América Latina diante da nova febre da mineração: extração e disputa global

A nova febre mineira coloca a América Latina no centro da disputa global, aprofundando o extrativismo, a dependência e o conflito territorial sob o discurso da transição energética e do desenvolvimento.

Desde os anos 90, a mineração na América Latina deixou de ser só mais uma atividade econômica. Tornou-se um dispositivo de reorganização territorial, ecológica e política. Sob o discurso do desenvolvimento e da modernização, a expansão da fronteira extrativista alterou as próprias bases sobre as quais se sustentam a vida e a soberania na região.

O primeiro impacto recaiu sobre a natureza. A mineração em grande escala — predominantemente a céu aberto — não só transforma os ecossistemas: os torna sacrificáveis. Rios contaminados, florestas fragmentadas e montanhas perfuradas são a expressão visível de um processo mais profundo: a conversão de territórios vivos em espaços de extração intensiva. Mas os danos não se limitam ao plano ambiental. Com a devastação ecológica, avança a expropriação de comunidades cuja relação com a natureza não é utilitária nem mercantil, mas parte constitutiva de seu modo de vida.

O segundo eixo dessa ferida aberta é a especialização produtiva imposta aos países latino-americanos. Embora a mineração tenha uma matriz colonial, sua recente consolidação responde a dinâmicas próprias do capitalismo financeirizado contemporâneo: ciclos de alta dos preços, mudanças tecnológicas, transformações na organização produtiva e energética e predominância financeira. Em outras palavras, ao próprio metabolismo do capital. A América Latina não elegeu esse lugar na economia mundial: foi integrada como provedora estratégica de minerais para sustentar a acumulação global das economias centrais e emergentes.

Esse processo não foi acidental nem resultado de decisões isoladas. Faz parte do funcionamento estrutural do capitalismo dependente. Desde os anos 1990, a natureza foi “flexibilizada” para se tornar não só fonte de lucros produtivos, mas também financeiros. Sob a batuta das grandes corporações extrativas, a chamada modernização mineira ocultou uma profunda abertura: a perda de soberania sobre os recursos e a subordinação dos interesses nacionais ao mandato do capital privado nacional, mas, sobretudo, transnacional.

Enquanto as empresas mineiras exibiam lucros visíveis, nas sombras operava um segundo circuito de apropriação. Acionistas, fundos de investimento e bancos globais extraíam valor sem tocar no território. A riqueza natural deixou de ser só um recurso físico: transformou-se em uma promessa financeira, negociada em bolsas de valores e mercados futuros, longe das comunidades afetadas pela extração. Assim, a mineração não só gerou excedentes produtivos, mas também rendimentos financeiros transferidos aos centros de poder econômico mundial.

Hoje, essa dinâmica é reativada sob novas formas. A disputa hegemônica entre Estados Unidos e China coloca novamente a América Latina no centro do tabuleiro global. A chamada “transição energética” e o novo ciclo tecnológico caracterizado pela digitalização tornam os minerais estratégicos peças-chave para a indústria, a segurança nacional e a liderança tecnológica. O resultado não é novo: os mecanismos históricos de espoliação se reciclam, agora legitimados por uma linguagem verde e tecnológica, enquanto se aprofundam as brechas de desigualdade econômica e ecológica.

Diante desse cenário, a gestão dos recursos naturais torna-se uma questão decisiva. Não se pode pensar apenas em termos nacionais, mas regionais. A América Latina possui uma margem de manobra real: sem seus minerais, grande parte do ciclo de vida das tecnologias contemporâneas simplesmente não é viável. No entanto, essa margem não será ativada automaticamente. Ela requer ação política coordenada, regulamentação comum e limites claros ao poder financeiro que hoje domina os mercados extrativos.

Uma estratégia regional permitiria captar rendas extraordinárias, frear a dissipação da riqueza nos circuitos globais e orientar os excedentes para a transformação das matrizes produtivas. A diversidade mineral da região é uma vantagem estratégica: cada país pode contribuir com um elo da cadeia de valor e construir força coletiva frente ao capital extrativo. Sem coordenação, essa riqueza se torna vulnerabilidade; com ela, pode se transformar em capacidade de negociação.

Mas nenhuma alternativa será viável se ignorarmos quem está na linha de frente do conflito. As comunidades, expressão viva de uma sociedade plural e diversa, enfrentam as consequências irreversíveis da mineração intensiva, tanto industrial quanto artesanal. Reconhecer seus modos de vida e sua relação com a natureza não é um gesto simbólico, mas uma condição básica para imaginar saídas para o confronto extrativista. Sem um Estado que defenda os territórios como parte de uma política soberana, o capital transnacional age com a liberdade — e a violência — que lhe garante a impunidade.

O que está em jogo não é só um modelo econômico. É a capacidade de decidir o futuro da região. Persistir no padrão primário-exportador implica aprofundar a dependência e acelerar a devastação ecológica. Além dos minerais, a América Latina enfrenta um dilema histórico: continuar sendo fornecedora de matérias-primas ou construir um caminho próprio que priorize a vida, a autonomia e as necessidades de seus povos.

Porque, em última análise, não se trata apenas de extrair recursos. Trata-se de decidir quem decide o destino dos territórios e de quem os habita.

Tradução automática revisada por Isabel Lima

Autor

Economista, com mestrado em Estudos Latino-Americanos pela Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM) e em Sociologia pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (FLACSO). É doutorando em Estudos Latino-Americanos pela UNAM e pesquisador do Núcleo de Pesquisa em Geopolítica, Integração Regional e Sistema Mundial da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).