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África do Sul sob fogo: uma oportunidade para a América Latina em um mundo multipolar

Desde o retorno de Donald Trump, têm impulsionado um nacionalismo econômico exacerbado, uma diplomacia transacional e uma postura crítica em relação aos governos contrários aos interesses de Washington, incluindo a África do Sul.

Em um momento em que o tabuleiro geopolítico global está passando por uma reconfiguração acelerada, o recente confronto entre a administração Trump e o governo sul-africano não apenas revela tensões ideológicas, mas também abre uma janela estratégica para os países da América Latina. Para além das razões que levaram o presidente dos EUA a atacar politicamente a África do Sul, o certo é que esse país africano está se consolidando como um ator decisivo e defensor dos interesses dos países mais vulneráveis do Sul Global. Portanto, a América Latina, em vez de limitar seu olhar aos polos tradicionais de poder, faria bem em aprofundar seu relacionamento com Pretória como parte de uma estratégia abrangente de desenvolvimento, paz e comércio sustentável.

Por que o Trump está atacando a África do Sul?

Desde o retorno de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, suas decisões têm sido marcadas por um nacionalismo econômico exacerbado, uma visão transacional da diplomacia e uma postura crítica em relação aos governos que ele considera contrários aos interesses geopolíticos de Washington. A África do Sul não escapou dessa lógica.

O ponto de inflexão mais recente foi a decisão do governo sul-africano de avançar com uma política de desapropriação de terras sem indenização como parte de seu programa de reforma agrária, que visa corrigir as profundas desigualdades herdadas do apartheid. Embora essa lei possa ser considerada problemática, o governo sul-africano deixou claro que ela só seria aplicada em casos específicos, de forma gradual e com várias salvaguardas para garantir os direitos dos proprietários e dos destinatários subsequentes da terra. No entanto, Trump, em seu tradicional estilo provocativo e com base em uma narrativa promovida pela mídia de extrema direita, como a Fox News e grupos nacionalistas brancos, chamou essa medida de um ato de “discriminação racial reversa” e um ataque à propriedade privada, provocando uma ofensiva política e econômica contra o país africano.

Mas essa não é a única coisa que incomoda Trump. A África do Sul tem adotado uma postura crítica em relação às potências ocidentais em questões importantes, como o conflito em Gaza, o papel da OTAN na Ucrânia e a hegemonia do dólar no comércio global. Soma-se a isso seu processo contra Israel por genocídio perante a Corte Internacional de Justiça e seu papel de liderança nos BRICS, um grupo que inclui Brasil, Rússia, Índia, China, Egito, Etiópia, Indonésia, Irã e Emirados Árabes Unidos, e que consolidou uma agenda contrária à unipolaridade liderada há décadas pelos Estados Unidos.

Em resposta, o governo Trump suspendeu mais de US$ 400 milhões em ajuda à África do Sul, bloqueou acordos comerciais e ofereceu um “caminho rápido” para a cidadania estadunidense aos agricultores sul-africanos brancos, retratados como vítimas da nova lei de reforma agrária, em uma ação tão simbólica quanto estratégica, buscando reforçar sua narrativa nacionalista.

Além do conflito: o que a África do Sul representa

A África do Sul não é apenas mais um país da África Subsaariana. É a economia mais industrializada do continente, membro do G20, uma potência regional e uma ponte natural entre os interesses do Sul Global e os debates no Norte desenvolvido. Também possui uma democracia robusta – embora imperfeita -, instituições consolidadas e uma sociedade civil vibrante que conseguiu lidar com desafios complexos, como a reconciliação pós-apartheid, a corrupção e a desigualdade estrutural.

Do ponto de vista econômico, a África do Sul é um ator com capacidade de promover parcerias estratégicas em setores como mineração responsável, energias renováveis, agronegócios, educação superior e tecnologia. Sua participação ativa em fóruns multilaterais, como a ONU, a União Africana, a SADC e o próprio BRICS, faz dela um interlocutor privilegiado para qualquer país que busque diversificar suas parcerias globais.

