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America First: tarifas, poder militar e a defesa de interesses corporativos

A estratégia promove o uso coordenado de instrumentos comerciais, financeiros e geopolíticos para garantir vantagens globais às grandes corporações americanas.

Donald Trump está reconfigurando a política econômica e externa dos Estados Unidos com instrumentos comerciais, militares, financeiros e culturais orientados a restaurar e assegurar a primazia de seus grandes capitais. O governo utiliza tarifas, pressão diplomática, mobilização militar e poder financeiro para proteger os interesses corporativos; ao mesmo tempo, redefine a narrativa pública com uma ênfase renovada na soberania, na cultura e na segurança nacional.

As tarifas voltam a ser uma ferramenta central. As negociações com os países da União Europeia resultaram em uma tarifa básica de 15% sobre produtos europeus, incluindo automóveis, em troca de maiores compras de energia estadunidense e investimento direto nos EUA. Essa política tarifária busca reorientar as cadeias de abastecimento e atrair investimentos produtivos, em linha com o lema America First. Paralelamente, o governo promove uma expansão irrestrita da produção de combustíveis fósseis e desacredita agendas climáticas como a “zero neto”, o que favorece grandes empresas energéticas e extrativas com interesses nos mercados globais.

O uso do poder militar e de ações de força seletiva faz parte da estratégia. O governo liderou operações que alteraram os equilíbrios regionais: a gestão do conflito Rússia-Ucrânia, o apoio tático e diplomático a Israel contra a Palestina, as operações de elite na Venezuela que facilitaram mudanças políticas favoráveis aos interesses petrolíferos e o ataque militar ao Irã em companhia de Israel. Na Venezuela, um resultado: o Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC) autorizou a Repsol, Eni, BP, Chevron e Shell a operar na Venezuela: extração, refino, transferência de tecnologia e acordos com a PDVSA. O controle das reservas estratégicas de hidrocarbonetos constitui um objetivo geoeconômico explícito cuja captura implica benefícios diretos para corporações anglo-americanas com capacidade tecnológica e financeira.

No campo da política interna e do discurso internacional, Trump enfatizou a centralidade do dólar e do sistema financeiro estadunidense como pilares da segurança nacional. Em sua Estratégia de Segurança Nacional (NSS, 2025), sustenta que a sobrevivência da república está intimamente ligada à continuidade “do sistema financeiro e dos mercados de capitais líderes…, incluindo o status do dólar como moeda de reserva global”. Essa posição explica políticas que combinam estímulos internos — com fortes aumentos nos gastos militares e subsídios a setores estratégicos — com medidas para preservar a liquidez internacional do dólar e a prevalência das instituições financeiras americanas nos mercados globais.

O fortalecimento militar vem acompanhado de números: o governo afirma ter impulsionado um investimento de um trilhão de dólares nas Forças Armadas e pressiona os aliados da OTAN a elevar os gastos militares da meta tradicional de 2% do PIB para 5%. Essa reivindicação implica não apenas um rearmamento coletivo favorável à indústria de defesa dos EUA, mas também a consolidação de cadeias de abastecimento militares e tecnológicas dominadas por empresas americanas. Na verdade, a NSS combina o “exército mais poderoso e capaz do mundo” com recursos econômicos e tecnológicos para exercer influência em teatros geopolíticos, e soma o poder cultural como complemento para legitimar a estratégia.

A intervenção discursiva em fóruns globais reforça esse quadro. Em Davos, Trump defendeu que a prosperidade ocidental veio de “nossa cultura tão especial” mais do que de códigos tributários, e reivindicou a defesa dessa cultura como base da liderança transatlântica. Esse relato cultural — a reivindicação do American Way of Life e a noção de liberdade ligada ao mercado — serve para validar políticas que priorizam a rentabilidade corporativa e a primazia financeira em detrimento de agendas multilaterais de consolidação fiscal ou ação climática.

Esse divórcio com as recomendações de organismos multilaterais é notável. O FMI, em sua atualização das Perspectivas da Economia Mundial (janeiro de 2026), insiste na necessidade de “reconstruir reservas fiscais” e avançar em reformas para controlar a dívida e sustentar o crescimento. A política dos Estados Unidos se afasta do roteiro do FMI: o estímulo por meio de gastos militares e o apoio aos combustíveis fósseis substituem as medidas de consolidação fiscal e reformas estruturais. O governo chegou a assinar a Ordem Executiva 14199, retirando financiamento federal de várias agências e ONGs internacionais consideradas “contrárias aos interesses dos Estados Unidos”, o que reduz a capacidade multilateral de resposta em áreas como desenvolvimento, saúde e mudanças climáticas.

A combinação de intervenções econômicas, militares e culturais gera um modelo de acumulação e poder que favorece um núcleo de grandes financistas e rentistas.

Esses atores, intimamente ligados ao Estado, obtêm benefícios diretos: acesso preferencial a recursos naturais (petróleo e gás), contratos de defesa, vantagens regulatórias e proteção diplomática. A encenação de conflitos controlados — desde sanções e operações seletivas até alianças estratégicas — estabiliza cenários propícios para o investimento desses grupos, mesmo quando a economia global passa por baixo crescimento e volatilidade financeira.

No plano interno, a disputa cultural se intensifica. As políticas migratórias e as operações do Departamento de Controle e Alfândega (ICE) provocaram reações cidadãs e mobilizações locais, como em Minneapolis, onde se multiplicaram os protestos contra a presença da agência. O choque também ficou evidente no terreno simbólico: o espetáculo do intervalo do Super Bowl LX em São Francisco, com a apresentação de Bad Bunny, que reivindicou uma América culturalmente diversa da Terra do Fogo ao Alasca, foi alvo de críticas da Casa Branca. Esse episódio reflete a tensão entre uma narrativa inclusiva e multicultural — que reconhece os povos originários, as migrações e as misturas étnicas como parte do futuro humano — e a narrativa oficial que privilegia uma versão tradicionalista e comercializável do caráter americano.

A tensão entre um discurso de hegemonia cultural e a realidade econômica subjacente é fundamental. O governo proclama baixa inflação e crescimento sustentado; dados oficiais mostram reduções pontuais no índice de preços ao consumidor em determinados trimestres e aumentos na produção de hidrocarbonetos. No entanto, o crescimento global continua fraco, a dívida pública dos Estados Unidos permanece em níveis elevados (superiores a 120% do PIB em termos brutos) e os riscos financeiros persistem. A aposta na primazia por meio de gastos militares, controle de recursos e consolidação do poder cultural não elimina as vulnerabilidades macroeconômicas nem a necessidade de políticas fiscais e estruturais que promovam a produtividade e a redução das desigualdades.

Tradução automática revisada por Isabel Lima

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Professor e pesquisador sênior do Departamento de Economia da Universidade Autônoma Metropolitana (UAM), Unidade Iztapalapa. Doutor em Estudos Latino-Americanos (Ciência Política) pela UNAM, México.

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