema não é apenas o excesso de candidatos, mas também a falta de projetos de longo prazo. Na maioria desses casos, as candidaturas não surgem de um plano de governo estruturado, mas de uma série de propostas de curto prazo, muitas delas elaboradas para captar votos imediatamente, sem uma visão clara do futuro do país.

Esse fenômeno é especialmente visível em campanhas que giram em torno da segurança, da economia ou do populismo punitivo, em que promessas simplistas – como cortes drásticos de impostos, encarceramento em massa de criminosos ou eliminação de órgãos estatais – são usadas como ganchos eleitorais, sem estudos de viabilidade ou impacto real. Em muitos casos, essas propostas não resistem a um exame técnico ou jurídico, mas funcionam como uma estratégia de marketing político.

Por outro lado, em países onde a política tradicional perdeu a credibilidade, a promessa do outsider – o candidato que “vem para quebrar o sistema” – tornou-se uma narrativa poderosa. No entanto, a falta de preparação e a improvisação no governo acabam minando a estabilidade institucional, conforme visto em experiências recentes na região.

Fragmentação eleitoral e personalismo: um risco para a democracia

Esse boom de candidaturas também fortalece o personalismo e enfraquece a política programática. Em sistemas políticos onde as estruturas partidárias são frágeis, as eleições deixam de ser uma competição de projetos de país e se tornam uma disputa entre figuras individuais, cada uma com seu próprio eleitorado segmentado e estratégia de negociação.

No caso chileno, a direita enfrenta um dilema fundamental: José Antonio Kast, que chegou ao segundo turno em 2021, e Johannes Kaiser, uma figura ainda mais radical que busca emular os modelos de Trump e Milei. Se Evelyn Matthei conseguir se consolidar como a opção da direita tradicional, ela terá de definir até que ponto está disposta a negociar com esses setores extremistas para garantir sua vitória. Em um cenário de fragmentação, a pergunta é: quanto os candidatos tradicionais podem ceder antes de comprometer a estabilidade democrática?

O mesmo ocorre em outros países da região, onde a multiplicidade de candidaturas não se traduz em mais opções reais para os eleitores, mas sim em um enfraquecimento das instituições. A dispersão eleitoral gera governos com menos legitimidade e maior dificuldade em construir consensos, o que tem um impacto direto na governabilidade.

Conclusão 

Em última análise, a proliferação de candidaturas presidenciais na América Latina é um reflexo dos desafios estruturais de nossas democracias. Além da diversidade de opções na cédula eleitoral, o que está em jogo é a qualidade da representação política. Se as eleições se tornarem uma batalha de egos, um mercado de votos ou uma plataforma de autopromoção, o verdadeiro debate sobre o futuro de nossos países será colocado em segundo plano.

A América Latina precisa de mais do que nomes em uma cédula de votação: precisa de candidatos com uma visão de Estado, propostas sólidas e um compromisso real com o fortalecimento da democracia. Caso contrário, a política continuará a ser um espetáculo em que muitos competem, poucos governam e os cidadãos perdem. 

Tradução automática revisada por Giulia Gaspar.

Autor

Otros artículos del autor

Cientista político da Universidade Diego Portales e professor da Universidad Mayor e da Universidade Alberto Hurtado. Mestrado em Política Comparada FLACSO Equador.

spot_img

Postagens relacionadas

Você quer colaborar com L21?

Acreditamos no livre fluxo de informações

Republicar nossos artigos gratuitamente, impressos ou digitalmente, sob a licença Creative Commons.

Marcado em:

COMPARTILHE
ESTE ARTIGO

Mais artigos relacionados