Em suma, longe de ser uma nação “problemática”, a África do Sul incorpora muitas das aspirações de uma globalização mais equitativa e inclusiva sustentada pela cooperação Sul-Sul. E é nesse ponto que a América Latina tem muito a ganhar.

América Latina: entre o pragmatismo e a audácia

Durante décadas, a política externa de muitos países latino-americanos foi marcada por um alinhamento com Washington. E, embora essa aliança tenha trazido benefícios importantes em termos de segurança, comércio e cooperação internacional, ela também limitou a capacidade da região de construir uma agenda mais autônoma e diversificada. Hoje, enquanto os Estados Unidos se envolvem em um confronto ideológico e estratégico com um país importante do hemisfério sul, a América Latina tem a oportunidade – e o dever – de repensar suas prioridades.

O estabelecimento de um relacionamento mais próximo e multidimensional com a África do Sul não só serviria para consolidar a autonomia estratégica regional, mas também abriria oportunidades concretas em várias áreas:

1. Comércio e diversificação de mercados

A África do Sul representa um mercado potencial de mais de 60 milhões de pessoas com uma demanda crescente por produtos agrícolas, energéticos e industriais. Os países latino-americanos, com sua riqueza de recursos naturais, capacidade agrícola e setor terciário em crescimento, podem se posicionar como fornecedores importantes de alimentos, insumos e serviços. O fortalecimento dessa relação permitiria reduzir a dependência excessiva do comércio com os Estados Unidos, a União Europeia e a China.

2. Transferência de conhecimento e cooperação Sul-Sul

A África do Sul desenvolveu políticas públicas inovadoras em áreas como saúde pública, educação inclusiva, urbanismo sustentável e gestão de recursos naturais. A América Latina poderia se beneficiar muito de intercâmbios técnicos e acadêmicos com instituições sul-africanas, especialmente em questões relacionadas à igualdade social, mineração sustentável e desenvolvimento rural.

3. Segurança e paz

Tanto a África do Sul quanto vários países latino-americanos passaram por processos complexos de reconciliação nacional. A África do Sul tornou-se uma referência global com sua Comissão da Verdade e seu modelo de justiça restaurativa. Em contextos latino-americanos marcados por conflitos internos, desigualdade ou violência estrutural, a cooperação bilateral focada na construção da paz, na memória e na reparação pode gerar sinergias valiosas.

4.  Alianças em fóruns multilaterais

A crescente influência da África do Sul em blocos como o BRICS e sua liderança no continente africano podem abrir novas portas diplomáticas para a América Latina como um todo. Em um mundo multipolar, a construção de alianças com países como a África do Sul pode expandir a capacidade de defesa global da região, sem ficar presa a lógicas de blocos ou lealdades geopolíticas rígidas.

O que está em jogo

A crise entre Trump e a África do Sul não é um episódio isolado. É mais um exemplo de como a ordem internacional está mudando rapidamente. Nesse novo cenário, os países que conseguirem navegar com flexibilidade e visão estratégica terão mais chances de garantir seu bem-estar e estabilidade.

A América Latina tem a possibilidade de ler corretamente o momento histórico, abandonando políticas externas excessivamente reativas e construindo uma agenda baseada em princípios de cooperação, equidade e pluralidade. Aproximar-se da África do Sul não significa romper com os Estados Unidos, mas sim acrescentar novas vozes e aliados a uma conversa global na qual o Sul pode – e deve – desempenhar um papel de liderança.

Em tempos de tensões globais, a ousadia diplomática é um exemplo valioso de uma região que acredita em um sistema internacional baseado na paz, no desenvolvimento e na soberania. A África do Sul não é um inimigo a ser evitado, como pretende Trump, mas um parceiro estratégico a ser valorizado. E a América Latina, se agir com inteligência coletiva, pode encontrar em Pretória um grande aliado nestes tempos de incerteza geopolítica.

Tradução automática revisada por Giulia Gaspar.

Autor

Profesor de Estudios Africanos, Sur Global, Gobernanza Global, Agenda Internacional Contemporánea y Cooperación Sur-Sur de la Universidad Externado de Colombia. Doctor en Geografía de la Universidad de Ciudad del Cabo, Sudáfrica.

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